12 Março 2006
As crónicas aqui apresentadas foram escritas a convite do sub-director do jornal Diário do Sul, Manuel Piçarra (filho) para integrarem o suplemento cultural semanal daquele orgão da imprensa, que ele iniciou desde 2004.
São textos escritos semanalmente, entre Maio de 2004 e Julho de 2005, e tentam criar alguma discussão e ponderação sobre a vasta temática da arquitectura, procurando ter um conteúdo acessível à maioria dos leitores que não está familiarizada com estas questões. Tratando-se do jornal de maior tiragem e leitura a nível do distrito (mesmo comparativamente com jornais nacionais), pareceu justificável a opção ocasional por temas de abrangência mais local.
Por motivos vários - que poderiam sempre filiar-se na grande familia da censura e do medo pela livre expressão e pelos efeitos perturbadores da crónica de opinião - a série de publicações semanais foi interrompida por longo período, sendo retomada após solicitações várias, vindo a ser definitivamente abandonada no final de Julho de 2005.
Que fique assinalado o empenhamento e interesse louváveis com que o sub-director Manuel Piçarra (filho) se bateu pela publicação destas crónicas e pela liberdade de opinião na sua elaboração.
Para que o marasmo do politicamente correcto não triunfe, publiquei estes textos na íntegra, esperando com isso não a simples divulgação de opiniões próprias, mas a saudável provocação ou o simples pretexto para a discussão e a ponderação sobre estas temáticas.
Acijma de tudo, que este blog não seja entendido como sendo exclusivo a arquitectos!
*Os textos estão identificados com o número de crónica e com o título e a data com que foram originalmente publicados no D. Quixote - suplemento cultural do Diário do Sul, todas as quartas-feiras.
27 Julho 2005
23 _ se um elefante incomoda muita gente...
Eis-nos chegados à última semana de Julho. Por esta altura, já muitos partiram de férias, enquanto outros aderem à tendência maioritária(?) das férias em Agosto.
É altura das viagens, das promoções, dos incentivos à escolha de destinos paradisíacos...
Uma das coisas que muito me desagrada nestas investidas da promoção de destinos de férias, é aquele sector da imprensa e revistas da especialidade que, ainda não percebi se por generosidade ingénua ou se por pedantismo, apregoa a busca de locais “semi-selvagens” como fuga aos destinos habituais e propõe alguns desses destinos que, até aí, eram bastante tranquilos e agradáveis. Claro que, a partir daí, deixam de o ser. Na minha opinião, isso só serve para destruir os poucos lugares onde ainda se pode gozar de alguma tranquilidade, já que aqueles que gostam realmente de sítios diferentes têm a iniciativa e o saber para os procurarem e para terem a gratificante recompensa da descoberta (muito mais saborosa do que a previsibilidade).
Pessoalmente, tenho por hábito (que tem tanto de egoísta como de pura manobra de sobrevivência) não revelar os locais de férias preferidos, ou pelo menos não andar por aí a apregoá-los aos sete ventos, para aí não ter de encontrar, num ano seguinte, uma horda de barraquinhas de cachorros, de parques de estacionamento, de cheiro a bronzeador de côco, de crianças histéricas, de pais no limiar da irritabilidade, e de todos aqueles estereótipos que a banda desenhada de Frank Margerin, por exemplo, tão bem captou. Por isso fico até contente com os hábitos da maioria.
É que essa maioria, apesar de se estar a espalhar um pouco por todo o lado, tem uma série de destinos migratórios sazonais de pouca diversidade. E se isto é saudável para a preservação dos locais menos concorridos, é extremamente saturante para os destinos preferenciais das massas. E com uma agravante - com a necessidade de dar resposta às multidões que acorrem a esses locais, foi (e está a ser) criada uma série de condições para a recepção dessas massas. O caso do Algarve é, obviamente, um paradigma desta realidade. O grande problema é que esse crescimento desmesurado traz graves situações de insuficiência, quer de um lado quer de outro. Ou seja, se as povoações não se adaptarem à afluência pontual e sazonal de turístas, entram em ruptura quando esse fenómeno ocorre, mas, se pelo contrário, forem equipadas para darem resposta à “invasão”, ficam com insuficiência de utilizadores de todos os equipamentos introduzidos, aquando do abandono das massas, em final de época.
Durante algum tempo, morei numa localidade costeira do sudoeste alentejano, bem conhecida de todos, e pude verificar em primeira mão esta oscilação entre dois extremos, sem que haja realmente um equilibrio, exceptuando uns escassos dias por ano, em início e fim de época. É uma povoação que cresceu bastante - e, pasme-se(!), mal... - quase exclusivamente à custa da construção de edifícios de habitação. E aqui surge outro problema, porventura mais grave. Na realidade, as malhas urbanas desses locais densificam-se e expandem-se, mas a introdução de sistemas de infra-estruturas e de equipamentos complementares não acompanha o aumento da construção de moradias. Até porque, se integrarmos o sector privado no fornecimento de equipamentos e serviços desses locais, temos de chegar à conclusão que muito dificilmente um investimento se paga com uma utilização de algumas semanas por ano, ainda que essa utilização ocorra de forma intensiva. Se pensarmos que a maioria das habitações de que falo se destinam a casas de férias e/ou de fim-de-semana, então o caso fica mais flagrante.
Então lá estava eu, nessa charmosa localidade costeira alentejana, a mover-me numa espécie de cidade-fantasma durante todo o ano, em que raramente encontrava alguém nas ruas depois do recolher das velhotas que saíam da missa das 18h30, em que não havia mais do que dois ou três sítios onde se pudesse ir comer, conviver ou socializar, e quase apenas aos fins-de-semana e durante o dia, e em que o dia-a-dia era menos impulsivo do que seria desejável, pela escassez de oferta a todos os níveis. Para depois, assim que o sol começava a anunciar o calor do sul lusitano, ter “o quintal semeado” de turístas em bandos frenéticos. Nessa altura, era uma situação semelhante, mas por causas opostas - não se podia ter acesso a nada, não havia lugar em lado nenhum, tudo pela diferença entre o volume e o conteúdo. Era quase o mesmo do que não ter nada, com a agravante da desordem e do caos.
Mas o pior, mesmo, desta situação, não é o desconforto gerado de forma idiossincrática, mas antes a questão das infra-estruturas de abastecimento e de saneamento, com a total incapacidade de resposta para a afluência em massa. Os esgotos saturavam, a água não era bastante, o sistema de recolhas de lixo era ineficaz, etc, etc.
Mas a solução deste problema não é nada fácil. Por um lado, não se pode querer fechar as localidades à procura turística, nem se conseguiria, mesmo caindo no erro de assim se decidir. Por outro lado, todos os serviços e condições de funcionamento desses mesmos locais estão constituídos para darem resposta a um rítmo e intensidade de vida e de utilização muito baixos, tendo em conta a escassa população que ali reside. E, se a nível da tal intervenção do sector privado (falo da oferta de serviços e de bens) a situação até poderá ser, já de si, difícil de definir, passando por casos pontuais e por eventuais sazonalidades de funcionamento - segundo a rentabilidade possivel - no que diz respeito às infra-estruturas, a coisa é mais complexa, mas poderia estar mais afinada em certos aspectos. Um deles é o controlo rigoroso da utilização dos espaços de alojamento, tais como, por exemplo, os parques de campismo, que, invariavelmente, no nosso país, estão sobre-lotados e sem infra-estruturas competentes. A articulação, a nível do planeamento urbano, deste e de outros tipos de equipamentos que atraiam turístas tem de estar associada à intervenção municipal no campo das infra-estruturas.
A tal povoação costeira onde eu vivia, por exemplo, tinha cerca de três mil habitantes permanentes, e recebia alguns trinta mil no pico da época de férias. Perante esta situação, parece-me exigível que as infra-estruturas estejam preparadas para o limite superior, funcionando em “sub-rendimento” durante o resto do ano (por oposição a funcionarem de forma insuficiente no período forte). Claro que a situação não era esta... Isto se, de facto, se quer “permitir” (ou criar as condições que permitam) a vinda de tamanha quantidade de pessoas nessas épocas.
Claro que há outros problemas mais complicados, tais como a heterogenidade da malha urbana, a criação de zonas de utilização diversa, como oposição à desaconselhável expansão de zonas dormitório, que é o que acontece. Um pouco como termos uma casa grande, onde recebemos amigos aos fins-de-semana, mas que utilizamos no seu todo, ao invés de termos meia dúzia de divisões que só se utiliza aos fins-de-semana, para alojar esses convidados, e que mantemos fechadas e inutilizadas durante o resto da semana.
Mas isso é um assunto muito mais difícil de resolver. Tão mais difícil e complexo, que nem me atrevo a falar disso aqui, em meia dúzia de linhas.
Bom seria, para já, que as condições básicas de abastecimento e saneamento dos locais mais procurados não fossem insuficientes para a utilização turística pontual, e que não ficassem em ruptura após a debandada geral, como uma carcaça abandonada por um predador, depois de um breve e regozijante festim.
Para que ir de férias saiba bem e para que quem lá fica depois também se sinta bem com isso.
Eu por mim, nas próximas semanas ainda cá estarei com estas crónicas. Depois também hei-de ir de férias. Mas... desculpem lá, não digo para onde...
É altura das viagens, das promoções, dos incentivos à escolha de destinos paradisíacos...
Uma das coisas que muito me desagrada nestas investidas da promoção de destinos de férias, é aquele sector da imprensa e revistas da especialidade que, ainda não percebi se por generosidade ingénua ou se por pedantismo, apregoa a busca de locais “semi-selvagens” como fuga aos destinos habituais e propõe alguns desses destinos que, até aí, eram bastante tranquilos e agradáveis. Claro que, a partir daí, deixam de o ser. Na minha opinião, isso só serve para destruir os poucos lugares onde ainda se pode gozar de alguma tranquilidade, já que aqueles que gostam realmente de sítios diferentes têm a iniciativa e o saber para os procurarem e para terem a gratificante recompensa da descoberta (muito mais saborosa do que a previsibilidade).
Pessoalmente, tenho por hábito (que tem tanto de egoísta como de pura manobra de sobrevivência) não revelar os locais de férias preferidos, ou pelo menos não andar por aí a apregoá-los aos sete ventos, para aí não ter de encontrar, num ano seguinte, uma horda de barraquinhas de cachorros, de parques de estacionamento, de cheiro a bronzeador de côco, de crianças histéricas, de pais no limiar da irritabilidade, e de todos aqueles estereótipos que a banda desenhada de Frank Margerin, por exemplo, tão bem captou. Por isso fico até contente com os hábitos da maioria.
É que essa maioria, apesar de se estar a espalhar um pouco por todo o lado, tem uma série de destinos migratórios sazonais de pouca diversidade. E se isto é saudável para a preservação dos locais menos concorridos, é extremamente saturante para os destinos preferenciais das massas. E com uma agravante - com a necessidade de dar resposta às multidões que acorrem a esses locais, foi (e está a ser) criada uma série de condições para a recepção dessas massas. O caso do Algarve é, obviamente, um paradigma desta realidade. O grande problema é que esse crescimento desmesurado traz graves situações de insuficiência, quer de um lado quer de outro. Ou seja, se as povoações não se adaptarem à afluência pontual e sazonal de turístas, entram em ruptura quando esse fenómeno ocorre, mas, se pelo contrário, forem equipadas para darem resposta à “invasão”, ficam com insuficiência de utilizadores de todos os equipamentos introduzidos, aquando do abandono das massas, em final de época.
Durante algum tempo, morei numa localidade costeira do sudoeste alentejano, bem conhecida de todos, e pude verificar em primeira mão esta oscilação entre dois extremos, sem que haja realmente um equilibrio, exceptuando uns escassos dias por ano, em início e fim de época. É uma povoação que cresceu bastante - e, pasme-se(!), mal... - quase exclusivamente à custa da construção de edifícios de habitação. E aqui surge outro problema, porventura mais grave. Na realidade, as malhas urbanas desses locais densificam-se e expandem-se, mas a introdução de sistemas de infra-estruturas e de equipamentos complementares não acompanha o aumento da construção de moradias. Até porque, se integrarmos o sector privado no fornecimento de equipamentos e serviços desses locais, temos de chegar à conclusão que muito dificilmente um investimento se paga com uma utilização de algumas semanas por ano, ainda que essa utilização ocorra de forma intensiva. Se pensarmos que a maioria das habitações de que falo se destinam a casas de férias e/ou de fim-de-semana, então o caso fica mais flagrante.
Então lá estava eu, nessa charmosa localidade costeira alentejana, a mover-me numa espécie de cidade-fantasma durante todo o ano, em que raramente encontrava alguém nas ruas depois do recolher das velhotas que saíam da missa das 18h30, em que não havia mais do que dois ou três sítios onde se pudesse ir comer, conviver ou socializar, e quase apenas aos fins-de-semana e durante o dia, e em que o dia-a-dia era menos impulsivo do que seria desejável, pela escassez de oferta a todos os níveis. Para depois, assim que o sol começava a anunciar o calor do sul lusitano, ter “o quintal semeado” de turístas em bandos frenéticos. Nessa altura, era uma situação semelhante, mas por causas opostas - não se podia ter acesso a nada, não havia lugar em lado nenhum, tudo pela diferença entre o volume e o conteúdo. Era quase o mesmo do que não ter nada, com a agravante da desordem e do caos.
Mas o pior, mesmo, desta situação, não é o desconforto gerado de forma idiossincrática, mas antes a questão das infra-estruturas de abastecimento e de saneamento, com a total incapacidade de resposta para a afluência em massa. Os esgotos saturavam, a água não era bastante, o sistema de recolhas de lixo era ineficaz, etc, etc.
Mas a solução deste problema não é nada fácil. Por um lado, não se pode querer fechar as localidades à procura turística, nem se conseguiria, mesmo caindo no erro de assim se decidir. Por outro lado, todos os serviços e condições de funcionamento desses mesmos locais estão constituídos para darem resposta a um rítmo e intensidade de vida e de utilização muito baixos, tendo em conta a escassa população que ali reside. E, se a nível da tal intervenção do sector privado (falo da oferta de serviços e de bens) a situação até poderá ser, já de si, difícil de definir, passando por casos pontuais e por eventuais sazonalidades de funcionamento - segundo a rentabilidade possivel - no que diz respeito às infra-estruturas, a coisa é mais complexa, mas poderia estar mais afinada em certos aspectos. Um deles é o controlo rigoroso da utilização dos espaços de alojamento, tais como, por exemplo, os parques de campismo, que, invariavelmente, no nosso país, estão sobre-lotados e sem infra-estruturas competentes. A articulação, a nível do planeamento urbano, deste e de outros tipos de equipamentos que atraiam turístas tem de estar associada à intervenção municipal no campo das infra-estruturas.
A tal povoação costeira onde eu vivia, por exemplo, tinha cerca de três mil habitantes permanentes, e recebia alguns trinta mil no pico da época de férias. Perante esta situação, parece-me exigível que as infra-estruturas estejam preparadas para o limite superior, funcionando em “sub-rendimento” durante o resto do ano (por oposição a funcionarem de forma insuficiente no período forte). Claro que a situação não era esta... Isto se, de facto, se quer “permitir” (ou criar as condições que permitam) a vinda de tamanha quantidade de pessoas nessas épocas.
Claro que há outros problemas mais complicados, tais como a heterogenidade da malha urbana, a criação de zonas de utilização diversa, como oposição à desaconselhável expansão de zonas dormitório, que é o que acontece. Um pouco como termos uma casa grande, onde recebemos amigos aos fins-de-semana, mas que utilizamos no seu todo, ao invés de termos meia dúzia de divisões que só se utiliza aos fins-de-semana, para alojar esses convidados, e que mantemos fechadas e inutilizadas durante o resto da semana.
Mas isso é um assunto muito mais difícil de resolver. Tão mais difícil e complexo, que nem me atrevo a falar disso aqui, em meia dúzia de linhas.
Bom seria, para já, que as condições básicas de abastecimento e saneamento dos locais mais procurados não fossem insuficientes para a utilização turística pontual, e que não ficassem em ruptura após a debandada geral, como uma carcaça abandonada por um predador, depois de um breve e regozijante festim.
Para que ir de férias saiba bem e para que quem lá fica depois também se sinta bem com isso.
Eu por mim, nas próximas semanas ainda cá estarei com estas crónicas. Depois também hei-de ir de férias. Mas... desculpem lá, não digo para onde...
20 Julho 2005
22 _ a história da arquitectura
Ao contrário do que poderia sugerir uma metodologia mais racional das várias actividades da minha vida, não sou daquelas pessoas que tem um livrinho onde se assenta todos os afazeres e tarefas do futuro, mais ou menos próximo, nem tão pouco sou utilizador ou fã incondicional das tão elegantes e pomposas agendas de trabalho. Tenho, isso sim, um esquema mental das minhas ocupações e seus respectivos prazos. De forma que também não tenho uma lista organizada por temas ou sequenciada dos assuntos a tratar neste espaço de crónicas semanais. Ou seja: todas as segundas-feiras (o mais tardar), lá estou eu a lembrar-me “tenho de escrever a crónica para enviar amanhã para a redacção, para sair na quarta...!” Daí que me depare constantemente com a questão “sobre o que é que seria interessante escrever, esta semana?...” E é esse confronto com o vazio que torna interessante qualquer processo criativo. Tal como o escritor perante a folha em branco, o pintor face à vastidão intimidatória da tela limpa, o músico ante o silêncio...
E desta sensação me veio a vontade de escrever sobre esse momento, na aplicação específica do exercício da arquitectura, desse ponto de partida.
Quando se inicia um projecto de arquitectura, há uma série de luzes e indicadores que servem, simultaneamente, de limitadores de “devaneio”, mas também de indicadores de percursos, ou, pelo menos, de pistas de soluções possíveis. E se a componente limitativa pode ter um carácter negativo (e até opressor), não é menos verdade que as pistas que a mesma fonte nos fornece são extremamente úteis no desbravar dos primeiros passos projectuais.
Há sempre uma série de “modeladores” de percurso, inerentes à especificidade da intervenção e da situação, que são uma espécie de criadores do “humor do projecto”. Esses elementos contextuais, que apelidei de “modeladores”, podem ser (como, de resto, já aqui referi, salvo erro, há bastante tempo atrás) de três grandes famílias: de origem regulamentar (por imposições e restrições da legislação aplicável); de origem no promotor da obra, o “cliente” do arquitecto (por requisitos e exigências específicas - incluíndo as de teor económico, claro); de origem técnica (por especificidades do local, das técnicas construtivas disponíveis, da mão-de-obra, etc).
Mas, uma vez detectados estes limites, o arquitecto funcionará como um prisma para o qual converge a luz dispersa, emitindo um feixe preciso e focado pela outra extremidade.
E é precisamente aqui que reside o meu principal comentário de hoje - na forma como o arquitecto agarra nesses indicadores (limitações, exigências, requisitos, etc) e transforma isso num projecto.
Ora, no meu entender, a arquitectura insere-se tanto na família técnica das actividades humanas como na artística. E, partindo deste pressuposto, as duas componentes serão indissociáveis, sabendo que cada uma delas apenas poderá ir até onde não comprometa a outra.
Mas se, como digo atrás, a arquitectura tem uma componente artística inalienável, e entendendo a arte como algo que é, inevitavelmente, comunicação (entre outras coisas), então o caminho do arquitecto deverá ser bastante bem trilhado.
No meu entender, aquilo que é fundamental a qualquer obra que contenha uma faceta artística é contar uma história! Obviamente que não me refiro a uma história necessariamente línear, com um enredo e uma sequência cronológica. Nem sequer terá (nem deverá) de ser uma história palpável e “escandalosamente” perceptível, sob pena de se perder todo o interesse do jogo da comunicação que é o da descoberta-por-envolvimento da mensagem pelo destinatário. Um poema pode ser uma história, mesmo que tenha uma forma extremamente onírica e descontínua. Uma pintura abstracta pode ser uma história. Um gesto pode ser uma história...
No fundo, aquilo a que quero chegar é isto: Um projecto de arquitectura (deixemos agora de parte as outras intervenções artísticas), para o ser, tem de ter um conceito! E esse conceito tem de ser omnipresente (passe a redundância - uma vez que, se não for a bitola de todas as opções, não é um conceito, mas apenas ornamentação teórica episódica).
Quando falo de um conceito, não me refiro àquela coisa primária (quase patética, já) de “quartos virados a nascente, zona de serviços separada das zonas íntímas, pontos de água concentrados, etc”. Isso não é conceito nenhum, e não é arquitectura, sequer - é um conjunto de opções funcionais, de nível básico (ainda que possam ser extrememente válidas, em determinados contextos) que deverá ser posto ao serviço, ou em concordância com o conceito gerador do projecto. Obviamente não vos vou dar exemplos do que será um conceito, porque isso seria até algo paradoxal, num cenário tão abstracto. Mas, para tentar ilustrar o que digo, posso sugerir a imagem de um actor (mas um que seja bom...) que, mesmo recorrendo sempre a uma série de técnicas e processos, mais ou menos académicos e reincidentes, pauta-se sempre por um conceito - o da personagem que está a interpretar. Ele absorve a essência da personagem, e tudo aquilo que faz, mesmo se for um recurso comum a outras interpretações, sai “moldado” por essa personalidade que ele tenta encarnar naquela peça ou filme em concreto.
Bem sei que corro o risco de não ser bem entendido por alguns, porque, infelizmente, esta presença de vida própria (que é o conceito de um projecto específico) não está presente na esmagadora maioria dos edifícios e das intervenções que à nossa volta se faz.
Causa-me sempre alguma apreensão quando falo com algum projectista (note-se que a maioria dos que exercem não são arquitectos) e me explicam um projecto começando pela porta de entrada, depois há os quartos, depois não sei o quê... Isto mostra a total ausência de um conceito de fundo, porque, quando ele existe, a explicação de um projecto passa por uma teia de considerações e de ponderações muito reflectidas, que só adquirem “essa coisa dos quartos e da entrada” numa fase muito posterior e como consequência (quase inevitável) desse conceito. Até porque, de certo modo, quando se inicia um projecto, ele pode ter infinitas soluções, mas, após se surgir essa presença de um conceito no processo, a solução é quase “a única possível”. A própria coerência de raciocínios e de gestualidades quase tem essa inevitabilidade implícita.
Não me entendam mal! O conceito não deve ser algo que freneticamente se busca numa tentativa de minimizar falhas de inspiração ou de recursos, nem deve ser algo que se introduz no processo para “explicar o inexplicável”. Ele deverá surgir de forma expontânea, e tal até poderá nem acontecer de forma consciente ou racional. Mas, ao surgir, vai subtilmente moldar os nossos gestos, aferindo coerência e vigor ao projecto, dando-lhe uma vida própria.
Numa comparação algo lacónica, a ausência de um conceito próprio na elaboração de um projecto poder-se-ía ver como a produção de um filme em que a história é sempre (por exemplo) a de um rapaz que conhece uma rapariga, apaixonam-se, acontece uma desgraça, vencem a desgraça e vivem felizes para sempre. Apenas se vai mudando os actores, as suas roupas, os penteados e pouco mais. O resultado é uma produção em série de “lixo-repetitivo desprovido de conteúdo e de carácter”.
Na arquitectura pode-se falar da mesma forma. E basta olhar à volta...
Numa altura em que não se pára de falar na revogação do artigo 73/73 (que permite a realização de projectos de arquitectura a outros que não exclusivamente arquitectos) é necessário que isto seja compreendido, e que deixemos de ter “projectos à desenhador” - em que lá estão os “quartos virados a nascente, a zona de serviços separada da zona íntima, etc, etc”, num exercício de pseudo-arquitectura capaz de adormecer uma águia em pleno vôo picado. Pior do que isso - capaz de nos dar cabo (ainda mais) do edificado e da qualidade de vida às famílias portuguesas, cuja maioria, obviamente, não está sensibilizada para este tipo de questões e delega essa tarefa e responsabilidade (e muito bem) nos projectistas...
Ponha-se lá os quartos a nascente. Ponha-se lá as zonas de serviço separadas das zonas privadas. Ponha-se lá tudo isso na mesma, se assim se justificar. Mas ponha-se isso ao serviço de uma ideia qualquer, e não sendo apenas isso a ideia.
E era este o meu conceito de hoje...
E desta sensação me veio a vontade de escrever sobre esse momento, na aplicação específica do exercício da arquitectura, desse ponto de partida.
Quando se inicia um projecto de arquitectura, há uma série de luzes e indicadores que servem, simultaneamente, de limitadores de “devaneio”, mas também de indicadores de percursos, ou, pelo menos, de pistas de soluções possíveis. E se a componente limitativa pode ter um carácter negativo (e até opressor), não é menos verdade que as pistas que a mesma fonte nos fornece são extremamente úteis no desbravar dos primeiros passos projectuais.
Há sempre uma série de “modeladores” de percurso, inerentes à especificidade da intervenção e da situação, que são uma espécie de criadores do “humor do projecto”. Esses elementos contextuais, que apelidei de “modeladores”, podem ser (como, de resto, já aqui referi, salvo erro, há bastante tempo atrás) de três grandes famílias: de origem regulamentar (por imposições e restrições da legislação aplicável); de origem no promotor da obra, o “cliente” do arquitecto (por requisitos e exigências específicas - incluíndo as de teor económico, claro); de origem técnica (por especificidades do local, das técnicas construtivas disponíveis, da mão-de-obra, etc).
Mas, uma vez detectados estes limites, o arquitecto funcionará como um prisma para o qual converge a luz dispersa, emitindo um feixe preciso e focado pela outra extremidade.
E é precisamente aqui que reside o meu principal comentário de hoje - na forma como o arquitecto agarra nesses indicadores (limitações, exigências, requisitos, etc) e transforma isso num projecto.
Ora, no meu entender, a arquitectura insere-se tanto na família técnica das actividades humanas como na artística. E, partindo deste pressuposto, as duas componentes serão indissociáveis, sabendo que cada uma delas apenas poderá ir até onde não comprometa a outra.
Mas se, como digo atrás, a arquitectura tem uma componente artística inalienável, e entendendo a arte como algo que é, inevitavelmente, comunicação (entre outras coisas), então o caminho do arquitecto deverá ser bastante bem trilhado.
No meu entender, aquilo que é fundamental a qualquer obra que contenha uma faceta artística é contar uma história! Obviamente que não me refiro a uma história necessariamente línear, com um enredo e uma sequência cronológica. Nem sequer terá (nem deverá) de ser uma história palpável e “escandalosamente” perceptível, sob pena de se perder todo o interesse do jogo da comunicação que é o da descoberta-por-envolvimento da mensagem pelo destinatário. Um poema pode ser uma história, mesmo que tenha uma forma extremamente onírica e descontínua. Uma pintura abstracta pode ser uma história. Um gesto pode ser uma história...
No fundo, aquilo a que quero chegar é isto: Um projecto de arquitectura (deixemos agora de parte as outras intervenções artísticas), para o ser, tem de ter um conceito! E esse conceito tem de ser omnipresente (passe a redundância - uma vez que, se não for a bitola de todas as opções, não é um conceito, mas apenas ornamentação teórica episódica).
Quando falo de um conceito, não me refiro àquela coisa primária (quase patética, já) de “quartos virados a nascente, zona de serviços separada das zonas íntímas, pontos de água concentrados, etc”. Isso não é conceito nenhum, e não é arquitectura, sequer - é um conjunto de opções funcionais, de nível básico (ainda que possam ser extrememente válidas, em determinados contextos) que deverá ser posto ao serviço, ou em concordância com o conceito gerador do projecto. Obviamente não vos vou dar exemplos do que será um conceito, porque isso seria até algo paradoxal, num cenário tão abstracto. Mas, para tentar ilustrar o que digo, posso sugerir a imagem de um actor (mas um que seja bom...) que, mesmo recorrendo sempre a uma série de técnicas e processos, mais ou menos académicos e reincidentes, pauta-se sempre por um conceito - o da personagem que está a interpretar. Ele absorve a essência da personagem, e tudo aquilo que faz, mesmo se for um recurso comum a outras interpretações, sai “moldado” por essa personalidade que ele tenta encarnar naquela peça ou filme em concreto.
Bem sei que corro o risco de não ser bem entendido por alguns, porque, infelizmente, esta presença de vida própria (que é o conceito de um projecto específico) não está presente na esmagadora maioria dos edifícios e das intervenções que à nossa volta se faz.
Causa-me sempre alguma apreensão quando falo com algum projectista (note-se que a maioria dos que exercem não são arquitectos) e me explicam um projecto começando pela porta de entrada, depois há os quartos, depois não sei o quê... Isto mostra a total ausência de um conceito de fundo, porque, quando ele existe, a explicação de um projecto passa por uma teia de considerações e de ponderações muito reflectidas, que só adquirem “essa coisa dos quartos e da entrada” numa fase muito posterior e como consequência (quase inevitável) desse conceito. Até porque, de certo modo, quando se inicia um projecto, ele pode ter infinitas soluções, mas, após se surgir essa presença de um conceito no processo, a solução é quase “a única possível”. A própria coerência de raciocínios e de gestualidades quase tem essa inevitabilidade implícita.
Não me entendam mal! O conceito não deve ser algo que freneticamente se busca numa tentativa de minimizar falhas de inspiração ou de recursos, nem deve ser algo que se introduz no processo para “explicar o inexplicável”. Ele deverá surgir de forma expontânea, e tal até poderá nem acontecer de forma consciente ou racional. Mas, ao surgir, vai subtilmente moldar os nossos gestos, aferindo coerência e vigor ao projecto, dando-lhe uma vida própria.
Numa comparação algo lacónica, a ausência de um conceito próprio na elaboração de um projecto poder-se-ía ver como a produção de um filme em que a história é sempre (por exemplo) a de um rapaz que conhece uma rapariga, apaixonam-se, acontece uma desgraça, vencem a desgraça e vivem felizes para sempre. Apenas se vai mudando os actores, as suas roupas, os penteados e pouco mais. O resultado é uma produção em série de “lixo-repetitivo desprovido de conteúdo e de carácter”.
Na arquitectura pode-se falar da mesma forma. E basta olhar à volta...
Numa altura em que não se pára de falar na revogação do artigo 73/73 (que permite a realização de projectos de arquitectura a outros que não exclusivamente arquitectos) é necessário que isto seja compreendido, e que deixemos de ter “projectos à desenhador” - em que lá estão os “quartos virados a nascente, a zona de serviços separada da zona íntima, etc, etc”, num exercício de pseudo-arquitectura capaz de adormecer uma águia em pleno vôo picado. Pior do que isso - capaz de nos dar cabo (ainda mais) do edificado e da qualidade de vida às famílias portuguesas, cuja maioria, obviamente, não está sensibilizada para este tipo de questões e delega essa tarefa e responsabilidade (e muito bem) nos projectistas...
Ponha-se lá os quartos a nascente. Ponha-se lá as zonas de serviço separadas das zonas privadas. Ponha-se lá tudo isso na mesma, se assim se justificar. Mas ponha-se isso ao serviço de uma ideia qualquer, e não sendo apenas isso a ideia.
E era este o meu conceito de hoje...
13 Julho 2005
21 _ elas comem tudo (e não deixam nada)
Numa perspectiva mais focalizada, nestas coisas da arquitectura, debruço-me hoje sobre um aspecto menos conceptual - o da construção, nomeadamente das patologias.
Nesta vastíssima matéria, há uma situação que me atrai a atenção e me preocupa sobremaneira. Refiro-me a um fenómeno que poderia apelidar como se de um filme de ficção científica série B se tratasse. “O Ataque das Térmitas!”.
Em 1954, Gordon Douglas realizou Them! - um filme pioneiro no sub-género do terror/ficção-científica da ameaça de insectos gigantescos, em que o Novo México era atacado por formigas gigantes. Na altura isto era uma reflexão apreensiva sobre a era atómica e os insectos gigantes eram uma sórdida metáfora da ameaça comunista, no despontar da guerra fria. É um filme que aconselho vivamente aos amantes do género, ou do cinema em geral.
O “filme” de hoje em dia não nos traz insectos em tamanho desmesurado, mas também não nos traz o conforto de sabermos que depois da sessão acabar, voltamos para nossa casa e tudo não passou de um produto de uma fértil imaginação e criatividade. A ameaça continua, para nós.
A maior parte das pessoas nem acredita que as térmitas existam no nosso país. Acham que é uma coisa “lá das Áfricas”... Mas, na realidade, há umas boas dezenas ou até centenas de variedades de térmitas, algumas das quais em Portugal.
A térmita é, no fundo, uma formiga. A diferença é que é uma formiga que se alimenta de celulose. E vai encontrar esta celulose nas madeiras, sobretudo nas macias. E não se trata do vulgarmente designado por “bicho da madeira”. Esse é o caruncho. A diferença é que o caruncho é mais facilmente detectável e a térmita tem uma velocidade de destruição incrivelmente superior à daquele. Uma casa minada de térmitas pode ser literalmente devorada em dois a três anos!
Basicamente há dois tipos de térmitas: as de superfície e as subterrâneas. As primeiras são menos “perigosas” do que as últimas, apenas porque mais facilmente se detecta a sua presença, enquanto que as subterrâneas podem causar danos incríveis antes de serem notadas.
Para que se perceba como se pode diagnosticar a praga, aqui ficam alguns indicadores:
Caruncho: uma espécie de escaravelho pequeno (3-9 mm) que deixa orifícios redondos na superfície da madeira, com algum serrim em torno deste.
Térmita de superfície: formiga com uma pluridade de indivíduos, na sua comunidade, com fisionomias diferentes; pode ser vista sobre a madeira; faz orifícios em galerias desordenadas, mas geralmente ao sabor dos veios da madeira, seguindo o curso da madeira mais macia; deixa pequenos montes de serrim junto aos orifícios; metamorfoseia-se durante a sua vida, e, a um certo momento, ganha asas, com as quais migra para formar novas colónias. Estas asas são diferentes das das formigas comuns, pela diferença de comprimento entre o par anterior e o posterior.
Térmitas subterrâneas: semelhantes às de superfície, mas não suportam a exposição solar, pelo que são dificilmente visíveis; não deixam resíduos; podem devorar o miolo das madeiras, deixando-as apenas com uma pequena capa superficial (que protege as suas galerias da luz do sol), antes de tal ser apreensível do exterior.
Ora, o problema não está em identificar correctamente a praga, porque há inúmeras empresas especializadas na matéria. O problema está em tratar-lhe da saúde atempadamente e correctamente. Numa perspectiva mais assustadora, pode-se comparar uma praga de térmitas a um cancro, que corroi por dentro, sem se ver, e que, se não for correctamente controlado e saneado, vai manifestar-se noutro ponto qualquer, até causar o colapso.
A grande questão é o custo dos tratamentos eficazes... Há dois tipos de tratamento: um que funciona de forma localizada, através de injecções nas madeiras “infectadas” e na substituição das peças mais degradadas. Este tratamento é substancialmente mais barato, mas, tal como diz a sabedoria popular, o barato sai caro! Quase sempre, passadas duas ou três temporadas, aí estão elas de volta, em força. Isto porque as térmitas são extraordinariamente bem organizadas, e não é qualquer injecção que as vai conseguir apanhar... Elas escapam durante o processo de extermínio, alojam-se noutros pontos, recolhem-se em sítios onde a impregnação não as atinge, etc. E, se não morrerem rigorosamente todas, mais cedo ou mais tarde já serão de novo numerosas (uma fêmea pode colocar até três mil ovos por dia!!). Para além disto, a aplicação de injecções não torna a casa imune, apenas mata a população existente, e apenas na área tratada. Frequentemente, esta solução origina a debandada das térmitas para os edifícios vizinhos, agravando a dimensão da praga. E assim sucessivamente...
O outro método (mais oneroso mas mais eficaz e consequente) consiste na gaseificação de todo o interior dos edifícios. Estes são selados, e é largado um gás que penetra profundamente em todos os poros da madeira e das paredes (onde pode haver nidificação), exterminando completamente a população existente, imunizando essas áreas, e aferindo uma resistência a futuros ataques. Paralelamente a este processo, aplica-se uma série de injecções no perímetro do edifício ou nas suas fundações, criando uma barreira à invasão destes insectos, que se podem deslocar pelo solo ou por paredes de menor densidade.
O ideal seria que estas práticas fossem levadas a cabo numa perspectiva de “zona”, havendo intervenções de conjunto, a nível da vizinhança, de quarteirões, para se ter a certeza de que a praga é erradicada e o conjunto de edifícios fica imunizado. Porque os actos solitários podem contribuir para a deslocação da praga e o seu desenvolvimento e disseminação. E, inevitavelmente, eles virão bater à nossa porta de novo! Como um cancro mal curado, que se elimina de um orgão, mas que surge, logo de seguida, noutro ponto, e noutro...
Mas isto é a cura. Claro que a prática mais lógica seria a da prevenção. E isto passa, apenas e só, por três pontos, de importância crescente: manter os interiores bem arejados; eliminar as humidades no interior dos edifícios e nas paredes (um dia aqui falarei desta questão e de como proceder); tratar convenientemente as madeiras. É este último ponto o essencial, sem o qual nenhum dos outros é suficiente. E atenção, porque tratar as madeiras não quer dizer aplicar um tapa-poros, um verniz, ou um tratamento qualquer de superfície. Tem de ser com um produto que seja efectivamente um anti-xilófago. Não vale a pena ouvir nada que os vendedores ou a sabedoria do “eu sempre fiz com isto” possa dizer. Só um verdadeiro anti-xilófago, correctamente aplicado - com as devidas demãos, nas duas faces das tábuas e (muito importante!) nos topos que encostam às paredes (pontos de grande vulnerabilidade) - será eficaz e fiável. É essencial que esta prática seja bem aplicada em obra, sob pena de continuarmos a ter os nossos edifícios a serem comidos por esta praga silenciosa e discreta.
A Europa está a ser invadida por térmitas a um rítmo acelarado, com problemas gravíssimos (veja-se o caso da destruição de património, por exemplo) e enormes dores de cabeça daí resultantes.
Num conto de Patrick Süskind intitulado “O legado de Maître Mussard”, é relatada a obcessão de um velho homem com formas conquíferas que ele julga estarem a invadir o mundo pelo sub-solo, transformando o planeta numa gigantesca concha. Eu não queria que me entendessem como paranóico semelhante, com este alarme para a questão das térmitas. Mas estudem bem os sintomas, façam umas perguntas por entre os amigos, e vejam lá qual é a percentagem deles que já tem umas “formigas de asa que deixam um pózinho” lá por casa...
(p/ RC)
Nesta vastíssima matéria, há uma situação que me atrai a atenção e me preocupa sobremaneira. Refiro-me a um fenómeno que poderia apelidar como se de um filme de ficção científica série B se tratasse. “O Ataque das Térmitas!”.
Em 1954, Gordon Douglas realizou Them! - um filme pioneiro no sub-género do terror/ficção-científica da ameaça de insectos gigantescos, em que o Novo México era atacado por formigas gigantes. Na altura isto era uma reflexão apreensiva sobre a era atómica e os insectos gigantes eram uma sórdida metáfora da ameaça comunista, no despontar da guerra fria. É um filme que aconselho vivamente aos amantes do género, ou do cinema em geral.
O “filme” de hoje em dia não nos traz insectos em tamanho desmesurado, mas também não nos traz o conforto de sabermos que depois da sessão acabar, voltamos para nossa casa e tudo não passou de um produto de uma fértil imaginação e criatividade. A ameaça continua, para nós.
A maior parte das pessoas nem acredita que as térmitas existam no nosso país. Acham que é uma coisa “lá das Áfricas”... Mas, na realidade, há umas boas dezenas ou até centenas de variedades de térmitas, algumas das quais em Portugal.
A térmita é, no fundo, uma formiga. A diferença é que é uma formiga que se alimenta de celulose. E vai encontrar esta celulose nas madeiras, sobretudo nas macias. E não se trata do vulgarmente designado por “bicho da madeira”. Esse é o caruncho. A diferença é que o caruncho é mais facilmente detectável e a térmita tem uma velocidade de destruição incrivelmente superior à daquele. Uma casa minada de térmitas pode ser literalmente devorada em dois a três anos!
Basicamente há dois tipos de térmitas: as de superfície e as subterrâneas. As primeiras são menos “perigosas” do que as últimas, apenas porque mais facilmente se detecta a sua presença, enquanto que as subterrâneas podem causar danos incríveis antes de serem notadas.
Para que se perceba como se pode diagnosticar a praga, aqui ficam alguns indicadores:
Caruncho: uma espécie de escaravelho pequeno (3-9 mm) que deixa orifícios redondos na superfície da madeira, com algum serrim em torno deste.
Térmita de superfície: formiga com uma pluridade de indivíduos, na sua comunidade, com fisionomias diferentes; pode ser vista sobre a madeira; faz orifícios em galerias desordenadas, mas geralmente ao sabor dos veios da madeira, seguindo o curso da madeira mais macia; deixa pequenos montes de serrim junto aos orifícios; metamorfoseia-se durante a sua vida, e, a um certo momento, ganha asas, com as quais migra para formar novas colónias. Estas asas são diferentes das das formigas comuns, pela diferença de comprimento entre o par anterior e o posterior.
Térmitas subterrâneas: semelhantes às de superfície, mas não suportam a exposição solar, pelo que são dificilmente visíveis; não deixam resíduos; podem devorar o miolo das madeiras, deixando-as apenas com uma pequena capa superficial (que protege as suas galerias da luz do sol), antes de tal ser apreensível do exterior.
Ora, o problema não está em identificar correctamente a praga, porque há inúmeras empresas especializadas na matéria. O problema está em tratar-lhe da saúde atempadamente e correctamente. Numa perspectiva mais assustadora, pode-se comparar uma praga de térmitas a um cancro, que corroi por dentro, sem se ver, e que, se não for correctamente controlado e saneado, vai manifestar-se noutro ponto qualquer, até causar o colapso.
A grande questão é o custo dos tratamentos eficazes... Há dois tipos de tratamento: um que funciona de forma localizada, através de injecções nas madeiras “infectadas” e na substituição das peças mais degradadas. Este tratamento é substancialmente mais barato, mas, tal como diz a sabedoria popular, o barato sai caro! Quase sempre, passadas duas ou três temporadas, aí estão elas de volta, em força. Isto porque as térmitas são extraordinariamente bem organizadas, e não é qualquer injecção que as vai conseguir apanhar... Elas escapam durante o processo de extermínio, alojam-se noutros pontos, recolhem-se em sítios onde a impregnação não as atinge, etc. E, se não morrerem rigorosamente todas, mais cedo ou mais tarde já serão de novo numerosas (uma fêmea pode colocar até três mil ovos por dia!!). Para além disto, a aplicação de injecções não torna a casa imune, apenas mata a população existente, e apenas na área tratada. Frequentemente, esta solução origina a debandada das térmitas para os edifícios vizinhos, agravando a dimensão da praga. E assim sucessivamente...
O outro método (mais oneroso mas mais eficaz e consequente) consiste na gaseificação de todo o interior dos edifícios. Estes são selados, e é largado um gás que penetra profundamente em todos os poros da madeira e das paredes (onde pode haver nidificação), exterminando completamente a população existente, imunizando essas áreas, e aferindo uma resistência a futuros ataques. Paralelamente a este processo, aplica-se uma série de injecções no perímetro do edifício ou nas suas fundações, criando uma barreira à invasão destes insectos, que se podem deslocar pelo solo ou por paredes de menor densidade.
O ideal seria que estas práticas fossem levadas a cabo numa perspectiva de “zona”, havendo intervenções de conjunto, a nível da vizinhança, de quarteirões, para se ter a certeza de que a praga é erradicada e o conjunto de edifícios fica imunizado. Porque os actos solitários podem contribuir para a deslocação da praga e o seu desenvolvimento e disseminação. E, inevitavelmente, eles virão bater à nossa porta de novo! Como um cancro mal curado, que se elimina de um orgão, mas que surge, logo de seguida, noutro ponto, e noutro...
Mas isto é a cura. Claro que a prática mais lógica seria a da prevenção. E isto passa, apenas e só, por três pontos, de importância crescente: manter os interiores bem arejados; eliminar as humidades no interior dos edifícios e nas paredes (um dia aqui falarei desta questão e de como proceder); tratar convenientemente as madeiras. É este último ponto o essencial, sem o qual nenhum dos outros é suficiente. E atenção, porque tratar as madeiras não quer dizer aplicar um tapa-poros, um verniz, ou um tratamento qualquer de superfície. Tem de ser com um produto que seja efectivamente um anti-xilófago. Não vale a pena ouvir nada que os vendedores ou a sabedoria do “eu sempre fiz com isto” possa dizer. Só um verdadeiro anti-xilófago, correctamente aplicado - com as devidas demãos, nas duas faces das tábuas e (muito importante!) nos topos que encostam às paredes (pontos de grande vulnerabilidade) - será eficaz e fiável. É essencial que esta prática seja bem aplicada em obra, sob pena de continuarmos a ter os nossos edifícios a serem comidos por esta praga silenciosa e discreta.
A Europa está a ser invadida por térmitas a um rítmo acelarado, com problemas gravíssimos (veja-se o caso da destruição de património, por exemplo) e enormes dores de cabeça daí resultantes.
Num conto de Patrick Süskind intitulado “O legado de Maître Mussard”, é relatada a obcessão de um velho homem com formas conquíferas que ele julga estarem a invadir o mundo pelo sub-solo, transformando o planeta numa gigantesca concha. Eu não queria que me entendessem como paranóico semelhante, com este alarme para a questão das térmitas. Mas estudem bem os sintomas, façam umas perguntas por entre os amigos, e vejam lá qual é a percentagem deles que já tem umas “formigas de asa que deixam um pózinho” lá por casa...
(p/ RC)
06 Julho 2005
20 _ há festa na aldeia
A feira chegou ao fim!
Os stands de exposição, as barraquinhas da horta das laranjeiras, os carroceis, o palco do jardim público, o palco jovem, as exposições - tudo vai ser cuidadosamente desmontado, carregado, transportado, guardado, e armazenado até ao ano que vem, para mais uma feira de S. João. A cidade já se habituou a este período de folia, diversão, animação e fulgor que a feira lhe traz.
Antes da feira foi a comemoração do 25 de Abril. Também havia palcos, exposições, animação, folia...
Depois da feira será a campanha eleitoral. Também haverá palcos, animação, muito mais fulgor!
Mas, serei só eu, ou estas coisas assemelham-se às festividades das aldeias - aquelas de onde vinham os nossos pais, os nossos avós, a nossa origem?
Estas festas pontuais (que, de resto são apaixonantes e de saudar calorosamente) não serão um apressado oásis na aridez cultural de uma cidade em desertificação? Não falo de desertificação demográfica, mas de ausência de viçosidade cultural e lúdica, tão necessárias (mesmo essenciais) à condição de cidade urbana.
A cultura, a arte, e todas as manifestações que contêm algo de transcendente (no seu estado pagão) e de estreita ligação com o ócio e com os prazeres do espírito, nascem de uma sofisticação da sociedade. Acho que já falei disto por aqui... Só uma sociedade que atinge um certo nível - social e económico - é que se pode “dar ao luxo” de produzir arte e cultura lúdica de forma continuada. Daí que a cultura, como atitude, seja, geneticamente, uma “invenção” urbana. Nas tais aldeias dos nossos pais, as manifestações culturais também aconteciam uma vez por ano. Ou duas, ou três, mas sempre em datas precisas, para as quais as pessoas se preparavam, libertando-se de todos os afazeres, para nelas poderem tomar parte. Durante o resto do ano não havia cá vagar para bailaricos ou festança, que o burro quer palha, a ovelha quer ir ao pasto, o milho tem de se debulhar, e já lá vem a geada...
Uma cidade (que o queira ser) não pode ter esta realidade provinciana de cultura.
A feira de S. João, é um acontecimento fantástico em Évora! Também não esconde um certo carácter bucólico, e talvez ainda bem que assim seja. Mas uma capital de distrito, uma cidade património mundial, um centro estudantil, um local de destino de turismo de grandes quantidades, como é Évora, não pode ter meia dúzia de eventos de carácter efémero e delegar neles a necessidade cosmopolita de oferecer urbanidade aos seus habitantes e visitantes.
Quero referir-me, mais precisamente, a uma situação que constitui (para mim e para a maioria dos meus colegas de profissão, de gente da cultura e de pessoas de bom senso) uma dor de alma nesta cidade: o Salão Central.
Nas comemorações do 25 de Abril deste ano, a Câmara Municipal organizou uma série de eventos, alguns dos quais tiveram lugar no Pátio do Salema. Quem por lá tenha passado, terá visto a capacidade natural fabulosa que este local tem para albergar iniciativas desta índole. Se não veja-se:
Uma praça, com condições de acolhimento excelentes - bem ladeada por edifícios de porte, morfologia e utilização vantajosos.
Uma localização magnífica - no centro da cidade, com condições de acessibilidade óptimas (e a vida não se faz só ao volante de um automóvel - já para prever falsos argumentos de contestação ao que digo).
Uma funcionalidade soberba - permite a realização de eventos de vária espécie (já por lá se fez espectáculos, concertos de música, projecção de filmes...), com recurso aos vários cenários próprios da praça e à sua relação com o espaço vazio e de circulação desta.
Uma morfologia urbana privilegiada - trata-se de um espaço contido, definido e com bastante personalidade, que pode, inclusivamente, ser facilmente interditado pontualmente ao trânsito, durante a ocorrência de espectáculos, sem haver a menor dificuldade no desvio do tráfego (isto permite a realização de praticamente todo o tipo de eventos, possibilitando, inclusivamente, a cobrança de bilhetes ao público, se tal porventura se justificar).
Uma disponibilidade de espaços versáteis e complementares que, em exclusividade (não há habitação nesta zona, o que lhe eleva, sobremaneira, o potencial cultural), conferem ao pátio a versatilidade de poder ser o ponto exacto dos acontecimentos, ou o ponto central, em torno do qual gira a variedade de acontecimentos - de um lado, o edifício da SOIR Joaquim António de Aguiar (por si, um espaço já vocacionado para as manifestações culturais e artísticas); ao lado, um espaço devoluto (não sei qual o seu estatuto real, tecnicamente falando), conhecido como Juventude, que é uma sala com uma área e volumetria interessantíssimas para a realização de outro tipo de eventos; em frente, um fantástico foyer “natural”, que é a arcaria de permeabilidade no pátio, já de si possibilitando a relação com o pequeno pátio adjacente (Pátio de S. Pedro, se não estou em erro), inclusivamente enriquecido pela varanda que o encima; por fim, a cereja no topo do bolo, o Salão Central - um magnífico edifício, da autoria de um dos mais importantes arquitectos da nossa história (de F. Keil do Amaral, edificado em 1943), construção notável e de interesse profundo, quer do ponto de vista arquitectónico, quer do ponto de vista urbanístico. A localização de um equipamento desta natureza num espaço como o Pátio do Salema é uma realidade que muitas cidades gostariam de ter, e que a nossa parece estar a ignorar. Diz-se por aí, em jeito de boato, que o Salão Central será vendido... Alguém, com um sentido de humor suficientemente negro para despertar interesse, resolveu pintar grafittis de anúncios de venda do imóvel. Os boatos são enganosos, e este sê-lo-á, queremos todos acreditar..! Mas o que é certo, é que se diz por aí, em surdina, que até já lá foram uns avalistas, chamados pela Câmara Municipal... Eu não sou negociante de imóveis, mas na minha terra, quando se chama um avalista é para se vender um imóvel...
Pode ser que não, e que tudo isto seja um boato sem fundamento real. O outro dizia que, depois de ter visto o tal porco a andar de bicicleta num circo, já acreditava em tudo. Pois eu ainda não acredito em tudo, e não quero acreditar que este, ou qualquer outro executivo municipal possa cometer um acto tão grave, inconsciente e lesivo para a sua população e para a sua cidade, como seja o de alienar definitivamente um equipamento de interesse relevante e um elemento de património de destaque. Mas também não seria mau que o edil primasse um pouco mais pela transparência e que contasse aqui ao povo o que raio está a pensar fazer com o nosso Salão Central, que não ata nem desata! Esperemos que seja uma história com um final feliz...
A potencialidade de um conjunto como o do Pátio do Salema, com a sua localização privilegiada, com todas as suas potencialidades de utilização, com a sua riqueza arquitectónica e com a sua disponibilidade em termos de equipamentos e espaços existentes, transforma este espaço, real e existente na cidade de Évora, numa quasi utopia para a maioria das cidades que lhe são demograficamente e contextualmente equiparáveis.
É uma magnífica oportunidade para dotar esta cidade de um cariz mais urbano, cosmopolita, e mesmo citadino, numa época em que, cada vez mais, me vêm à cabeça as palavras de Vergílio Ferreira, que por cá passou, por cá viveu uns quinze anos, e aqui escreveu a “Aparição”, onde diz, pela boca da sua personagem principal (Alberto Soares), ao confrontar-se com a realidade eborense: “Évora: cidade onde não se pode ter mais do que a quarta classe, nem menos de quatrocentos porcos”.
Évora pode fazer a diferença! O seu estatuto de Cidade Património Mundial da UNESCO exige uma outra dinâmica cultural, e permite muita intervenção a este nível. A vertente turística desta bela cidade não pode assentar apenas em ruelas charmosas de casario branco e em migas, pézinhos de coentrada e ensopado de borrego...! Pede-se dinâmica, vida cultural, personalidade. Mais do que a Feira de S. João (bem haja). Mais do que as comemorações do 25 de Abril. Mais do que a campanha eleitoral que deve estar para aí a rebentar. Para que se abandone esta musealização da urbe, e se sinta o pulsar de uma cidade viva, com uma palavra a dizer.
Porque, senão, só teremos outra vez as barraquinhas das farturas, os carroceis, os stands expositivos, e mais duas semanas de folia...
E, de novo, haverá festa na aldeia...
Os stands de exposição, as barraquinhas da horta das laranjeiras, os carroceis, o palco do jardim público, o palco jovem, as exposições - tudo vai ser cuidadosamente desmontado, carregado, transportado, guardado, e armazenado até ao ano que vem, para mais uma feira de S. João. A cidade já se habituou a este período de folia, diversão, animação e fulgor que a feira lhe traz.
Antes da feira foi a comemoração do 25 de Abril. Também havia palcos, exposições, animação, folia...
Depois da feira será a campanha eleitoral. Também haverá palcos, animação, muito mais fulgor!
Mas, serei só eu, ou estas coisas assemelham-se às festividades das aldeias - aquelas de onde vinham os nossos pais, os nossos avós, a nossa origem?
Estas festas pontuais (que, de resto são apaixonantes e de saudar calorosamente) não serão um apressado oásis na aridez cultural de uma cidade em desertificação? Não falo de desertificação demográfica, mas de ausência de viçosidade cultural e lúdica, tão necessárias (mesmo essenciais) à condição de cidade urbana.
A cultura, a arte, e todas as manifestações que contêm algo de transcendente (no seu estado pagão) e de estreita ligação com o ócio e com os prazeres do espírito, nascem de uma sofisticação da sociedade. Acho que já falei disto por aqui... Só uma sociedade que atinge um certo nível - social e económico - é que se pode “dar ao luxo” de produzir arte e cultura lúdica de forma continuada. Daí que a cultura, como atitude, seja, geneticamente, uma “invenção” urbana. Nas tais aldeias dos nossos pais, as manifestações culturais também aconteciam uma vez por ano. Ou duas, ou três, mas sempre em datas precisas, para as quais as pessoas se preparavam, libertando-se de todos os afazeres, para nelas poderem tomar parte. Durante o resto do ano não havia cá vagar para bailaricos ou festança, que o burro quer palha, a ovelha quer ir ao pasto, o milho tem de se debulhar, e já lá vem a geada...
Uma cidade (que o queira ser) não pode ter esta realidade provinciana de cultura.
A feira de S. João, é um acontecimento fantástico em Évora! Também não esconde um certo carácter bucólico, e talvez ainda bem que assim seja. Mas uma capital de distrito, uma cidade património mundial, um centro estudantil, um local de destino de turismo de grandes quantidades, como é Évora, não pode ter meia dúzia de eventos de carácter efémero e delegar neles a necessidade cosmopolita de oferecer urbanidade aos seus habitantes e visitantes.
Quero referir-me, mais precisamente, a uma situação que constitui (para mim e para a maioria dos meus colegas de profissão, de gente da cultura e de pessoas de bom senso) uma dor de alma nesta cidade: o Salão Central.
Nas comemorações do 25 de Abril deste ano, a Câmara Municipal organizou uma série de eventos, alguns dos quais tiveram lugar no Pátio do Salema. Quem por lá tenha passado, terá visto a capacidade natural fabulosa que este local tem para albergar iniciativas desta índole. Se não veja-se:
Uma praça, com condições de acolhimento excelentes - bem ladeada por edifícios de porte, morfologia e utilização vantajosos.
Uma localização magnífica - no centro da cidade, com condições de acessibilidade óptimas (e a vida não se faz só ao volante de um automóvel - já para prever falsos argumentos de contestação ao que digo).
Uma funcionalidade soberba - permite a realização de eventos de vária espécie (já por lá se fez espectáculos, concertos de música, projecção de filmes...), com recurso aos vários cenários próprios da praça e à sua relação com o espaço vazio e de circulação desta.
Uma morfologia urbana privilegiada - trata-se de um espaço contido, definido e com bastante personalidade, que pode, inclusivamente, ser facilmente interditado pontualmente ao trânsito, durante a ocorrência de espectáculos, sem haver a menor dificuldade no desvio do tráfego (isto permite a realização de praticamente todo o tipo de eventos, possibilitando, inclusivamente, a cobrança de bilhetes ao público, se tal porventura se justificar).
Uma disponibilidade de espaços versáteis e complementares que, em exclusividade (não há habitação nesta zona, o que lhe eleva, sobremaneira, o potencial cultural), conferem ao pátio a versatilidade de poder ser o ponto exacto dos acontecimentos, ou o ponto central, em torno do qual gira a variedade de acontecimentos - de um lado, o edifício da SOIR Joaquim António de Aguiar (por si, um espaço já vocacionado para as manifestações culturais e artísticas); ao lado, um espaço devoluto (não sei qual o seu estatuto real, tecnicamente falando), conhecido como Juventude, que é uma sala com uma área e volumetria interessantíssimas para a realização de outro tipo de eventos; em frente, um fantástico foyer “natural”, que é a arcaria de permeabilidade no pátio, já de si possibilitando a relação com o pequeno pátio adjacente (Pátio de S. Pedro, se não estou em erro), inclusivamente enriquecido pela varanda que o encima; por fim, a cereja no topo do bolo, o Salão Central - um magnífico edifício, da autoria de um dos mais importantes arquitectos da nossa história (de F. Keil do Amaral, edificado em 1943), construção notável e de interesse profundo, quer do ponto de vista arquitectónico, quer do ponto de vista urbanístico. A localização de um equipamento desta natureza num espaço como o Pátio do Salema é uma realidade que muitas cidades gostariam de ter, e que a nossa parece estar a ignorar. Diz-se por aí, em jeito de boato, que o Salão Central será vendido... Alguém, com um sentido de humor suficientemente negro para despertar interesse, resolveu pintar grafittis de anúncios de venda do imóvel. Os boatos são enganosos, e este sê-lo-á, queremos todos acreditar..! Mas o que é certo, é que se diz por aí, em surdina, que até já lá foram uns avalistas, chamados pela Câmara Municipal... Eu não sou negociante de imóveis, mas na minha terra, quando se chama um avalista é para se vender um imóvel...
Pode ser que não, e que tudo isto seja um boato sem fundamento real. O outro dizia que, depois de ter visto o tal porco a andar de bicicleta num circo, já acreditava em tudo. Pois eu ainda não acredito em tudo, e não quero acreditar que este, ou qualquer outro executivo municipal possa cometer um acto tão grave, inconsciente e lesivo para a sua população e para a sua cidade, como seja o de alienar definitivamente um equipamento de interesse relevante e um elemento de património de destaque. Mas também não seria mau que o edil primasse um pouco mais pela transparência e que contasse aqui ao povo o que raio está a pensar fazer com o nosso Salão Central, que não ata nem desata! Esperemos que seja uma história com um final feliz...
A potencialidade de um conjunto como o do Pátio do Salema, com a sua localização privilegiada, com todas as suas potencialidades de utilização, com a sua riqueza arquitectónica e com a sua disponibilidade em termos de equipamentos e espaços existentes, transforma este espaço, real e existente na cidade de Évora, numa quasi utopia para a maioria das cidades que lhe são demograficamente e contextualmente equiparáveis.
É uma magnífica oportunidade para dotar esta cidade de um cariz mais urbano, cosmopolita, e mesmo citadino, numa época em que, cada vez mais, me vêm à cabeça as palavras de Vergílio Ferreira, que por cá passou, por cá viveu uns quinze anos, e aqui escreveu a “Aparição”, onde diz, pela boca da sua personagem principal (Alberto Soares), ao confrontar-se com a realidade eborense: “Évora: cidade onde não se pode ter mais do que a quarta classe, nem menos de quatrocentos porcos”.
Évora pode fazer a diferença! O seu estatuto de Cidade Património Mundial da UNESCO exige uma outra dinâmica cultural, e permite muita intervenção a este nível. A vertente turística desta bela cidade não pode assentar apenas em ruelas charmosas de casario branco e em migas, pézinhos de coentrada e ensopado de borrego...! Pede-se dinâmica, vida cultural, personalidade. Mais do que a Feira de S. João (bem haja). Mais do que as comemorações do 25 de Abril. Mais do que a campanha eleitoral que deve estar para aí a rebentar. Para que se abandone esta musealização da urbe, e se sinta o pulsar de uma cidade viva, com uma palavra a dizer.
Porque, senão, só teremos outra vez as barraquinhas das farturas, os carroceis, os stands expositivos, e mais duas semanas de folia...
E, de novo, haverá festa na aldeia...
30 Junho 2005
19 _ eu não queria morar numa favela
Numa das crónicas passadas, deixei a promessa de que um destes dias dedicaria algumas linhas à temática dos chamados “condomínios fechados”. E é a propósito do fenómeno bombástico do “arrastão” da Praia de Carcavelos, no passado dia 10 de Junho, que esse tema me parece pertinente.
O que é que uma coisa tem a ver com a outra? Para se perceber a relação, é necessário analisar os acontecimentos da praia numa perspectiva mais dilatada - até porque, tal como tenho insinuado frequentemente, isto da arquitectura (e do urbanismo) tem muito mais a ver com as questões sociais, psicológicas e triviais da vida e da organização social do que com tijolos e cimento, formas e volumes, ou técnicas e materiais de construção.
É, portanto, necessário arriscar uma análise das causas do problema, e não das soluções fatais, como o facilitismo “higiénico-repressivo” preconiza. Permito-me a reflexão social, ao dizer que é mais do que irresponsável e egoísta a postura da simples punição dos autores do sucedido, e da prevenção, pela autoridade, de futuras sequelas, resumindo-se, tais medidas, ao foro paliativo. Pode-se pensar que os autores do mal-afamado “arrastão” são apenas uma cambada de selvagens, ou uma corja de vândalos, que isso apenas serve para suscitar ódios míopes e para conter a pressão que, inevitavelmente explodirá por outro lado. De resto, foi exactamente isso que aconteceu - a explosão de pressões acumuladas (o facto de se ter passado no dia de Portugal será um acaso, ou uma sarcástica nota deixada a toda a sociedade?).
Os intervenientes nos distúrbios do 10 de Junho são (pelo menos assim parece) oriundos, na sua esmagadora maioria, de zonas problemáticas e com baixíssimos índices de conforto, inserção social, qualidade de vida, acesso a critérios mínimos de bem-estar social, etc, etc, etc... Sem ser necessário argumentar muito sobre o racismo latente na cultura portuguesa (e se ele existe!), é por demais evidente a ostracização infligida na considerável (e crescente) população de emigrantes oriundos dos países africanos. Durante anos a fio eles foram (e são) impedidos de ter acesso a níveis de vida e a oportunidades que pudessem permitir a sua integração real, resultando, essa barreira, na “guetização” dessa população. Não é um raciocínio difícil. Difícil é admitir que isto continua e é, também, perceber que tudo (ou quase) foi feito de forma semi-intencional, com o mesmo propósito mesquinho e côxo de muitas das intervenções sociais da nossa cultura (como seja, por exemplo, a questão do sistema penal - não se trata de auxiliar pessoas com dificuldade de inserção, trata-se, sim, de as afastar da nossa área e de os impedir de nos incomodarem - o princípio do depositório de elementos problemáticos, ao invés do da sua reabilitação e reinserção. Isto é podre na sua essência, e gera um fosso entre duas realidades, com a clara supremacia de uma delas e a consequente revolta crescente da outra.
Alguém, num dos nossos jornais que ainda dizem coisas de ler, dizia, lucidamente, que o processo de intervenção num caso destes não passa pela repressão e pelo reforço da autoridade (pelo menos não passa só por aí), mas antes por algo que se pode invocar pela letra de uma das canções do Sérgio Godinho “paz, pão, habitação, saúde, educação”. É nestes pilares básicos da integração social que assenta a dissolução de tensões sociais. Todos os quadrantes políticos estão de acordo nisto - ainda que, depois, procedam de formas diferentes, de acordo com as suas convicções, para atingirem esse fim. Ora, o problema, é que esse fim está muito longe da realidade, e dá-me a impressão de que fica lá do outro lado, e não daquele para o qual nos dirigimos...
O condomínio fechado? É isto, no fundo... Trata-se da maior declaração de fiasco e de total inoperância das opções sociais em que fundamentamos a nossa organização. É o atestado de incompetência e disfunção totais da sociedade que criámos. O processo é análogo: A ideia já não é permitir a convivência de todos os membros de uma sociedade. Nem sequer é a de sonhar com isso. Agora trata-se de trepar por aí acima, passando por cima do que se puder passar, para poder alcançar meios para o refúgio da sociedade apodrecida. Ou seja: passámos tanto tempo a depositar os “elementos indesejáveis” da nossa sociedade à margem do nosso mundo, que a margem foi crescendo e tornou-se maior do que a folha. Agora resta tentar comprar um refúgio, longe dessa margem que já inunda o resto da folha. Já não chega criar (ou deixar criar) os bairros carenciados, para que os elementos que ali vivem vão “morrer longe” e não nos incomodem. Trata-se de criar ilhas paradisíacas, dentro da sociedade, onde ninguém pode penetrar, para aí irmos (aqueles cujo nível económico o permita) buscar refúgio, num modelo proto-fortificado. Na gloriosa época do cinema de terror, eram frequentes as situações em que o herói, para escapar à crescente e imparável ameaça dos mortos-vivos, se trancava dentro da cela da prisão, com a chave por dentro. Aí têm os condomínios fechados, numa perspectiva crua e desencantada! Uma zona de estacionamento onde os nossos carros não sejam assaltados nem vandalizados; uma zona de lazer onde os nossos filhos não sejam corrompidos e não os seduzam para vícios e práticas impróprias; uma barreira de protecção que impeça “esses vândalos que por aí andam” de encher as paredes das nossas casas com grafittis; uma piscina onde impere a selectividade e a esterilização obcessiva; e por aí fora, etc, etc, etc.
Não digo que tudo isto não seja, até certo ponto, compreensível, porque a abnegação individual e pontual não soluciona, geralmente, problemas sociais de grande escala (que me perdoem o Ghandi, o Martin Luther King, o Hassan Fathy, e outros que provaram o contrário, mas falo em termos gerais). É perfeitamente aceitável que o cidadão comum se queira refugiar deste caos em que vivemos. O que não é aceitável é que a sociedade, no seu todo, continue a caminhar para este abismo, sem que haja uma tomada de consciência e de atitudes no sentido contrário. É claro que o urbanismo pode resolver uma parte importante do problema, ao criar estruturas que melhor permitam a vida social em todos os seus aspectos - conforto, funcionalidade, segurança, interacção social, etc. Mas quem faz o urbanismo não são os urbanistas, mas as opções políticas de fundo e específicas. Continua-se a descuidar este aspecto, criando amalgamas de betão, para onde as pessoas são lançadas (as que conseguem, porque as outras remedeiam-se em condições precárias e opressoras). Depois cria-se os condomínios fechados, onde, em escala reduzida e contida, se tenta gerar tudo aquilo que gostaríamos que acontecesse no nosso espaço urbano. Mas, mesmo que esses condomínios fechados tivessem uma óptima qualidade (o que, frequentemente, não é o caso) um conjunto de belas frases não faz um bom poema. Ou, como dizia Hassan Fathy (que já referi atrás) a beleza de algo não resulta da sua forma, mas antes das forças que se unem para lhe darem vida.
Da reconhecida verborreia que impera no mundo do futebol, lembro-me de uma frase que associo a tudo isto: “o nosso clube estava à beira do abismo, mas agora demos um passo em frente”. E de bola percebemos nós!
O que é que uma coisa tem a ver com a outra? Para se perceber a relação, é necessário analisar os acontecimentos da praia numa perspectiva mais dilatada - até porque, tal como tenho insinuado frequentemente, isto da arquitectura (e do urbanismo) tem muito mais a ver com as questões sociais, psicológicas e triviais da vida e da organização social do que com tijolos e cimento, formas e volumes, ou técnicas e materiais de construção.
É, portanto, necessário arriscar uma análise das causas do problema, e não das soluções fatais, como o facilitismo “higiénico-repressivo” preconiza. Permito-me a reflexão social, ao dizer que é mais do que irresponsável e egoísta a postura da simples punição dos autores do sucedido, e da prevenção, pela autoridade, de futuras sequelas, resumindo-se, tais medidas, ao foro paliativo. Pode-se pensar que os autores do mal-afamado “arrastão” são apenas uma cambada de selvagens, ou uma corja de vândalos, que isso apenas serve para suscitar ódios míopes e para conter a pressão que, inevitavelmente explodirá por outro lado. De resto, foi exactamente isso que aconteceu - a explosão de pressões acumuladas (o facto de se ter passado no dia de Portugal será um acaso, ou uma sarcástica nota deixada a toda a sociedade?).
Os intervenientes nos distúrbios do 10 de Junho são (pelo menos assim parece) oriundos, na sua esmagadora maioria, de zonas problemáticas e com baixíssimos índices de conforto, inserção social, qualidade de vida, acesso a critérios mínimos de bem-estar social, etc, etc, etc... Sem ser necessário argumentar muito sobre o racismo latente na cultura portuguesa (e se ele existe!), é por demais evidente a ostracização infligida na considerável (e crescente) população de emigrantes oriundos dos países africanos. Durante anos a fio eles foram (e são) impedidos de ter acesso a níveis de vida e a oportunidades que pudessem permitir a sua integração real, resultando, essa barreira, na “guetização” dessa população. Não é um raciocínio difícil. Difícil é admitir que isto continua e é, também, perceber que tudo (ou quase) foi feito de forma semi-intencional, com o mesmo propósito mesquinho e côxo de muitas das intervenções sociais da nossa cultura (como seja, por exemplo, a questão do sistema penal - não se trata de auxiliar pessoas com dificuldade de inserção, trata-se, sim, de as afastar da nossa área e de os impedir de nos incomodarem - o princípio do depositório de elementos problemáticos, ao invés do da sua reabilitação e reinserção. Isto é podre na sua essência, e gera um fosso entre duas realidades, com a clara supremacia de uma delas e a consequente revolta crescente da outra.
Alguém, num dos nossos jornais que ainda dizem coisas de ler, dizia, lucidamente, que o processo de intervenção num caso destes não passa pela repressão e pelo reforço da autoridade (pelo menos não passa só por aí), mas antes por algo que se pode invocar pela letra de uma das canções do Sérgio Godinho “paz, pão, habitação, saúde, educação”. É nestes pilares básicos da integração social que assenta a dissolução de tensões sociais. Todos os quadrantes políticos estão de acordo nisto - ainda que, depois, procedam de formas diferentes, de acordo com as suas convicções, para atingirem esse fim. Ora, o problema, é que esse fim está muito longe da realidade, e dá-me a impressão de que fica lá do outro lado, e não daquele para o qual nos dirigimos...
O condomínio fechado? É isto, no fundo... Trata-se da maior declaração de fiasco e de total inoperância das opções sociais em que fundamentamos a nossa organização. É o atestado de incompetência e disfunção totais da sociedade que criámos. O processo é análogo: A ideia já não é permitir a convivência de todos os membros de uma sociedade. Nem sequer é a de sonhar com isso. Agora trata-se de trepar por aí acima, passando por cima do que se puder passar, para poder alcançar meios para o refúgio da sociedade apodrecida. Ou seja: passámos tanto tempo a depositar os “elementos indesejáveis” da nossa sociedade à margem do nosso mundo, que a margem foi crescendo e tornou-se maior do que a folha. Agora resta tentar comprar um refúgio, longe dessa margem que já inunda o resto da folha. Já não chega criar (ou deixar criar) os bairros carenciados, para que os elementos que ali vivem vão “morrer longe” e não nos incomodem. Trata-se de criar ilhas paradisíacas, dentro da sociedade, onde ninguém pode penetrar, para aí irmos (aqueles cujo nível económico o permita) buscar refúgio, num modelo proto-fortificado. Na gloriosa época do cinema de terror, eram frequentes as situações em que o herói, para escapar à crescente e imparável ameaça dos mortos-vivos, se trancava dentro da cela da prisão, com a chave por dentro. Aí têm os condomínios fechados, numa perspectiva crua e desencantada! Uma zona de estacionamento onde os nossos carros não sejam assaltados nem vandalizados; uma zona de lazer onde os nossos filhos não sejam corrompidos e não os seduzam para vícios e práticas impróprias; uma barreira de protecção que impeça “esses vândalos que por aí andam” de encher as paredes das nossas casas com grafittis; uma piscina onde impere a selectividade e a esterilização obcessiva; e por aí fora, etc, etc, etc.
Não digo que tudo isto não seja, até certo ponto, compreensível, porque a abnegação individual e pontual não soluciona, geralmente, problemas sociais de grande escala (que me perdoem o Ghandi, o Martin Luther King, o Hassan Fathy, e outros que provaram o contrário, mas falo em termos gerais). É perfeitamente aceitável que o cidadão comum se queira refugiar deste caos em que vivemos. O que não é aceitável é que a sociedade, no seu todo, continue a caminhar para este abismo, sem que haja uma tomada de consciência e de atitudes no sentido contrário. É claro que o urbanismo pode resolver uma parte importante do problema, ao criar estruturas que melhor permitam a vida social em todos os seus aspectos - conforto, funcionalidade, segurança, interacção social, etc. Mas quem faz o urbanismo não são os urbanistas, mas as opções políticas de fundo e específicas. Continua-se a descuidar este aspecto, criando amalgamas de betão, para onde as pessoas são lançadas (as que conseguem, porque as outras remedeiam-se em condições precárias e opressoras). Depois cria-se os condomínios fechados, onde, em escala reduzida e contida, se tenta gerar tudo aquilo que gostaríamos que acontecesse no nosso espaço urbano. Mas, mesmo que esses condomínios fechados tivessem uma óptima qualidade (o que, frequentemente, não é o caso) um conjunto de belas frases não faz um bom poema. Ou, como dizia Hassan Fathy (que já referi atrás) a beleza de algo não resulta da sua forma, mas antes das forças que se unem para lhe darem vida.
Da reconhecida verborreia que impera no mundo do futebol, lembro-me de uma frase que associo a tudo isto: “o nosso clube estava à beira do abismo, mas agora demos um passo em frente”. E de bola percebemos nós!
08 Junho 2005
18 _ terra à vista
Há alguns dias atrás passei pelo castelo de Paderne e verifiquei que a obra de consolidação e recuperação das muralhas daquele magnífico monumento está, finalmente, em curso e a um rítmo ambicioso.
O Castelo de Paderne (ao qual já tenho feito referência, algumas vezes, nestas crónicas) é um monumento de carácter singular no panorama nacional, e apresenta (ou apresentava) um estado de conservação muito aquém do tranquilizante e muito além do indignante. Trata-se de uma edificação militar, de carácter defensivo, erigido nos finais do séc. XII, durante a reconstrução e consolidação da “linha da frente” da dinastia Almoada (ainda que haja alguns indícios de que a sua construção original seja, de facto, do período Almorávida). Essa “linha da frente” foi erguida no curto período de cerca de 40 anos, e definia o último reduto da ocupação moura na Península Ibérica, numa sequência de fortificações que incluíam, ainda, Silves, Niebla, Sevilha, etc., até ao abandono definitivo dos mouros, em 1259. Tal como aconteceu com a maioria das fortificações mouras, o reino português adaptou-a ao seu próprio uso, e manteve-a activa, ainda que a inevitável sobreposição da religião vigente tivesse consequências na própria edificação - em Paderne, isto prende-se, principalmente, com a edificação de uma capela cristã, no seu interior, em sobreposição ao templo muçulmano pré-existente.
Mas o que torna o castelo de Paderne único é o facto de este ser o único castelo em território nacional a ser totalmente construído em taipa. Na circunstância, trata-se de taipa militar, cuja particularidade que a define reside na adição de cal à composição final da terra utilizada, e na maior expessura dos muros. Esta, no caso de Paderne, é de 1,98m - ou seja, 3 vezes a medida do côvado (66cm) utilizada na época e naquela civilização.
Há uma série de pormenores interessantíssimos sobre este monumento, que não interessa referir aqui, porque a razão que me leva a escrever sobre ele é a da intervenção que sofre, no presente.
Nos anos de 1999 e 2000, integrei a equipa projectista (liderada pela arqª Teresa Beirão) que desenvolveu o estudo e projecto para a intervenção no monumento, propriedade do IPPAR, após concurso público que, obviamente, venceramos. Por uma série de peripécias (daquelas que nos fazem soltar o tal lamento/revolta “isto só neste país...!”), o projecto não foi terminado, e a equipa técnica foi “dispensada”, passando o IPPAR a tomar nas suas mão a condução do projecto e de toda a intervenção.
Foi então adjudicada a obra a uma empresa de construção que está, neste momento, a proceder aos trabalhos de taipa. Não é uma empresa com muita experiência nesta técnica, mas, apesar disso, protagonizaram uma das obras que me suscitou mais curiosidade e interesse nos últimos tempos - a construção (réplica) de um troço da cerca Fernandina, em Lisboa, no empreendimento junto ao Chiado. Esta obra do Chiado tem projecto de alguém que é considerado um deus-vivo da arquitectura - o arqº Siza Vieira. Não deixa de ser uma alegria para aqueles que, como eu, tentam divulgar a qualidade da construção em terra crua, o facto de tal personalidade ter decidido construir algo com este material. É certo que se trata de um elemento quase histórico-decorativo, e não da utilização das potencialidades do material na construção, mas tal ocorrência não deixa de ser importante.
A tal empresa, dizia eu, procedeu já, em Paderne, a parte dos trabalhos de taipa, com o preenchimento das locas (enormes e devastadoras) das muralhas, e o levantamento de alguns troços de taipa, sempre com a finalidade restrita de consolidar e dar leitura, e não de refazer o desaparecido (de resto, esta atitude tem muito em comum com a que a nossa equipa projectista tinha adoptado, em 99). Mas os trabalhos ainda vão prosseguir até meados de Agosto, com mais taipa para ser feita e com preenchimento de locas, nalguns casos utilizando um sistema desenvolvido pela empresa em questão, de projecção de terra para o preenchimento dos ôcos de expressão horizontal, que se afiguram de difícil compactação pela via “convencional” da taipa.
Por estas razões, ou apenas para conhecerem um magnífico monumento do nosso património (este castelo é um dos que figuram na bandeira nacional), recomendo vivamente uma visita ao castelo de Paderne nos próximos tempos. No dia em que por lá passei, cruzei-me com o arqº Fernando Pinto - colaborador deste jornal e arquitecto da terra desde longa data - e vários outros arquitectos e engenheiros já por lá passaram, e a equipa de empreitada tem todo o prazer em receber todos esses técnicos, e todos aqueles que possam contribuir, com um olhar crítico, para aquilo que por lá se faz e se experimenta. É de ir!
Vem lá outro fim-de-semana prolongado. As romarias ao Algarve serão comuns. É só sair do IP1, alguns quilómetros antes de chegar a Albufeira, na saída para Tunes, e seguir as indicações de Paderne e, depois de chegar à localidade do Purgatório, seguir as indicações do Castelo.
Bem sei que isto mais parece um daqueles artigos de revista de viagens, tipo “vá para fora cá dentro”... Mas olhem que vale bem a pena, sobretudo neste momento, para presenciar a recriação de uma prática construtiva, memória cultural em riscos de amnésia generalizada...
O Castelo de Paderne (ao qual já tenho feito referência, algumas vezes, nestas crónicas) é um monumento de carácter singular no panorama nacional, e apresenta (ou apresentava) um estado de conservação muito aquém do tranquilizante e muito além do indignante. Trata-se de uma edificação militar, de carácter defensivo, erigido nos finais do séc. XII, durante a reconstrução e consolidação da “linha da frente” da dinastia Almoada (ainda que haja alguns indícios de que a sua construção original seja, de facto, do período Almorávida). Essa “linha da frente” foi erguida no curto período de cerca de 40 anos, e definia o último reduto da ocupação moura na Península Ibérica, numa sequência de fortificações que incluíam, ainda, Silves, Niebla, Sevilha, etc., até ao abandono definitivo dos mouros, em 1259. Tal como aconteceu com a maioria das fortificações mouras, o reino português adaptou-a ao seu próprio uso, e manteve-a activa, ainda que a inevitável sobreposição da religião vigente tivesse consequências na própria edificação - em Paderne, isto prende-se, principalmente, com a edificação de uma capela cristã, no seu interior, em sobreposição ao templo muçulmano pré-existente.
Mas o que torna o castelo de Paderne único é o facto de este ser o único castelo em território nacional a ser totalmente construído em taipa. Na circunstância, trata-se de taipa militar, cuja particularidade que a define reside na adição de cal à composição final da terra utilizada, e na maior expessura dos muros. Esta, no caso de Paderne, é de 1,98m - ou seja, 3 vezes a medida do côvado (66cm) utilizada na época e naquela civilização.
Há uma série de pormenores interessantíssimos sobre este monumento, que não interessa referir aqui, porque a razão que me leva a escrever sobre ele é a da intervenção que sofre, no presente.
Nos anos de 1999 e 2000, integrei a equipa projectista (liderada pela arqª Teresa Beirão) que desenvolveu o estudo e projecto para a intervenção no monumento, propriedade do IPPAR, após concurso público que, obviamente, venceramos. Por uma série de peripécias (daquelas que nos fazem soltar o tal lamento/revolta “isto só neste país...!”), o projecto não foi terminado, e a equipa técnica foi “dispensada”, passando o IPPAR a tomar nas suas mão a condução do projecto e de toda a intervenção.
Foi então adjudicada a obra a uma empresa de construção que está, neste momento, a proceder aos trabalhos de taipa. Não é uma empresa com muita experiência nesta técnica, mas, apesar disso, protagonizaram uma das obras que me suscitou mais curiosidade e interesse nos últimos tempos - a construção (réplica) de um troço da cerca Fernandina, em Lisboa, no empreendimento junto ao Chiado. Esta obra do Chiado tem projecto de alguém que é considerado um deus-vivo da arquitectura - o arqº Siza Vieira. Não deixa de ser uma alegria para aqueles que, como eu, tentam divulgar a qualidade da construção em terra crua, o facto de tal personalidade ter decidido construir algo com este material. É certo que se trata de um elemento quase histórico-decorativo, e não da utilização das potencialidades do material na construção, mas tal ocorrência não deixa de ser importante.
A tal empresa, dizia eu, procedeu já, em Paderne, a parte dos trabalhos de taipa, com o preenchimento das locas (enormes e devastadoras) das muralhas, e o levantamento de alguns troços de taipa, sempre com a finalidade restrita de consolidar e dar leitura, e não de refazer o desaparecido (de resto, esta atitude tem muito em comum com a que a nossa equipa projectista tinha adoptado, em 99). Mas os trabalhos ainda vão prosseguir até meados de Agosto, com mais taipa para ser feita e com preenchimento de locas, nalguns casos utilizando um sistema desenvolvido pela empresa em questão, de projecção de terra para o preenchimento dos ôcos de expressão horizontal, que se afiguram de difícil compactação pela via “convencional” da taipa.
Por estas razões, ou apenas para conhecerem um magnífico monumento do nosso património (este castelo é um dos que figuram na bandeira nacional), recomendo vivamente uma visita ao castelo de Paderne nos próximos tempos. No dia em que por lá passei, cruzei-me com o arqº Fernando Pinto - colaborador deste jornal e arquitecto da terra desde longa data - e vários outros arquitectos e engenheiros já por lá passaram, e a equipa de empreitada tem todo o prazer em receber todos esses técnicos, e todos aqueles que possam contribuir, com um olhar crítico, para aquilo que por lá se faz e se experimenta. É de ir!
Vem lá outro fim-de-semana prolongado. As romarias ao Algarve serão comuns. É só sair do IP1, alguns quilómetros antes de chegar a Albufeira, na saída para Tunes, e seguir as indicações de Paderne e, depois de chegar à localidade do Purgatório, seguir as indicações do Castelo.
Bem sei que isto mais parece um daqueles artigos de revista de viagens, tipo “vá para fora cá dentro”... Mas olhem que vale bem a pena, sobretudo neste momento, para presenciar a recriação de uma prática construtiva, memória cultural em riscos de amnésia generalizada...
01 Junho 2005
17 _ os sujos que paguem a crise
Nos dias que correm, há um grupo de palavras que domina as conversas e as atenções. Nesse grupo, do universo da economia e finanças, encontramos expressões, perante algumas das quais já trememos, tais como défice, impostos, IRS ou IVA.
É precisamente sobre esta última sigla (IVA), que me ocorre abordar um assunto de longa data nas andanças da ecologia e da sustentabilidade.
Não temam, que não vou aventurar-me em questões técnicas de economia, matéria de que percebo muito pouco, nem sequer me vou dedicar à crítica ou elogio fácil e leviano da situação e das medidas preconizadas para a encarar.
Apresento-vos apenas uma teoria, cuja humildade, que a minha profissão insolente ainda me permite ter, me impede de sentir competências para defender ou atacar de forma consolidada. Ainda assim, parece-me interessante no seu raciocínio, pelo que a trago a lume.
Defendem alguns ecologistas - nomeadamente os mais ligados ao activismo desta corrente, com uma componente mais social (ou política, se quiserem) - que haja uma diferenciação na taxação de IVA dos produtos ditos e considerados ecológicos e não agressores do ambiente.
Dizem eles que, sendo o IVA uma transferência “irreal” de dinheiros, no panorama do mercado, poderia este imposto ser veículo de mais-valias para a questão ambiental.
O raciocínio é o seguinte: O IVA é dinheiro que “não existe”. O produtor recebe-o ao vender os seus produtos, mas vai devolvê-lo ao estado, aquando das declarações de rendimentos. Fica a zeros, neste capítulo. O intermediário vai pagá-lo, ao comprar os produtos, mas vai recuperá-lo, ao declarar quanto do seu investimento diz respeito a esta taxa. Mais tarde, vai vender o que comprou, cobrando IVA, que, tal como no caso do produtor, vai ser devolvido no processo de declarações, ficando, novamente, a zeros. Já o consumidor, esse sim, fica a menos de zeros, porque vai pagar IVA em todos os artigos que compra, mas só numa gama muito restrita de produtos é que poderá recuperar o valor que lhe diz respeito. Está, por isso, a pagar uma sobrecarga no preço de um produto, sem recuperação desse montante.
A proposta dos supra-citados ecologistas é a de reduzir drasticamente (ou mesmo anular) a taxa de IVA sobre os produtos ecológicos e amigos do ambiente. Na prática, dizem, tudo ficaria na mesma a montante - o produtor não cobraria IVA, mas também não o declararia, não tendo, por isso, que o retribuir (ficaria a zeros), e o intermediário também não pagaria nem cobraria IVA, nem na compra de produtos, nem na sua revenda, respectivamente (ficaria, também, a zeros). Quem ganharia, com este processo, é, a jusante, o consumidor, a quem os artigos chegariam mais baratos (em 21%, segundo parece que vai passar a ser), por ausência de pagamento de IVA. Os poucos que, até aqui, podiam recuperar o IVA pago, deixam de o poder fazer, mas também deixam de o pagar, ao adquirirem esses bens, pelo que fica tudo na mesma. Os muitos que actualmente não podem recuperá-lo, ficam a ganhar o valor que pagam, actualmente, por aquela taxa, que deixariam de pagar.
E para que é que isto serviria? Ou, noutra forma de ver as coisas, porque raio se haveria de fazer uma coisa destas para uns produtos e não para todos?
As razões são de duas ordens: Por um lado, é preciso ter em conta que os materiais ecológicos (e, sobretudo, os biológicos, no que diz respeito a géneros alimentares, por exemplo) são, geralmente, de fabrico mais oneroso, pelo que chegam ao mercado a preços mais elevados. Ao anular-se a taxa de IVA, estar-se-ia a reduzir consideravelmente o preço final destes produtos, tornando-os mais acessíveis e competitivos e, consequentemente, mais procurados. Por outro lado, ao criar-se esta melhoria no escoamento desses produtos, estar-se-ia a criar melhores condições para atrair novos produtores de artigos ecológicos e, inclusivamente, a aliviar um pouco o fardo dos subsídios, provenientes de dinheiros públicos, que é, actualmente, a única viabilidade económica, em muitos casos, para a produção ecológica. Numa perspectiva ambiciosa, poderia até prever-se a vantagem económica em produzir de forma ecológica, levando ao abandono, por parte de muitos produtores, de práticas menos responsáveis.
Se imaginarmos um cenário em que os produtos de cariz ecológico e ambientalmente são tiverem um custo de venda ao público equiparável a produtos semelhantes mas não-ecológicos, facilmente se pode concluir que o consumo de produtos menos poluentes e nocivos subirá em flecha e, contas feitas, quem ganha é o planeta e todos nós.
Obviamente que este raciocínio é aplicável ao universo da construção, quer a nível da produção de materiais, quer a nível das técnicas construtivas, quer a nível das práticas de obra. Seria de todo disparatado que os materiais de construção ecológicos estivessem isentos de IVA? Os únicos benifícios (leia-se, cruamente, incentivos!) que existem, actualmente, para quem recorre a opções mais ecológicas, é a dedução fiscal na aquisição de meios de energia renováveis. Não seria possível que as empresas de construção que recorressem a práticas de estaleiro mais ecológicas e a reduções de energia intrínseca de uma obra (através, por exemplo, da redução do peso do transporte de materiais na energia consumida) tivessem um outro tipo de enquadramento na cobrança deste imposto? E as próprias técnicas construtivas não poderiam estar classificadas, segundo uma perspectiva ecológica, de forma a reduzir a incidência desta taxa no custo final de uma obra? (uma construção em taipa, por exemplo, não poderia estar isenta de pagamento de IVA, na oneração da mão-de-obra?)
É claro que, tal como referi atrás, não sou um especialista em matérias de economia e finanças, nem sou, de forma alguma, autor do raciocínio que atrás apresento. Ele poderá ser perfeitamente absurdo, segundo critérios técnicos, e até facilmente rebativel por especialistas.
Mas só aqui entre nós... não soa nada mal, pois não?
É que hoje é dia da criança, e apetecia-me acreditar que os nossos filhos vão ter um mundo que apeteça...
É precisamente sobre esta última sigla (IVA), que me ocorre abordar um assunto de longa data nas andanças da ecologia e da sustentabilidade.
Não temam, que não vou aventurar-me em questões técnicas de economia, matéria de que percebo muito pouco, nem sequer me vou dedicar à crítica ou elogio fácil e leviano da situação e das medidas preconizadas para a encarar.
Apresento-vos apenas uma teoria, cuja humildade, que a minha profissão insolente ainda me permite ter, me impede de sentir competências para defender ou atacar de forma consolidada. Ainda assim, parece-me interessante no seu raciocínio, pelo que a trago a lume.
Defendem alguns ecologistas - nomeadamente os mais ligados ao activismo desta corrente, com uma componente mais social (ou política, se quiserem) - que haja uma diferenciação na taxação de IVA dos produtos ditos e considerados ecológicos e não agressores do ambiente.
Dizem eles que, sendo o IVA uma transferência “irreal” de dinheiros, no panorama do mercado, poderia este imposto ser veículo de mais-valias para a questão ambiental.
O raciocínio é o seguinte: O IVA é dinheiro que “não existe”. O produtor recebe-o ao vender os seus produtos, mas vai devolvê-lo ao estado, aquando das declarações de rendimentos. Fica a zeros, neste capítulo. O intermediário vai pagá-lo, ao comprar os produtos, mas vai recuperá-lo, ao declarar quanto do seu investimento diz respeito a esta taxa. Mais tarde, vai vender o que comprou, cobrando IVA, que, tal como no caso do produtor, vai ser devolvido no processo de declarações, ficando, novamente, a zeros. Já o consumidor, esse sim, fica a menos de zeros, porque vai pagar IVA em todos os artigos que compra, mas só numa gama muito restrita de produtos é que poderá recuperar o valor que lhe diz respeito. Está, por isso, a pagar uma sobrecarga no preço de um produto, sem recuperação desse montante.
A proposta dos supra-citados ecologistas é a de reduzir drasticamente (ou mesmo anular) a taxa de IVA sobre os produtos ecológicos e amigos do ambiente. Na prática, dizem, tudo ficaria na mesma a montante - o produtor não cobraria IVA, mas também não o declararia, não tendo, por isso, que o retribuir (ficaria a zeros), e o intermediário também não pagaria nem cobraria IVA, nem na compra de produtos, nem na sua revenda, respectivamente (ficaria, também, a zeros). Quem ganharia, com este processo, é, a jusante, o consumidor, a quem os artigos chegariam mais baratos (em 21%, segundo parece que vai passar a ser), por ausência de pagamento de IVA. Os poucos que, até aqui, podiam recuperar o IVA pago, deixam de o poder fazer, mas também deixam de o pagar, ao adquirirem esses bens, pelo que fica tudo na mesma. Os muitos que actualmente não podem recuperá-lo, ficam a ganhar o valor que pagam, actualmente, por aquela taxa, que deixariam de pagar.
E para que é que isto serviria? Ou, noutra forma de ver as coisas, porque raio se haveria de fazer uma coisa destas para uns produtos e não para todos?
As razões são de duas ordens: Por um lado, é preciso ter em conta que os materiais ecológicos (e, sobretudo, os biológicos, no que diz respeito a géneros alimentares, por exemplo) são, geralmente, de fabrico mais oneroso, pelo que chegam ao mercado a preços mais elevados. Ao anular-se a taxa de IVA, estar-se-ia a reduzir consideravelmente o preço final destes produtos, tornando-os mais acessíveis e competitivos e, consequentemente, mais procurados. Por outro lado, ao criar-se esta melhoria no escoamento desses produtos, estar-se-ia a criar melhores condições para atrair novos produtores de artigos ecológicos e, inclusivamente, a aliviar um pouco o fardo dos subsídios, provenientes de dinheiros públicos, que é, actualmente, a única viabilidade económica, em muitos casos, para a produção ecológica. Numa perspectiva ambiciosa, poderia até prever-se a vantagem económica em produzir de forma ecológica, levando ao abandono, por parte de muitos produtores, de práticas menos responsáveis.
Se imaginarmos um cenário em que os produtos de cariz ecológico e ambientalmente são tiverem um custo de venda ao público equiparável a produtos semelhantes mas não-ecológicos, facilmente se pode concluir que o consumo de produtos menos poluentes e nocivos subirá em flecha e, contas feitas, quem ganha é o planeta e todos nós.
Obviamente que este raciocínio é aplicável ao universo da construção, quer a nível da produção de materiais, quer a nível das técnicas construtivas, quer a nível das práticas de obra. Seria de todo disparatado que os materiais de construção ecológicos estivessem isentos de IVA? Os únicos benifícios (leia-se, cruamente, incentivos!) que existem, actualmente, para quem recorre a opções mais ecológicas, é a dedução fiscal na aquisição de meios de energia renováveis. Não seria possível que as empresas de construção que recorressem a práticas de estaleiro mais ecológicas e a reduções de energia intrínseca de uma obra (através, por exemplo, da redução do peso do transporte de materiais na energia consumida) tivessem um outro tipo de enquadramento na cobrança deste imposto? E as próprias técnicas construtivas não poderiam estar classificadas, segundo uma perspectiva ecológica, de forma a reduzir a incidência desta taxa no custo final de uma obra? (uma construção em taipa, por exemplo, não poderia estar isenta de pagamento de IVA, na oneração da mão-de-obra?)
É claro que, tal como referi atrás, não sou um especialista em matérias de economia e finanças, nem sou, de forma alguma, autor do raciocínio que atrás apresento. Ele poderá ser perfeitamente absurdo, segundo critérios técnicos, e até facilmente rebativel por especialistas.
Mas só aqui entre nós... não soa nada mal, pois não?
É que hoje é dia da criança, e apetecia-me acreditar que os nossos filhos vão ter um mundo que apeteça...
20 Abril 2005
16 _ fim-de-semana na terra
Antes de mais, as minhas desculpas pela falta de crónica na semana passada...!
Mas é precisamente sobre as razões que me impediram de a enviar, que agora escrevo. O imprevisto deveu-se ao infindável trabalho em que estive envolvido, na organização e execução de um curso denominado Oficinas da Primavera de construção com terra, no âmbito das acções de difusão e promoção desta(s) técnica(s) construtiva(s), levadas a cabo pela associação a que pertenço - o Centro da Terra.
Foi no passado fim-de-semana (9 e 10 de Abril) que se realizou este pequeno curso de abordagem à construção em terra crua, que decorreu na Universidade Nova, ali para os lados da recém-eleita-a-cidade Costa da Caparica, e que foi um êxito que superou as expectativas. Desde já, todas as vagas (20) foram rapidamente preenchidas, havendo quase um número igual de pretendentes que tiveram de ficar de fora (por razões da orgânica do próprio curso) e o interesse manifestado pelos participantes foi notável, dando toda a legitimidade e pertinência a iniciativas desta índole.
A construção com terra crua prende-se com outras temáticas mais abrangentes e menos especializadas, tais como a sustentabilidade, a discussão em torno da ecologia, a manutenção de patrimónios e identidades culturais, etc. Não será de estranhar, portanto, que seja um assunto que se revista, mais e mais, de um interesse por parte de diversos sectores, num cenário inimaginável para quem, há alguns anos atrás, se debruçava sobre estes assuntos, de forma “insolente” e solitária. Não obstante o alargamento desse interesse a outros sectores, a esmagadora maioria dos participantes neste curso era constituída por arquitectos - jovens, sobretudo (e saudavelmente). De engenharia, design, artes visuais, jornalismo e economia, eram os outros participantes, num grupo que permitia um conjunto de diferentes perspectivas sobre um mesmo tema, situação extremamente enriquecedora para a discussão.
Na manhã de sábado, teve lugar uma série de conferências, apresentadas por especialistas na área, com os seguintes temas: “Construção e Ambiente” (arqª Vera Schmidberger), “A utilização da terra como material de construção” (arqº Miguel Rocha), “Técnicas de construção com terra crua” (arqª Maria Fernandes), “A construção com terra na actualidade” (arqº Miguel Ferreira Mendes), “Técnicas de construção com terra em Portugal” (arqª Mariana Correia) e “Revestimentos em paredes de terra” (Engª Paulina Faria Rodrigues). Foram, assim, abordados alguns dos principais assuntos relativos a esta(s) técnica(s) construtiva(s), permitindo traçar um panorama geral para um melhor entendimento desta realidade, antes de se passar à componente prática.
Na tarde de sábado, o primeiro módulo prático foi a análise de terras (arqº Miguel Ferreira Mendes / arqª Catarina Pereira), onde foi executada uma série de testes de terreno e de laboratório que permitem a análise de uma terra, a fim de se traçar um perfil exacto desta, para que se possa definir em que termos se pode utilizá-la, com recurso a qual das técnicas construtivas, com que possíveis intervenções correctivas e com que cuidados. Ainda que se trate de um processo menos apaixonante do que a construção propriamente dita, esta fase de análise é essencial, já que permite conhecer a fundo todas as capacidades e pontos fracos de uma terra, condição essencial para que se possa tirar o maior partido do seu uso, e evitar resultados menos satisfatórios. Os testes realizados foram, sobretudo, de aplicação no terreno e de observação factual, havendo ainda alguns de carácter laboratorial e de observação mais científica.
Durante o resto da tarde de sábado e no dia de domingo, os participante puderam experimentar, em primeira mão, duas técnicas de construção em terra crua: no módulo de construção em adobe (arqº Eduardo Carvalho / arqº Luis Gama / arqº Francisco Freire), foram executados alguns adobes, bem como a elevação de uma pequena alvenaria e ainda algumas experiências com arcos, tudo com utilização de adobes; no módulo da construção em taipa (arqº Henrique Shreck / arqº Miguel Rocha), foi estudada a montagem e desmontagem do taipal, com as peças que o constituem, e foi construido um pequeno troço de parede em taipa.
A vontade de prolongar as experiências era notória, por parte dos participantes, mas a duração prevista para o curso não permitia mais do que uma abordagem introdutória à realidade da construção com terra crua.
Ao contrário dos materiais industriais, que são rigorosamente idênticos de obra para obra, a terra tem características que podem variar enormemente de local para local. Daí que nenhum curso, por maior que seja, possa ensinar as regras da construção com este material, porque, pura e simplesmente, não há soluções pré-definidas, mas apenas um conjunto de conhecimentos técnicos que se cruzam e confrontam em cada caso, para permitir a escolha da opção mais acertada para cada situação. Ou seja: a parte científica e exacta é importante (e até fundamental - na análise das terras e dos casos e no conjunto de regras básicas do “o que não fazer nunca”), mas a opção a tomar na intervenção preconizada é resultado da sagacidade, bom senso, conhecimento técnico, inteligência, e experiência do técnico. E é isso que confere à construção em terra um estatuto de algo vivo e em constante reinvenção. E será essa a grande razão da paixão por estas técnicas que interagem com os seus utilizadores, numa simbiose que tem tanto de dramático como de romântico.
O Centro da Terra está de parabéns por esta iniciativa, e prepara já um dos maiores eventos de sempre em Portugal, no que diz respeito à construção em terra - o IV SIACOT (Seminário Ibero-Americano de Construção com Terra). Decorrerá no início de Outubro, aqui para os nossos lados (no Convento da Orada, em Monsaraz), e contará com cerca de duas centenas de participantes de todo o mundo ibero-americano, numa série de conferências, debates, exposições e visitas, que permitirão discutir as evoluções, investigações, considerações e problemáticas que todos os especialistas desta área têm desenvolvido, a nível internacional. No primeiro dia deste acontecimento, terá lugar um outro curso de construção com terra, à semelhança do que aqui vos relatei, mais uma vez organizado pelo Centro da Terra (ver informações em www.centrodaterra.org). Só espero ter tempo para escrever as crónicas do diário do sul, por esses dias...
Mas é precisamente sobre as razões que me impediram de a enviar, que agora escrevo. O imprevisto deveu-se ao infindável trabalho em que estive envolvido, na organização e execução de um curso denominado Oficinas da Primavera de construção com terra, no âmbito das acções de difusão e promoção desta(s) técnica(s) construtiva(s), levadas a cabo pela associação a que pertenço - o Centro da Terra.
Foi no passado fim-de-semana (9 e 10 de Abril) que se realizou este pequeno curso de abordagem à construção em terra crua, que decorreu na Universidade Nova, ali para os lados da recém-eleita-a-cidade Costa da Caparica, e que foi um êxito que superou as expectativas. Desde já, todas as vagas (20) foram rapidamente preenchidas, havendo quase um número igual de pretendentes que tiveram de ficar de fora (por razões da orgânica do próprio curso) e o interesse manifestado pelos participantes foi notável, dando toda a legitimidade e pertinência a iniciativas desta índole.
A construção com terra crua prende-se com outras temáticas mais abrangentes e menos especializadas, tais como a sustentabilidade, a discussão em torno da ecologia, a manutenção de patrimónios e identidades culturais, etc. Não será de estranhar, portanto, que seja um assunto que se revista, mais e mais, de um interesse por parte de diversos sectores, num cenário inimaginável para quem, há alguns anos atrás, se debruçava sobre estes assuntos, de forma “insolente” e solitária. Não obstante o alargamento desse interesse a outros sectores, a esmagadora maioria dos participantes neste curso era constituída por arquitectos - jovens, sobretudo (e saudavelmente). De engenharia, design, artes visuais, jornalismo e economia, eram os outros participantes, num grupo que permitia um conjunto de diferentes perspectivas sobre um mesmo tema, situação extremamente enriquecedora para a discussão.
Na manhã de sábado, teve lugar uma série de conferências, apresentadas por especialistas na área, com os seguintes temas: “Construção e Ambiente” (arqª Vera Schmidberger), “A utilização da terra como material de construção” (arqº Miguel Rocha), “Técnicas de construção com terra crua” (arqª Maria Fernandes), “A construção com terra na actualidade” (arqº Miguel Ferreira Mendes), “Técnicas de construção com terra em Portugal” (arqª Mariana Correia) e “Revestimentos em paredes de terra” (Engª Paulina Faria Rodrigues). Foram, assim, abordados alguns dos principais assuntos relativos a esta(s) técnica(s) construtiva(s), permitindo traçar um panorama geral para um melhor entendimento desta realidade, antes de se passar à componente prática.
Na tarde de sábado, o primeiro módulo prático foi a análise de terras (arqº Miguel Ferreira Mendes / arqª Catarina Pereira), onde foi executada uma série de testes de terreno e de laboratório que permitem a análise de uma terra, a fim de se traçar um perfil exacto desta, para que se possa definir em que termos se pode utilizá-la, com recurso a qual das técnicas construtivas, com que possíveis intervenções correctivas e com que cuidados. Ainda que se trate de um processo menos apaixonante do que a construção propriamente dita, esta fase de análise é essencial, já que permite conhecer a fundo todas as capacidades e pontos fracos de uma terra, condição essencial para que se possa tirar o maior partido do seu uso, e evitar resultados menos satisfatórios. Os testes realizados foram, sobretudo, de aplicação no terreno e de observação factual, havendo ainda alguns de carácter laboratorial e de observação mais científica.
Durante o resto da tarde de sábado e no dia de domingo, os participante puderam experimentar, em primeira mão, duas técnicas de construção em terra crua: no módulo de construção em adobe (arqº Eduardo Carvalho / arqº Luis Gama / arqº Francisco Freire), foram executados alguns adobes, bem como a elevação de uma pequena alvenaria e ainda algumas experiências com arcos, tudo com utilização de adobes; no módulo da construção em taipa (arqº Henrique Shreck / arqº Miguel Rocha), foi estudada a montagem e desmontagem do taipal, com as peças que o constituem, e foi construido um pequeno troço de parede em taipa.
A vontade de prolongar as experiências era notória, por parte dos participantes, mas a duração prevista para o curso não permitia mais do que uma abordagem introdutória à realidade da construção com terra crua.
Ao contrário dos materiais industriais, que são rigorosamente idênticos de obra para obra, a terra tem características que podem variar enormemente de local para local. Daí que nenhum curso, por maior que seja, possa ensinar as regras da construção com este material, porque, pura e simplesmente, não há soluções pré-definidas, mas apenas um conjunto de conhecimentos técnicos que se cruzam e confrontam em cada caso, para permitir a escolha da opção mais acertada para cada situação. Ou seja: a parte científica e exacta é importante (e até fundamental - na análise das terras e dos casos e no conjunto de regras básicas do “o que não fazer nunca”), mas a opção a tomar na intervenção preconizada é resultado da sagacidade, bom senso, conhecimento técnico, inteligência, e experiência do técnico. E é isso que confere à construção em terra um estatuto de algo vivo e em constante reinvenção. E será essa a grande razão da paixão por estas técnicas que interagem com os seus utilizadores, numa simbiose que tem tanto de dramático como de romântico.
O Centro da Terra está de parabéns por esta iniciativa, e prepara já um dos maiores eventos de sempre em Portugal, no que diz respeito à construção em terra - o IV SIACOT (Seminário Ibero-Americano de Construção com Terra). Decorrerá no início de Outubro, aqui para os nossos lados (no Convento da Orada, em Monsaraz), e contará com cerca de duas centenas de participantes de todo o mundo ibero-americano, numa série de conferências, debates, exposições e visitas, que permitirão discutir as evoluções, investigações, considerações e problemáticas que todos os especialistas desta área têm desenvolvido, a nível internacional. No primeiro dia deste acontecimento, terá lugar um outro curso de construção com terra, à semelhança do que aqui vos relatei, mais uma vez organizado pelo Centro da Terra (ver informações em www.centrodaterra.org). Só espero ter tempo para escrever as crónicas do diário do sul, por esses dias...
23 Março 2005
15 _ verdes são os campos
Na crónica anterior referia-me à intervenção junto das muralhas, na zona entre a Porta de Aviz e a Porta da Lagoa. Falava da relevância de tal processo de remodelação do tecido urbano e, entre outros aspectos, foquei a importância do carácter pedonal e de lazer do espaço a surgir, com alusão à criação de possíveis zonas verdes, não anunciadas pela autarquia, mas de forte pertinência e, tendo em conta a inteligência da equipa projectista, a ter em expectativa.
Hoje refiro-me à importância crucial de que se reveste a existência de espaços verdes (sobretudo arborizados) dentro das malhas urbanas, de pertinência proporcional à dimensão da mancha urbana.
Em cidades com forte cariz cosmopolita, de enquadramento civilizacional de primeira água, tais como Londres ou Copenhaga, a multiplicidade de espaços verdes e a sua cirúrgica localização (ou a disposição do tecido urbano face à sua pré-existência) é uma característica de refinada sofisticação urbanística e, consequentemente, social. A existência de uma série de zonas de lazer, de carácter vegetal e arborizado, com implantação pontual, cria uma série de relações urbanas e de práticas sociais que incutem uma substancial melhoria dos níveis de vida dos cidadãos, da qualidade ambiental, das relações sociais a nível de proximidades e de práticas de grupo, bem como uma redução de alguns dos aspectos negativos das grandes cidades e das extensas superfícies construídas.
A um nível mais perceptível, será evidente a referência ao carácter lúdico dos parques e jardins públicos, estendendo essa potencialidade à própria interferência na ocupação dos tempos livres dos cidadãos em geral, com destaque para as crianças e os idosos.
Numa leitura mais técnica, assinale-se a criação de marcos na paisagem urbana, com a consequente articulação do tecido urbano, pontuado, aqui e ali, por estes acontecimentos urbanísticos. Um pouco à semelhança do que se passava na refinada arte barroca da concepção de jardins, em que estes eram dotados de pontos de tensão - apelidados de folies - que faziam a pontuação do espaço ajardinado, definindo elementos que se conjugavam, na própria criação de percursos e de tempo de utilização do espaço. Será o factor tempo a intrometer-se na arquitectura - que é mais conotada com a exclusividade do factor espaço - através da definição do ritmo de percursos e de pontos de passagem ou de permanência. A introdução de parques e jardins nas cidades densas é um pouco o negativo homólogo desta prática - aqui, ao contrário do que se passava no jardim barroco, o espaço verde será a pausa, a neo-folie.
No campo social, pense-se na abstracção individualista com que a nossa sociedade ocidental contemporânea consome avidamente os seus minutos, entre a forma mais rápida de ir de um ponto a outro, a fuga isolacionista do automóvel, a fortificação do espaço individual (com o expoente máximo no mea culpa dos condomínios fechados) a falsa convivência estéril dos serões televisivos, a delegação das responsabilidades cívicas e até familiares em instituições que nos substituem e nos permitem a amnésia terapêutica, e facilmente se chega à conclusão da enorme importância que terá, neste campo, a existência de zonas verdes, espaços de convívio e interacção social privilegiados.
Como se não bastasse, ainda há as evidentes vantagens ambientais, quer ao nível da melhoria da qualidade do ar, quer ao nível da redução e da quebra de continuidade da obcessiva impermeabilização dos solos urbanos. As manchas verdes, não só permitem um melhor escoamento das águas pluviais, como este é mais benéfico, porque, ao invés de se estar a captar as águas para o sistema de colecta e canalizá-las para as descargas, há uma infiltração directa e local, com a consequente melhoria dos níveis freáticos e de humidade dos solos, com influência a nível das bacias hidrográficas.
Depois, de forma menos perceptível, as zonas verdes acabam por ser pontos de convergência de percursos e de “migrações” a nível urbano, funcionando como verdadeiros nós de tráfego pedonal (isto quando bem estruturadas e implantadas segundo um sistema coerente, naturalmente).
Já que falei em Londres, aconselho todos os que passarem por esta magnífica cidade a “perderem” algum tempo numa visita ao fantástico Hyde Park, onde poderão esquecer-se de que estão numa das maiores metrópoles do mundo, e onde verão uma quantidade enorme de pessoas a praticarem desporto, a passearem, a conviverem, e a fazerem tudo aquilo que apenas uma cidade com elevada qualidade de vida permite. Mas é bom dizer-se que o Hyde Park, apesar de ser o maior e o mais conhecido parque de Londres, é apenas uma das imensas zonas verdes que aquela cidade oferece.
(As três primeiras palavras da próxima frase acontecem com demasiada frequência...!)
Em Portugal, infelizmente, a visão dos responsáveis pelo planeamento urbano está muitas vezes subjugada a “inevitáveis” (como eles próprios apelidam) questões económicas. É tão grande a lista de verdadeiros atentados nesta área, que seria necessário escrever uma crónica diferente em cada exemplar desta edição do Diário do Sul para fazer um apanhado sucinto da situação. Mesmo nas áreas de expansão e nos grandes loteamentos e urbanizações, a preocupação com as zonas verdes é, na realidade, um luxo só para raros casos. A não ser a tal coisa horripilante dos condomínios fechados (um destes dias ainda lá vamos...), que oferecem zonas verdes de “exclusividade higiénica”, onde uma das facetas mais interessantes destes equipamentos (a relação social) está confinada a uma perspectiva elitista, logo, desprovida da sua intenção de génese.
Em Évora temos dois casos. Ou melhor, neste capítulo, como em tantos outros, temos duas Évoras - uma dentro das muralhas e outra fora delas. No exterior há uma carência clara de espaços verdes de qualidade com uma escala urbana e adequada à sua localização e zonas de acção. Atenção que eu não falo de umas árvores que por ali ficaram depois das máquinas terem terminado os prédios. Falo de espaços qualificados, com intencionalidade e capacidade de diálogo no contexto urbano em que se inserem. E com uma relação extrínseca entre eles, de modo a resultarem no tal conjunto de pontos e vírgulas da paisagem contruída, a tal pontuação da malha urbana, de forma a que o todo ganhe uma coerência e uma continuidade, em vez da justaposição de nadas. Tal como em ocasiões anteriores, refiro a notável excepção da malagueira - que é, de facto, o único sector de cidade extra-muros com um projecto urbanístico de grande coerência e continuidade, no diálogo com a envolvente e com a sua própria morfologia e estrutura. E não me refiro sequer à qualidade dos edifícios em si, mas apenas à sua inter-relação e à estrutura urbana que os articula, juntamente com os tais espaços verdes, e ao carácter coeso, dialogante e extrovertido daí resultante, pouco comum na maioria dos bairros cá do burgo. Assim se vê a diferença entre expansões planeadas ou “anarquizadas”.
Mas falava eu das “duas Évoras”. Ora, no centro histórico, o cenário é bem menos cinzento do que o anterior. De facto, não há uma quantidade considerável de zonas verdes, mas a maior parte das pequenas que existem tem um charme e um diálogo com a malha urbana perfeitamente espantosos. É de lamentar que a maioria das pequenas praças que, de forma tão naturalmente perfeita (passe a sublimação), articulam a magnífica estrutura urbana do centro histórico, sejam, com o passar do tempo, despojadas da sua função social e de lazer, para aí surgir mais um parqueamento automóvel. Desta questão falarei noutro dia. Para já fica a referência à simplicidade genial com que as pequenas praças e zonas verdes (no melhor cenário, os espaços que são ambas as coisas, em simultâneo) se alimentam da malha urbana e a criam, numa simbiose perfeita de espaço-envólucro, cheio-vazio.
Mas devo confessar que a minha vontade de escrever esta crónica veio pelo desejo de elogiar um espaço magnífico dentro desta cidade - o jardim público e, em particular, a mata que lhe é adjacente. Poucas cidades se poderão dar ao luxo de ter uma mancha verde da dimensão e qualidade desta, tendo em conta que a sua proporcionalidade deverá ser medida com referência ao centro histórico. Mas penso que qualquer comentário será redundante, pois basta um pequeno passeio por lá para se perceber tudo.
Seria bom que as novas intervenções na cidade também me dessem vontade de escrever crónicas de elogio...
Hoje refiro-me à importância crucial de que se reveste a existência de espaços verdes (sobretudo arborizados) dentro das malhas urbanas, de pertinência proporcional à dimensão da mancha urbana.
Em cidades com forte cariz cosmopolita, de enquadramento civilizacional de primeira água, tais como Londres ou Copenhaga, a multiplicidade de espaços verdes e a sua cirúrgica localização (ou a disposição do tecido urbano face à sua pré-existência) é uma característica de refinada sofisticação urbanística e, consequentemente, social. A existência de uma série de zonas de lazer, de carácter vegetal e arborizado, com implantação pontual, cria uma série de relações urbanas e de práticas sociais que incutem uma substancial melhoria dos níveis de vida dos cidadãos, da qualidade ambiental, das relações sociais a nível de proximidades e de práticas de grupo, bem como uma redução de alguns dos aspectos negativos das grandes cidades e das extensas superfícies construídas.
A um nível mais perceptível, será evidente a referência ao carácter lúdico dos parques e jardins públicos, estendendo essa potencialidade à própria interferência na ocupação dos tempos livres dos cidadãos em geral, com destaque para as crianças e os idosos.
Numa leitura mais técnica, assinale-se a criação de marcos na paisagem urbana, com a consequente articulação do tecido urbano, pontuado, aqui e ali, por estes acontecimentos urbanísticos. Um pouco à semelhança do que se passava na refinada arte barroca da concepção de jardins, em que estes eram dotados de pontos de tensão - apelidados de folies - que faziam a pontuação do espaço ajardinado, definindo elementos que se conjugavam, na própria criação de percursos e de tempo de utilização do espaço. Será o factor tempo a intrometer-se na arquitectura - que é mais conotada com a exclusividade do factor espaço - através da definição do ritmo de percursos e de pontos de passagem ou de permanência. A introdução de parques e jardins nas cidades densas é um pouco o negativo homólogo desta prática - aqui, ao contrário do que se passava no jardim barroco, o espaço verde será a pausa, a neo-folie.
No campo social, pense-se na abstracção individualista com que a nossa sociedade ocidental contemporânea consome avidamente os seus minutos, entre a forma mais rápida de ir de um ponto a outro, a fuga isolacionista do automóvel, a fortificação do espaço individual (com o expoente máximo no mea culpa dos condomínios fechados) a falsa convivência estéril dos serões televisivos, a delegação das responsabilidades cívicas e até familiares em instituições que nos substituem e nos permitem a amnésia terapêutica, e facilmente se chega à conclusão da enorme importância que terá, neste campo, a existência de zonas verdes, espaços de convívio e interacção social privilegiados.
Como se não bastasse, ainda há as evidentes vantagens ambientais, quer ao nível da melhoria da qualidade do ar, quer ao nível da redução e da quebra de continuidade da obcessiva impermeabilização dos solos urbanos. As manchas verdes, não só permitem um melhor escoamento das águas pluviais, como este é mais benéfico, porque, ao invés de se estar a captar as águas para o sistema de colecta e canalizá-las para as descargas, há uma infiltração directa e local, com a consequente melhoria dos níveis freáticos e de humidade dos solos, com influência a nível das bacias hidrográficas.
Depois, de forma menos perceptível, as zonas verdes acabam por ser pontos de convergência de percursos e de “migrações” a nível urbano, funcionando como verdadeiros nós de tráfego pedonal (isto quando bem estruturadas e implantadas segundo um sistema coerente, naturalmente).
Já que falei em Londres, aconselho todos os que passarem por esta magnífica cidade a “perderem” algum tempo numa visita ao fantástico Hyde Park, onde poderão esquecer-se de que estão numa das maiores metrópoles do mundo, e onde verão uma quantidade enorme de pessoas a praticarem desporto, a passearem, a conviverem, e a fazerem tudo aquilo que apenas uma cidade com elevada qualidade de vida permite. Mas é bom dizer-se que o Hyde Park, apesar de ser o maior e o mais conhecido parque de Londres, é apenas uma das imensas zonas verdes que aquela cidade oferece.
(As três primeiras palavras da próxima frase acontecem com demasiada frequência...!)
Em Portugal, infelizmente, a visão dos responsáveis pelo planeamento urbano está muitas vezes subjugada a “inevitáveis” (como eles próprios apelidam) questões económicas. É tão grande a lista de verdadeiros atentados nesta área, que seria necessário escrever uma crónica diferente em cada exemplar desta edição do Diário do Sul para fazer um apanhado sucinto da situação. Mesmo nas áreas de expansão e nos grandes loteamentos e urbanizações, a preocupação com as zonas verdes é, na realidade, um luxo só para raros casos. A não ser a tal coisa horripilante dos condomínios fechados (um destes dias ainda lá vamos...), que oferecem zonas verdes de “exclusividade higiénica”, onde uma das facetas mais interessantes destes equipamentos (a relação social) está confinada a uma perspectiva elitista, logo, desprovida da sua intenção de génese.
Em Évora temos dois casos. Ou melhor, neste capítulo, como em tantos outros, temos duas Évoras - uma dentro das muralhas e outra fora delas. No exterior há uma carência clara de espaços verdes de qualidade com uma escala urbana e adequada à sua localização e zonas de acção. Atenção que eu não falo de umas árvores que por ali ficaram depois das máquinas terem terminado os prédios. Falo de espaços qualificados, com intencionalidade e capacidade de diálogo no contexto urbano em que se inserem. E com uma relação extrínseca entre eles, de modo a resultarem no tal conjunto de pontos e vírgulas da paisagem contruída, a tal pontuação da malha urbana, de forma a que o todo ganhe uma coerência e uma continuidade, em vez da justaposição de nadas. Tal como em ocasiões anteriores, refiro a notável excepção da malagueira - que é, de facto, o único sector de cidade extra-muros com um projecto urbanístico de grande coerência e continuidade, no diálogo com a envolvente e com a sua própria morfologia e estrutura. E não me refiro sequer à qualidade dos edifícios em si, mas apenas à sua inter-relação e à estrutura urbana que os articula, juntamente com os tais espaços verdes, e ao carácter coeso, dialogante e extrovertido daí resultante, pouco comum na maioria dos bairros cá do burgo. Assim se vê a diferença entre expansões planeadas ou “anarquizadas”.
Mas falava eu das “duas Évoras”. Ora, no centro histórico, o cenário é bem menos cinzento do que o anterior. De facto, não há uma quantidade considerável de zonas verdes, mas a maior parte das pequenas que existem tem um charme e um diálogo com a malha urbana perfeitamente espantosos. É de lamentar que a maioria das pequenas praças que, de forma tão naturalmente perfeita (passe a sublimação), articulam a magnífica estrutura urbana do centro histórico, sejam, com o passar do tempo, despojadas da sua função social e de lazer, para aí surgir mais um parqueamento automóvel. Desta questão falarei noutro dia. Para já fica a referência à simplicidade genial com que as pequenas praças e zonas verdes (no melhor cenário, os espaços que são ambas as coisas, em simultâneo) se alimentam da malha urbana e a criam, numa simbiose perfeita de espaço-envólucro, cheio-vazio.
Mas devo confessar que a minha vontade de escrever esta crónica veio pelo desejo de elogiar um espaço magnífico dentro desta cidade - o jardim público e, em particular, a mata que lhe é adjacente. Poucas cidades se poderão dar ao luxo de ter uma mancha verde da dimensão e qualidade desta, tendo em conta que a sua proporcionalidade deverá ser medida com referência ao centro histórico. Mas penso que qualquer comentário será redundante, pois basta um pequeno passeio por lá para se perceber tudo.
Seria bom que as novas intervenções na cidade também me dessem vontade de escrever crónicas de elogio...
09 Março 2005
14 _ a seca chegou às docas num dia assim
No dia em que foi publicada a crónica anterior a esta, a primeira página deste jornal era ocupada pela notícia que dava conta do projecto municipal de reconversão da faixa junto à muralha de Évora, entre as rotundas conhecidas como Porta de Aviz e Porta da Lagoa.
Sobre o programa desta intervenção, afiguram-se-me dois comentários:
O primeiro é de grande satisfação. Não tanto pela que julgo ser a motivação principal da autarquia (já lá iremos), mas antes pelo resultado urbanístico que daí resultará. Quando se analisa a zona em questão, chega-se à rápida conclusão de que se trata de toda uma área que, apesar da localização privilegiada, pouco mais apresenta do que a desolação e o ruído visual e urbanístico de um baldio, completamente descaracterizado e desinteressante. Não só assim é, como se pode, inclusivamente, falar de um “espaço-tampão” na fluência entre as zonas intra e extra-muros.
Há, em Évora, uma clara e, no meu entender, nefasta dissociação entre o preservado e carismático território do chamado centro histórico, e a zona amorfa que o circunda e se estende por todo o tecido urbano exterior às muralhas. Existe aqui uma clara força centríputa, natural nas cidades que possuem um centro histórico bem definido e com características fortes, sobretudo naquelas que ainda não sofreram grandes expansões acompanhadas por planos de ordenamento audazes e abrangentes que tenham dado origem a novos pontos de tensão urbanística e, eventualmente, até a novos centros. Essa força centríputa acentua a convergência da realidade urbana para o seu centro, o que, per si, não é uma contrariedade, mas, no caso eborense, o problema é que deixa a sua envolvente com um certo carácter de espaço restante, germinado por bairros-dormitório e loteamentos incoerentes, quase sempre com a sórdida preocupação da expressão mimética do “típico-tradicional-castiço eborense”. Como alguns se lembrarão do que escrevi há uns tempos atrás - sobre a questão da ausência de intervenção arquitectónica e urbanística de carácter contemporâneo em Évora e da consequente pseudo-mumificação do edificado - a produção de “casinhas” (porque outro termo não poderá ser aplicado) a imitarem, mal e grosseiramente, os interessantissimos edifícios do centro histórico, não só cria e reflete a ausência de desenvolvimento cultural e técnico, como cai na inevitável armadilha de criar algo que, como diz o povo, “nem é carne nem é peixe”.
É por isto que o anúncio da intervenção junto das muralhas se reveste da maior importância e é motivo de exultação para todos os que tratam de assuntos de edificado. Para mais, se se tiver em conta o curriculum e a reconhecida sagacidade do arquitecto anunciado para projectar a intervenção, só se pode esperar um passo importantíssimo (e que urgia) na definição e na tomada de consistência do tecido da cidade.
O primeiro motivo de interesse prende-se com a criação dos equipamentos e serviços a implementar, que poderão vir a dotar esta cidade (que está culturalmente moribunda) de uma nova energia, essencial ao carácter cosmopolita que qualquer capital de distrito da europa do século XXI tem a obrigação de oferecer. A integração do Forte de S. Bartolomeu numa nova malha vem atenuar o desencanto que a degradação daquele monumento transmite. A criação de uma área ampla, com multiplicidade de espaços e, sabiamente, com preferência para o uso pedonal e de lazer, constitui outro dos pontos de grande interesse e pertinência deste projecto. Espera-se a criação de zonas verdes, que tanta falta fazem e tanto prazer e funcionalidade proporcionam, sendo um dos indicadores de verdadeira modernidade na concepção de tecidos urbanos (veja-se o exemplo de cidades como Londres, Copenhaga ou Paris). Mas, sem dúvida alguma, a maior mais-valia desta intervenção é a criação de uma zona de transição entre a cidade extra-muros e o centro histórico, que poderá vir a funcionar como charneira de metabolismo urbano, permitindo a consolidação social (e, num cenário semi-onírico, urbana) do território exterior. É essencial que a cidade transborde para fora deste colete de forças que são as suas muralhas - grandes demais, como dizia, metaforicamente, Vergílio Ferreira, que por cá esteve 14 anos. E isto não implica malefícios de espécie alguma para o seu interior. Antes pelo contrário, porque distribui a carga de esforço do metabolismo urbano. E a melhor forma de honrar e destacar a beleza do centro histórico é não o copiar, mas antes dar-lhe o seu carácter de único e genuíno. Bom seria que outros pontos, tais como o Rossio (para o qual há tanto tempo se fala de uma intervenção com intenções da mesma estirpe) fossem objecto de remodelações profundas, que estendessem esta saudável promiscuidade entre o dentro e o fora das muralhas, anulando esta postura de sagração do antigo, herdeira de políticas obsoletas e nefastamente prolongadas até aos dias que correm, contrariando o espírito inovador que, outrora, fermentou os fazedores das nossas actuais antiguidades.
A minha segunda observação relativamente ao projecto da zona das muralhas prende-se com o negativo da fotografia atrás captada. A criação de uma zona destinada a bares e a restaurantes encerra, em si, uma faceta estagnante e, de certa forma, um mecanismo paradoxal. Desde logo sobressai a contradição em dois pontos: Primeiro, se se quer criar uma zona de transição “entre dois territórios”, de forma a tornar mais fluída a vivência cosmopolita da urbe, como é que se cria uma zona que concentra toda a actividade de um sector? Não será isto a antítese da fluidez? Não será apenas a transladação do problema? Ou, pelo menos, a ausência de uma nova solução? Em segundo lugar, se se quer (como espero que seja, pelo que digo ao longo destas linhas) retirar aquele carácter sagrado e intocável ao centro histórico, através da sua maior permeabilidade e relação com o exterior, porque é que se está a dar-lhe um tratamento especial, alegando a sua impossibilidade de conter espaços de animação nocturna? Não será isto estar a dar a última pincelada de óleo, antes de enfaixar a múmia?
A concentração de actividades num só espaço gera uma série de problemas e carências nesse espaço, e uma série de lacunas nos espaços sobrantes. A dinâmica urbana de uma cosmópole resulta, precisamente, da heterogenização do seu tecido. É certo que há zonas com ocupações de tendência privilegiada e com utilizações preferenciais. Mas isto não pode funcionar em absoluto e levado ao exagero da exclusividade. Todos nós sabemos que a questão da animação nocturna é um pau de dois bicos, de resolução delicada. E todos nós (exceptuando alguns boémios radicais) sentimos que todos têm direito ao seu descanso imperturbável e a condições de conforto no seu lar. Mas isso não pode servir de motivo à tomada de medidas extremas, que se afiguram mais como imposições ciclópicas do que como criação de melhorias de condições. Os bares e estabelecimentos nocturnos causam ruído e problemas diversos. Mas há casos em que, mau grado a sua localização delicada, os bares tomaram medidas que atenuam, ou até dissipam estes efeitos. São poucos, é certo, mas, se calhar, são aqueles geridos com mais cuidado e responsabilidade, e que tomaram as devidas medidas para estarem em conformidade com a lei e com o eticamente correcto e justo. Porque é possível, na esmagadora maioria dos casos, intervir nos edifícios e levar a cabo práticas correntes de forma a não criar problemas de perturbação do ambiente nocturno. Há é poucos que o querem fazer. Que tal, então, ser mais rígido no licenciamento dos estabelecimentos (e é quando eles estão licenciados...) em vez de os juntar todos num enorme saco de lixo e os despejar ali ao pé da rotunda da Lagoa? A fruição da cidade, a sua dinâmica e fluidez, para mais tendo em conta as suas dimensões, precisam de um jogo mais articulado de implantação de acontecimentos sociais, e não de uma espécie de guetos temáticos. Até para que estas docas secas não se tornem uma verdadeira seca...
Ainda assim, retomo o início desta crónica, para reafirmar a satisfação pelo anúncio da intervenção urbanística na zona em questão. Até porque, a bem de todos, a finalidade da intervenção será a todos os níveis de que falei atrás, e não apenas com vista à implantação de bares e restaurantes.
...Pois não...?!
Sobre o programa desta intervenção, afiguram-se-me dois comentários:
O primeiro é de grande satisfação. Não tanto pela que julgo ser a motivação principal da autarquia (já lá iremos), mas antes pelo resultado urbanístico que daí resultará. Quando se analisa a zona em questão, chega-se à rápida conclusão de que se trata de toda uma área que, apesar da localização privilegiada, pouco mais apresenta do que a desolação e o ruído visual e urbanístico de um baldio, completamente descaracterizado e desinteressante. Não só assim é, como se pode, inclusivamente, falar de um “espaço-tampão” na fluência entre as zonas intra e extra-muros.
Há, em Évora, uma clara e, no meu entender, nefasta dissociação entre o preservado e carismático território do chamado centro histórico, e a zona amorfa que o circunda e se estende por todo o tecido urbano exterior às muralhas. Existe aqui uma clara força centríputa, natural nas cidades que possuem um centro histórico bem definido e com características fortes, sobretudo naquelas que ainda não sofreram grandes expansões acompanhadas por planos de ordenamento audazes e abrangentes que tenham dado origem a novos pontos de tensão urbanística e, eventualmente, até a novos centros. Essa força centríputa acentua a convergência da realidade urbana para o seu centro, o que, per si, não é uma contrariedade, mas, no caso eborense, o problema é que deixa a sua envolvente com um certo carácter de espaço restante, germinado por bairros-dormitório e loteamentos incoerentes, quase sempre com a sórdida preocupação da expressão mimética do “típico-tradicional-castiço eborense”. Como alguns se lembrarão do que escrevi há uns tempos atrás - sobre a questão da ausência de intervenção arquitectónica e urbanística de carácter contemporâneo em Évora e da consequente pseudo-mumificação do edificado - a produção de “casinhas” (porque outro termo não poderá ser aplicado) a imitarem, mal e grosseiramente, os interessantissimos edifícios do centro histórico, não só cria e reflete a ausência de desenvolvimento cultural e técnico, como cai na inevitável armadilha de criar algo que, como diz o povo, “nem é carne nem é peixe”.
É por isto que o anúncio da intervenção junto das muralhas se reveste da maior importância e é motivo de exultação para todos os que tratam de assuntos de edificado. Para mais, se se tiver em conta o curriculum e a reconhecida sagacidade do arquitecto anunciado para projectar a intervenção, só se pode esperar um passo importantíssimo (e que urgia) na definição e na tomada de consistência do tecido da cidade.
O primeiro motivo de interesse prende-se com a criação dos equipamentos e serviços a implementar, que poderão vir a dotar esta cidade (que está culturalmente moribunda) de uma nova energia, essencial ao carácter cosmopolita que qualquer capital de distrito da europa do século XXI tem a obrigação de oferecer. A integração do Forte de S. Bartolomeu numa nova malha vem atenuar o desencanto que a degradação daquele monumento transmite. A criação de uma área ampla, com multiplicidade de espaços e, sabiamente, com preferência para o uso pedonal e de lazer, constitui outro dos pontos de grande interesse e pertinência deste projecto. Espera-se a criação de zonas verdes, que tanta falta fazem e tanto prazer e funcionalidade proporcionam, sendo um dos indicadores de verdadeira modernidade na concepção de tecidos urbanos (veja-se o exemplo de cidades como Londres, Copenhaga ou Paris). Mas, sem dúvida alguma, a maior mais-valia desta intervenção é a criação de uma zona de transição entre a cidade extra-muros e o centro histórico, que poderá vir a funcionar como charneira de metabolismo urbano, permitindo a consolidação social (e, num cenário semi-onírico, urbana) do território exterior. É essencial que a cidade transborde para fora deste colete de forças que são as suas muralhas - grandes demais, como dizia, metaforicamente, Vergílio Ferreira, que por cá esteve 14 anos. E isto não implica malefícios de espécie alguma para o seu interior. Antes pelo contrário, porque distribui a carga de esforço do metabolismo urbano. E a melhor forma de honrar e destacar a beleza do centro histórico é não o copiar, mas antes dar-lhe o seu carácter de único e genuíno. Bom seria que outros pontos, tais como o Rossio (para o qual há tanto tempo se fala de uma intervenção com intenções da mesma estirpe) fossem objecto de remodelações profundas, que estendessem esta saudável promiscuidade entre o dentro e o fora das muralhas, anulando esta postura de sagração do antigo, herdeira de políticas obsoletas e nefastamente prolongadas até aos dias que correm, contrariando o espírito inovador que, outrora, fermentou os fazedores das nossas actuais antiguidades.
A minha segunda observação relativamente ao projecto da zona das muralhas prende-se com o negativo da fotografia atrás captada. A criação de uma zona destinada a bares e a restaurantes encerra, em si, uma faceta estagnante e, de certa forma, um mecanismo paradoxal. Desde logo sobressai a contradição em dois pontos: Primeiro, se se quer criar uma zona de transição “entre dois territórios”, de forma a tornar mais fluída a vivência cosmopolita da urbe, como é que se cria uma zona que concentra toda a actividade de um sector? Não será isto a antítese da fluidez? Não será apenas a transladação do problema? Ou, pelo menos, a ausência de uma nova solução? Em segundo lugar, se se quer (como espero que seja, pelo que digo ao longo destas linhas) retirar aquele carácter sagrado e intocável ao centro histórico, através da sua maior permeabilidade e relação com o exterior, porque é que se está a dar-lhe um tratamento especial, alegando a sua impossibilidade de conter espaços de animação nocturna? Não será isto estar a dar a última pincelada de óleo, antes de enfaixar a múmia?
A concentração de actividades num só espaço gera uma série de problemas e carências nesse espaço, e uma série de lacunas nos espaços sobrantes. A dinâmica urbana de uma cosmópole resulta, precisamente, da heterogenização do seu tecido. É certo que há zonas com ocupações de tendência privilegiada e com utilizações preferenciais. Mas isto não pode funcionar em absoluto e levado ao exagero da exclusividade. Todos nós sabemos que a questão da animação nocturna é um pau de dois bicos, de resolução delicada. E todos nós (exceptuando alguns boémios radicais) sentimos que todos têm direito ao seu descanso imperturbável e a condições de conforto no seu lar. Mas isso não pode servir de motivo à tomada de medidas extremas, que se afiguram mais como imposições ciclópicas do que como criação de melhorias de condições. Os bares e estabelecimentos nocturnos causam ruído e problemas diversos. Mas há casos em que, mau grado a sua localização delicada, os bares tomaram medidas que atenuam, ou até dissipam estes efeitos. São poucos, é certo, mas, se calhar, são aqueles geridos com mais cuidado e responsabilidade, e que tomaram as devidas medidas para estarem em conformidade com a lei e com o eticamente correcto e justo. Porque é possível, na esmagadora maioria dos casos, intervir nos edifícios e levar a cabo práticas correntes de forma a não criar problemas de perturbação do ambiente nocturno. Há é poucos que o querem fazer. Que tal, então, ser mais rígido no licenciamento dos estabelecimentos (e é quando eles estão licenciados...) em vez de os juntar todos num enorme saco de lixo e os despejar ali ao pé da rotunda da Lagoa? A fruição da cidade, a sua dinâmica e fluidez, para mais tendo em conta as suas dimensões, precisam de um jogo mais articulado de implantação de acontecimentos sociais, e não de uma espécie de guetos temáticos. Até para que estas docas secas não se tornem uma verdadeira seca...
Ainda assim, retomo o início desta crónica, para reafirmar a satisfação pelo anúncio da intervenção urbanística na zona em questão. Até porque, a bem de todos, a finalidade da intervenção será a todos os níveis de que falei atrás, e não apenas com vista à implantação de bares e restaurantes.
...Pois não...?!
02 Março 2005
13 _ ver ao longe
No seguimento das crónicas anteriores, torno a abordar a temática da arquitectura do ponto de vista energético, com a sua vertente mais tecnológica – a arquitectura bioclimática – e aquela de cariz mais filosófico e abrangente – a arquitectura ecológica.
Nos dias que correm, a arquitectura bioclimática tem uma importância e uma pertinência flagrantes. Conforme tenho afirmado nestas linhas, por entre muitos outros temas que reportam ao grande universo da arquitectura, esta vertente mais sustentável tem inúmeras características, que não será demais relembrar: logo à partida, é uma atitude com maior abrangência e mais inteligente, já que trabalha com os elementos naturais e com as suas condicionantes e características, no sentido de melhor aproveitar as suas vantagens e potencialidades e de minimizar os seus efeitos negativos ou de melhor nos fazer acomodar a eles, aumentando a qualidade de conforto e reduzindo o esforço e os consumos para o fazer. Para além disto, é uma forma de percorrer o caminho da concepção arquitectónica que, ao contrário do que os menos avisados poderão supor, se reveste de um enorme cariz tecnológico e científico. Não obstante esta sofisticação, outra das suas características é o facto de tornar um edifício mais barato, sobretudo na sua utilização, ainda que o possa também ser (dependendo das soluções construtivas e dos materiais adoptados) na sua construção. E ainda, no que será a qualidade mais interessante e universalista desta arquitectura, é uma postura que propõe e cultiva a mentalidade e a intervenção de carácter sustentável.
A sustentabilidade é a forma de satisfazermos as nossas necessidades sem comprometermos a possibilidade de satisfação das necessidades das gerações vindouras. Ou seja, viver bem e deixar que todos os outros o possam vir a fazer. Que outra conduta será menos egoísta, sem recorrer à abnegação? De facto, a noção de sustentabilidade não preconiza nenhuma espécie de contenção nos desejos ou nas ambições presentes, apenas trabalha com soluções e princípios que não são autistas no seu processo, mas que se inclinam para a visão abrangente do espaço total. No fundo, lição máxima de respeito pelo próximo – neste caso a palavra próximo também mantém o seu significado cronológico, já que nos referimos aos recursos para as gerações vindouras.
Oscar Wilde, mente de eleição e personalidade de observação social contundente e de humor refinado, referia-se à consciência como “o medo de que alguém nos possa estar a observar”. Ora, no caso da sustentabilidade, e segundo o aforismo daquele autor, os causadores dos nossos possíveis problemas de consciência não existem, já que seriam a geração futura - nem na nossa tradição judaico-cristã, se pressupõe que os nossos descendentes já existam e que possam estar a presenciar as nossas vidas, daí que o caso se dilua na sua própria inexistência.
Porém, numa certa fatia da sociedade civil, cresce uma tendência para a sensibilidade a estas questões. Não se trata de um fenómeno de ordem subversiva, mas antes de uma espécie de inevitabilidade intelectual, tendo em conta o evoluir do mundo e dos seus problemas, nomeadamente os de nível ambiental. É comum o finalizar do processo de varrer a casa com um simples arremesso do lixo pela porta fora. Ninguém pensa sequer em fazer de outra forma. Mas quando o lixo nos atrapalha a entrada, por se acumular em demasia, apercebemo-nos de que teremos de passar a dar-lhe outro destino ou outra solução. E as nossas portas estão cheias de lixo... Não será necessário citar qualquer exemplo para que toda a gente saiba que o mundo se debate com problemas graves de poluição, de excesso de consumo energético, de sobre-produção e de excesso de resíduos. O cidadão comum actual (sobretudo dos meios cosmopolitas e do mundo ocidental) está ciente disso. Para se ver o tipo de preocupações e de expectativas em relação ao futuro da sociedade, nada melhor do que analisar a ficção científica produzida na sua própria época. Essa é a forma – ainda que, por vezes, mirabolante – como uma geração olha para o seu futuro, o pressente e imagina. Para dar alguns exemplos concretos, pense-se nos primeiros filmes de ficção científica (que surgiram logo com a invenção do cinema), em que o futuro e a tecnologia eram vistos como algo de positivo, que permitiria um quotidiano hiper-funcional e de contornos perfeccionistas, sendo a máquina um simpático auxiliar da vida no dia-a-dia. Depois, pense-se nos filmes de f.c., de produção americana, do período da guerra-fria, em que tudo gira à volta de invasões da Terra por alienígenas e de ameaças abjectas que pairavam sobre as pacatas populações. Pudera, o medo de uma invasão soviética era uma paranóia omnipresente. Já nos dias que correm, se virmos a maior parte da literatura e cinema de f.c. produzidos, e se excluirmos as fortíssimas tendências sócio-políticas que estão subjacentes às suas mensagens, verificamos que os cenários projectados desse futuro abstracto passam por fome, seca, guerras por posse de água, desastres à escala mundial, e outras visões de contextos pós-apocalípticos, em que esse apocalipse já não é tão vincadamente de teor bélico ou nuclear, mas antes ecológico. Em grande parte dos casos, as narrativas já decorrem, inclusivamente, em circunstâncias posteriores ao abandono do planeta Terra, sendo este considerado esgotado.
Este “à parte” cinéfilo serviu apenas para fazer compreender a visão dramática que existe, actualmente, sobre o futuro e para que, com isso, se perceba porque é que as preocupações de carácter ecológico (entre outras que visam aligeirar esse dramatismo) se espalham pelas sociedades, começando, como sempre, pelos sectores com mais e melhor acesso à informação e de maior nível cultural. Daí que, conforme disse atrás, não se possa considerar esta história de arquitectura com preocupações ecológicas e bioclimáticas como sendo subversivas, mas antes o resultado directo do panorama que tracei. Nem, tão pouco, os indivíduos que se dedicam ou interessam por estes temas são “anormais” ou excêntricos. E daí que os movimentos com estas linhas de preocupação estejam a crescer e a multiplicar-se. Exemplo de tal facto, foi o encontro de três dias que ocorreu em Lisboa, no passado mês de Dezembro, em que uma série de palestras (uma das quais tive a honra de ser convidado a apresentar) permitiu que os milhares de pessoas que passaram pela feira biológica onde este evento se inseriu pudessem tomar contacto com estes temas, e onde se pôde constatar a saudável e crescente quantidade de profissionais, instituições e organismos que trabalham neste sector. A nível da classe dos arquitectos, é salutar verificar-se que existe um número já considerável de técnicos que, mesmo que não pratiquem uma arquitectura bioclimática ou ecológica no seu pleno, debruçam-se sobre estes problemas e têm-nos em consideração na sua metodologia conceptual ou no seu estudo e investigação. A título de exemplo refira-se a existência do Centro da Terra (associação que congrega profissionais ligados à construção em terra em Portugal), do núcleo do ambiente da Ordem dos Arquitectos, da Escola Superior Gallaecia (onde são administrados cursos de arquitectura com uma forte vertente ecológica e sustentável), e de inúmeros gabinetes e profissionais liberais que lidam com estas assuntos.
Note-se que a arquitectura bioclimática ou a arquitectura ecológica não constituem um distanciamento das práticas correntes da arquitectura, nem os profissionais desta área estão menos aptos ou propícios à prática da arquitectura “convencional”. Apenas são detentores de um acréscimo de conhecimentos científicos e técnicos, numa especialidade que tem as mesmas finalidades supremas da arquitectura “convencional”: a concepção de edifícios que dêem resposta às necessidades das pessoas. Simplesmente se acrescenta algumas novas preocupações ao acto conceptual, numa perspectiva de optimização dos resultados, de economia de desempenhos e de minimização de impactos. Porque, tal como referi nas crónicas anteriores, os arquitectos têm muitos outros pontos de intervenção: artística, social, funcional, estética, etc.
Assim sendo, não será legítimo interpretar a arquitectura bioclimática e ecológica como sendo um sub-grupo da arquitectura, mas o contrário, porventura, não será, de todo, descabido, já que a arquitectura “convencional” acaba por lidar com uma parte incompleta do problema de habitar o espaço.
Nos dias que correm, a arquitectura bioclimática tem uma importância e uma pertinência flagrantes. Conforme tenho afirmado nestas linhas, por entre muitos outros temas que reportam ao grande universo da arquitectura, esta vertente mais sustentável tem inúmeras características, que não será demais relembrar: logo à partida, é uma atitude com maior abrangência e mais inteligente, já que trabalha com os elementos naturais e com as suas condicionantes e características, no sentido de melhor aproveitar as suas vantagens e potencialidades e de minimizar os seus efeitos negativos ou de melhor nos fazer acomodar a eles, aumentando a qualidade de conforto e reduzindo o esforço e os consumos para o fazer. Para além disto, é uma forma de percorrer o caminho da concepção arquitectónica que, ao contrário do que os menos avisados poderão supor, se reveste de um enorme cariz tecnológico e científico. Não obstante esta sofisticação, outra das suas características é o facto de tornar um edifício mais barato, sobretudo na sua utilização, ainda que o possa também ser (dependendo das soluções construtivas e dos materiais adoptados) na sua construção. E ainda, no que será a qualidade mais interessante e universalista desta arquitectura, é uma postura que propõe e cultiva a mentalidade e a intervenção de carácter sustentável.
A sustentabilidade é a forma de satisfazermos as nossas necessidades sem comprometermos a possibilidade de satisfação das necessidades das gerações vindouras. Ou seja, viver bem e deixar que todos os outros o possam vir a fazer. Que outra conduta será menos egoísta, sem recorrer à abnegação? De facto, a noção de sustentabilidade não preconiza nenhuma espécie de contenção nos desejos ou nas ambições presentes, apenas trabalha com soluções e princípios que não são autistas no seu processo, mas que se inclinam para a visão abrangente do espaço total. No fundo, lição máxima de respeito pelo próximo – neste caso a palavra próximo também mantém o seu significado cronológico, já que nos referimos aos recursos para as gerações vindouras.
Oscar Wilde, mente de eleição e personalidade de observação social contundente e de humor refinado, referia-se à consciência como “o medo de que alguém nos possa estar a observar”. Ora, no caso da sustentabilidade, e segundo o aforismo daquele autor, os causadores dos nossos possíveis problemas de consciência não existem, já que seriam a geração futura - nem na nossa tradição judaico-cristã, se pressupõe que os nossos descendentes já existam e que possam estar a presenciar as nossas vidas, daí que o caso se dilua na sua própria inexistência.
Porém, numa certa fatia da sociedade civil, cresce uma tendência para a sensibilidade a estas questões. Não se trata de um fenómeno de ordem subversiva, mas antes de uma espécie de inevitabilidade intelectual, tendo em conta o evoluir do mundo e dos seus problemas, nomeadamente os de nível ambiental. É comum o finalizar do processo de varrer a casa com um simples arremesso do lixo pela porta fora. Ninguém pensa sequer em fazer de outra forma. Mas quando o lixo nos atrapalha a entrada, por se acumular em demasia, apercebemo-nos de que teremos de passar a dar-lhe outro destino ou outra solução. E as nossas portas estão cheias de lixo... Não será necessário citar qualquer exemplo para que toda a gente saiba que o mundo se debate com problemas graves de poluição, de excesso de consumo energético, de sobre-produção e de excesso de resíduos. O cidadão comum actual (sobretudo dos meios cosmopolitas e do mundo ocidental) está ciente disso. Para se ver o tipo de preocupações e de expectativas em relação ao futuro da sociedade, nada melhor do que analisar a ficção científica produzida na sua própria época. Essa é a forma – ainda que, por vezes, mirabolante – como uma geração olha para o seu futuro, o pressente e imagina. Para dar alguns exemplos concretos, pense-se nos primeiros filmes de ficção científica (que surgiram logo com a invenção do cinema), em que o futuro e a tecnologia eram vistos como algo de positivo, que permitiria um quotidiano hiper-funcional e de contornos perfeccionistas, sendo a máquina um simpático auxiliar da vida no dia-a-dia. Depois, pense-se nos filmes de f.c., de produção americana, do período da guerra-fria, em que tudo gira à volta de invasões da Terra por alienígenas e de ameaças abjectas que pairavam sobre as pacatas populações. Pudera, o medo de uma invasão soviética era uma paranóia omnipresente. Já nos dias que correm, se virmos a maior parte da literatura e cinema de f.c. produzidos, e se excluirmos as fortíssimas tendências sócio-políticas que estão subjacentes às suas mensagens, verificamos que os cenários projectados desse futuro abstracto passam por fome, seca, guerras por posse de água, desastres à escala mundial, e outras visões de contextos pós-apocalípticos, em que esse apocalipse já não é tão vincadamente de teor bélico ou nuclear, mas antes ecológico. Em grande parte dos casos, as narrativas já decorrem, inclusivamente, em circunstâncias posteriores ao abandono do planeta Terra, sendo este considerado esgotado.
Este “à parte” cinéfilo serviu apenas para fazer compreender a visão dramática que existe, actualmente, sobre o futuro e para que, com isso, se perceba porque é que as preocupações de carácter ecológico (entre outras que visam aligeirar esse dramatismo) se espalham pelas sociedades, começando, como sempre, pelos sectores com mais e melhor acesso à informação e de maior nível cultural. Daí que, conforme disse atrás, não se possa considerar esta história de arquitectura com preocupações ecológicas e bioclimáticas como sendo subversivas, mas antes o resultado directo do panorama que tracei. Nem, tão pouco, os indivíduos que se dedicam ou interessam por estes temas são “anormais” ou excêntricos. E daí que os movimentos com estas linhas de preocupação estejam a crescer e a multiplicar-se. Exemplo de tal facto, foi o encontro de três dias que ocorreu em Lisboa, no passado mês de Dezembro, em que uma série de palestras (uma das quais tive a honra de ser convidado a apresentar) permitiu que os milhares de pessoas que passaram pela feira biológica onde este evento se inseriu pudessem tomar contacto com estes temas, e onde se pôde constatar a saudável e crescente quantidade de profissionais, instituições e organismos que trabalham neste sector. A nível da classe dos arquitectos, é salutar verificar-se que existe um número já considerável de técnicos que, mesmo que não pratiquem uma arquitectura bioclimática ou ecológica no seu pleno, debruçam-se sobre estes problemas e têm-nos em consideração na sua metodologia conceptual ou no seu estudo e investigação. A título de exemplo refira-se a existência do Centro da Terra (associação que congrega profissionais ligados à construção em terra em Portugal), do núcleo do ambiente da Ordem dos Arquitectos, da Escola Superior Gallaecia (onde são administrados cursos de arquitectura com uma forte vertente ecológica e sustentável), e de inúmeros gabinetes e profissionais liberais que lidam com estas assuntos.
Note-se que a arquitectura bioclimática ou a arquitectura ecológica não constituem um distanciamento das práticas correntes da arquitectura, nem os profissionais desta área estão menos aptos ou propícios à prática da arquitectura “convencional”. Apenas são detentores de um acréscimo de conhecimentos científicos e técnicos, numa especialidade que tem as mesmas finalidades supremas da arquitectura “convencional”: a concepção de edifícios que dêem resposta às necessidades das pessoas. Simplesmente se acrescenta algumas novas preocupações ao acto conceptual, numa perspectiva de optimização dos resultados, de economia de desempenhos e de minimização de impactos. Porque, tal como referi nas crónicas anteriores, os arquitectos têm muitos outros pontos de intervenção: artística, social, funcional, estética, etc.
Assim sendo, não será legítimo interpretar a arquitectura bioclimática e ecológica como sendo um sub-grupo da arquitectura, mas o contrário, porventura, não será, de todo, descabido, já que a arquitectura “convencional” acaba por lidar com uma parte incompleta do problema de habitar o espaço.
23 Fevereiro 2005
12 _ uma cerveja no inferno
O Verão mais quente de sempre! Desde que há registos climatéricos, entenda-se. É isto que se espera para a estação quente deste ano. Ora, sabendo como a fornalha alentejana se esmera, normalmente, em jornadas de impiedade estival, o que será destas paragens por alturas de ir a banhos no ano que corre? Quem o possa, fugirá para o mais brando fervor da costa. Mas quem por cá tiver de ficar, nesta braseira implacável, com que golpes de magia se esquivará a este inferno?
O calor, entenda-se, será um mal menor, dado o cenário que se desenha no horizonte. Porque, se aliarmos às elevadas temperaturas esperadas, o estado de secura dos solos e da vegetação e a escassez de água para combater os “tradicionais” incêndios devoradores (que, neste ano, a serem menos e menores, só se for por restar pouco para arder...), então só mesmo se ele regressar numa manhã de bruma, para nos salvar daquilo de que não nos desembaraçámos. Tão longa a página, tão curta a escrita – assim, o poeta diz o Alentejo. Mas que página negra de carvão se prevê para todo o nosso país, no Verão que se avizinha...
Não, não escapei aos temas da arquitectura para vos falar de ambiente ou de gestão de recursos naturais. Apenas enquadro a paisagem e os consumíveis da civilização no contexto alargado da forma de habitar o espaço. A água, tal como a luz, o calor, o vento, a paisagem, e tudo o que “já lá estava” faz parte do suporte da forma do Homem habitar e ocupar o território, e, portanto, da arquitectura e do planeamento. Como se imagina, o grande problema do momento é o sustento primeiro da vida: a água. É da sua previsível (e já concreta) escassez que falo.
Seria muito pouco lúcido e argumentável sugerir que a máquina civilizacional poderia prever ou controlar as contrariedades ou os excessos refinados do clima. Já seria menos absurdo questionar a implicação do funcionamento dessa máquina nas grandes alterações climatéricas que ocorrem no globo (aquecimento global, efeito de estufa, chuvas ácidas, etc.). Mas não é por aí que o meu discurso segue, por ser essa uma via mais polémica e infrutífera a curto prazo (ao contrário do que a situação exige). Vou restringir-me aos possíveis métodos de combate, não por adivinhação, mas antes por prevenção de possíveis catástrofes, tal como a que se afigura eminente.
Há, no fundo, três tipos de acções que podem ser importantes e eficientes neste contexto: o primeiro, a nível da infra-estruturação de prevenção, e que se pode definir como sendo de grande escala; o segundo a nível dos procedimentos de prevenção, numa perspectiva abrangente e de carácter institucionalizado, numa escala intermédia; a terceira, a nível da reacção e da prática de carácter doméstico, de pequena escala.
No primeiro grupo, pode-se incluir uma série de intervenções no campo da concepção e construção de infra-estruturas que permitam uma gestão eficaz dos recursos hídricos. Falo, naturalmente, da criação de barragens, diques e açudes, que permitam, pelos seus correctos dimensionamento e localização, um controle das perdas de água para o mar, dos níveis freáticos (pelo abrandamento das águas do caudal, o que implica a menor erosão causada e a consequente manutenção de uma cota mais elevada do leito dos rios e, com isso, dos lençóis freáticos das bacias hidrográficas a que pertencem), das descargas de fornecimento, da evaporação (por serem mais pequenas as albufeiras, criando manchas de exposição ao sol com menor área), etc. Mas também da criação de sistemas de possível compensação de caudais, à semelhança do engenhoso sistema de transvaze que existe em Espanha, que permite a rápida correcção das falhas de água num ponto, através do fornecimento, por um ramificado sistema de canais, a partir de um outro ponto que tenha maior abundância dela. Neste grupo, o nosso costeiro país virou as costas à água, e quase tudo está por fazer.
No segundo grupo, é de referir um conjunto de práticas, a montante e a jusante, com um enquadramento mais urbanístico, e de medidas pedagógicas (que as próprias práticas também constituirão). Aqui falo da introdução de sistemas locais, de maior ou menor escala, de reciclagem e reaproveitamentos de águas residuais e pluviais. É perfeitamente viável implementar sistemas de tratamento de águas residuais domésticas (designadas por águas cinzentas) que permitam a sua “purificação” ao ponto da sua reutilização em diversas aplicações, nomeadamente, e num cenário menos sofisticado, na agricultura e lavagens (eu próprio já concebi, realizei e utilizei um destes sistemas, com resultados bastante acima do satisfatório). Num cenário mais ambicioso, poder-se-ia ir ao ponto de tratar de forma semelhante as águas negras, mas aqui joga-se com o factor cultural e psicológico das populações, com previsíveis resistências. (Para clarificar: as águas cinzentas são as águas de esgoto doméstico, com excepção das expelidas pela sanita, que são as águas negras). Há casos de sistemas deste tipo implementados a nível urbano, por vezes em escalas consideráveis, que abrangem um grande número de fogos, com uma eficiência notável e com redução de custos e encargos. Claro que, como sempre, estas soluções que, à partida parecem menos tecnológicas, por utilizarem métodos naturais e biológicos de tratamento, são mais frequentes, precisamente, em países mais desenvolvidos, tais como os Estados Unidos, a Inglaterra, o Japão, a Austrália, etc. Nesta família de acções, de escala intermédia, pode-se ainda incluir a melhor gestão de sistemas de rega e de lavagens, com redução de consumos e com utilização de águas residuais e pluviais, de forma directa ou após tratamento, tal como atrás descrito. A recolha e aproveitamento das águas pluviais é, também, um importante trunfo, quase sempre descuidado no nosso contexto. E veja-se que, apesar do meridionalismo europeu do nosso território, caem quantidades imensas de água nos nossos telhados e nos nossos campos que, pura e simplesmente, são “desperdiçadas” por seguirem directamente para os rios, sem que haja uma preocupação em recolhê-las ou em provocar e acentuar a sua infiltração nos solos.
O terceiro grupo é onde nós, os comuns cidadãos, podemos fazer a diferença. Trata-se de um conjunto de pequenas práticas quotidianas que podem tornar as nossas habitações e postos de trabalho em unidades de economia e gestão efectiva de recursos. Se, na passada crónica, me referi à questão do consumo energético nas habitações, esta questão dos consumos de água está intimamente ligada ao mesmo tipo de preocupações de gestão activa desses consumos. Para que se saiba, a título de exemplo, cerca de 50% da água consumida diariamente numa habitação corrente é utilizada pelos autoclismos. Ora, isto é um dilúvio quotidiano de água potável, sem justificação plausível. Para além da possibilidade de utilização de águas recicladas nos autoclismos (já que não faz sentido algum estar-se a deitar água potável pela sanita abaixo), pode-se reduzir a quantidade de litros do caudal de descarga. Às vezes, a solução é tão simples que parece absurda, mas, se introduzirmos, por exemplo, uma garrafa cheia de água no tanque do autoclismo, estamos a reduzir o caudal de descarga no volume dessa garrafa (0,5l ou 1l ou 1,l, conforme o tamanho do tanque e a descarga necessária). Se pouparmos 1/5 da descarga, de cada vez que carregamos no botão, isso representa uma poupança diária (e mensal, claro está) de 10% do consumo doméstico de água. Outra forma simples de reduzir o consumo, é a de controlar o fluxo das torneiras. Se pensarmos que uma pessoa gasta, em média, 38l de água a lavar os dentes (se deixar a água a correr durante os 3 minutos recomendados pelos especialistas para a duração da operação), vemos a quantidade de água que se poderá poupar ao fechar a torneira durante o processo. E imagine-se a redução de consumo se aplicarmos o mesmo princípio nos minutos do duche em que nos ensaboamos.
Estas considerações poderão parecer excessivas, ou até mesmo obsessivas para alguns. Mas, se tivermos em conta que, apesar de ainda estarmos em Fevereiro, regiões do país como Mértola ou Bragança já não tem recursos hídricos com capacidade de resposta para as necessidades dos seus habitantes, e se pensarmos nas dificuldades que por cá, de vez em quando, sentimos com a falta de água na cidade, e no cheiro a esgoto que prolifera aquando da baixa dos níveis, o meu raciocínio não parecerá tão descabido...!
Só não se percebe por que é que as medidas de fundo e de grande escala tardam em surgir, quando o problema se apresenta mais e mais grave, de ano para ano, e quando a tendência do globo é no sentido de se agravar a situação.
E já que os nossos responsáveis ainda não começaram a alertar seriamente para a necessidade de reduzir os consumos para minimizar os efeitos, que se adivinham catastróficos, da seca do Verão próximo, tomemos nós, todos nós – os principais lesados desse cenário – as escassas mas importantes medidas para essa suavização do inferno prometido.
Porque a boa mini fresquinha salva-nos da sede, mas a água dá-nos a vida.
E não nos deixeis sofrer insolação, mas livrai-nos dos incêndios. Ai mãe...
O calor, entenda-se, será um mal menor, dado o cenário que se desenha no horizonte. Porque, se aliarmos às elevadas temperaturas esperadas, o estado de secura dos solos e da vegetação e a escassez de água para combater os “tradicionais” incêndios devoradores (que, neste ano, a serem menos e menores, só se for por restar pouco para arder...), então só mesmo se ele regressar numa manhã de bruma, para nos salvar daquilo de que não nos desembaraçámos. Tão longa a página, tão curta a escrita – assim, o poeta diz o Alentejo. Mas que página negra de carvão se prevê para todo o nosso país, no Verão que se avizinha...
Não, não escapei aos temas da arquitectura para vos falar de ambiente ou de gestão de recursos naturais. Apenas enquadro a paisagem e os consumíveis da civilização no contexto alargado da forma de habitar o espaço. A água, tal como a luz, o calor, o vento, a paisagem, e tudo o que “já lá estava” faz parte do suporte da forma do Homem habitar e ocupar o território, e, portanto, da arquitectura e do planeamento. Como se imagina, o grande problema do momento é o sustento primeiro da vida: a água. É da sua previsível (e já concreta) escassez que falo.
Seria muito pouco lúcido e argumentável sugerir que a máquina civilizacional poderia prever ou controlar as contrariedades ou os excessos refinados do clima. Já seria menos absurdo questionar a implicação do funcionamento dessa máquina nas grandes alterações climatéricas que ocorrem no globo (aquecimento global, efeito de estufa, chuvas ácidas, etc.). Mas não é por aí que o meu discurso segue, por ser essa uma via mais polémica e infrutífera a curto prazo (ao contrário do que a situação exige). Vou restringir-me aos possíveis métodos de combate, não por adivinhação, mas antes por prevenção de possíveis catástrofes, tal como a que se afigura eminente.
Há, no fundo, três tipos de acções que podem ser importantes e eficientes neste contexto: o primeiro, a nível da infra-estruturação de prevenção, e que se pode definir como sendo de grande escala; o segundo a nível dos procedimentos de prevenção, numa perspectiva abrangente e de carácter institucionalizado, numa escala intermédia; a terceira, a nível da reacção e da prática de carácter doméstico, de pequena escala.
No primeiro grupo, pode-se incluir uma série de intervenções no campo da concepção e construção de infra-estruturas que permitam uma gestão eficaz dos recursos hídricos. Falo, naturalmente, da criação de barragens, diques e açudes, que permitam, pelos seus correctos dimensionamento e localização, um controle das perdas de água para o mar, dos níveis freáticos (pelo abrandamento das águas do caudal, o que implica a menor erosão causada e a consequente manutenção de uma cota mais elevada do leito dos rios e, com isso, dos lençóis freáticos das bacias hidrográficas a que pertencem), das descargas de fornecimento, da evaporação (por serem mais pequenas as albufeiras, criando manchas de exposição ao sol com menor área), etc. Mas também da criação de sistemas de possível compensação de caudais, à semelhança do engenhoso sistema de transvaze que existe em Espanha, que permite a rápida correcção das falhas de água num ponto, através do fornecimento, por um ramificado sistema de canais, a partir de um outro ponto que tenha maior abundância dela. Neste grupo, o nosso costeiro país virou as costas à água, e quase tudo está por fazer.
No segundo grupo, é de referir um conjunto de práticas, a montante e a jusante, com um enquadramento mais urbanístico, e de medidas pedagógicas (que as próprias práticas também constituirão). Aqui falo da introdução de sistemas locais, de maior ou menor escala, de reciclagem e reaproveitamentos de águas residuais e pluviais. É perfeitamente viável implementar sistemas de tratamento de águas residuais domésticas (designadas por águas cinzentas) que permitam a sua “purificação” ao ponto da sua reutilização em diversas aplicações, nomeadamente, e num cenário menos sofisticado, na agricultura e lavagens (eu próprio já concebi, realizei e utilizei um destes sistemas, com resultados bastante acima do satisfatório). Num cenário mais ambicioso, poder-se-ia ir ao ponto de tratar de forma semelhante as águas negras, mas aqui joga-se com o factor cultural e psicológico das populações, com previsíveis resistências. (Para clarificar: as águas cinzentas são as águas de esgoto doméstico, com excepção das expelidas pela sanita, que são as águas negras). Há casos de sistemas deste tipo implementados a nível urbano, por vezes em escalas consideráveis, que abrangem um grande número de fogos, com uma eficiência notável e com redução de custos e encargos. Claro que, como sempre, estas soluções que, à partida parecem menos tecnológicas, por utilizarem métodos naturais e biológicos de tratamento, são mais frequentes, precisamente, em países mais desenvolvidos, tais como os Estados Unidos, a Inglaterra, o Japão, a Austrália, etc. Nesta família de acções, de escala intermédia, pode-se ainda incluir a melhor gestão de sistemas de rega e de lavagens, com redução de consumos e com utilização de águas residuais e pluviais, de forma directa ou após tratamento, tal como atrás descrito. A recolha e aproveitamento das águas pluviais é, também, um importante trunfo, quase sempre descuidado no nosso contexto. E veja-se que, apesar do meridionalismo europeu do nosso território, caem quantidades imensas de água nos nossos telhados e nos nossos campos que, pura e simplesmente, são “desperdiçadas” por seguirem directamente para os rios, sem que haja uma preocupação em recolhê-las ou em provocar e acentuar a sua infiltração nos solos.
O terceiro grupo é onde nós, os comuns cidadãos, podemos fazer a diferença. Trata-se de um conjunto de pequenas práticas quotidianas que podem tornar as nossas habitações e postos de trabalho em unidades de economia e gestão efectiva de recursos. Se, na passada crónica, me referi à questão do consumo energético nas habitações, esta questão dos consumos de água está intimamente ligada ao mesmo tipo de preocupações de gestão activa desses consumos. Para que se saiba, a título de exemplo, cerca de 50% da água consumida diariamente numa habitação corrente é utilizada pelos autoclismos. Ora, isto é um dilúvio quotidiano de água potável, sem justificação plausível. Para além da possibilidade de utilização de águas recicladas nos autoclismos (já que não faz sentido algum estar-se a deitar água potável pela sanita abaixo), pode-se reduzir a quantidade de litros do caudal de descarga. Às vezes, a solução é tão simples que parece absurda, mas, se introduzirmos, por exemplo, uma garrafa cheia de água no tanque do autoclismo, estamos a reduzir o caudal de descarga no volume dessa garrafa (0,5l ou 1l ou 1,l, conforme o tamanho do tanque e a descarga necessária). Se pouparmos 1/5 da descarga, de cada vez que carregamos no botão, isso representa uma poupança diária (e mensal, claro está) de 10% do consumo doméstico de água. Outra forma simples de reduzir o consumo, é a de controlar o fluxo das torneiras. Se pensarmos que uma pessoa gasta, em média, 38l de água a lavar os dentes (se deixar a água a correr durante os 3 minutos recomendados pelos especialistas para a duração da operação), vemos a quantidade de água que se poderá poupar ao fechar a torneira durante o processo. E imagine-se a redução de consumo se aplicarmos o mesmo princípio nos minutos do duche em que nos ensaboamos.
Estas considerações poderão parecer excessivas, ou até mesmo obsessivas para alguns. Mas, se tivermos em conta que, apesar de ainda estarmos em Fevereiro, regiões do país como Mértola ou Bragança já não tem recursos hídricos com capacidade de resposta para as necessidades dos seus habitantes, e se pensarmos nas dificuldades que por cá, de vez em quando, sentimos com a falta de água na cidade, e no cheiro a esgoto que prolifera aquando da baixa dos níveis, o meu raciocínio não parecerá tão descabido...!
Só não se percebe por que é que as medidas de fundo e de grande escala tardam em surgir, quando o problema se apresenta mais e mais grave, de ano para ano, e quando a tendência do globo é no sentido de se agravar a situação.
E já que os nossos responsáveis ainda não começaram a alertar seriamente para a necessidade de reduzir os consumos para minimizar os efeitos, que se adivinham catastróficos, da seca do Verão próximo, tomemos nós, todos nós – os principais lesados desse cenário – as escassas mas importantes medidas para essa suavização do inferno prometido.
Porque a boa mini fresquinha salva-nos da sede, mas a água dá-nos a vida.
E não nos deixeis sofrer insolação, mas livrai-nos dos incêndios. Ai mãe...
09 Fevereiro 2005
11 _ o espião que veio do frio
No final do passado mês de Janeiro, mesmo a tempo de retomar esta série de crónicas, regressei da bela cidade de Tallin, na Estónia, para me constipar, no dia seguinte, na minha alegre casinha, ali à Praça do Giraldo.
Poucos se interessarão pelos percalços virais da minha saúde (a tal saudinha que por cá desejamos uns aos outros, em jeito de despedida), ou tão pouco pelas minhas deambulações pelo globo. Mas o propósito do meu relato não é uma referência à tão temida vaga de frio – que todos os anos nos espanta, apesar de “chegar” na época em que só se deveria esperar, precisamente, o frio – nem sequer para falar da enorme beleza gótico-renascentista da capital mais antiga da Europa, nossa recente parceira nestas coisas das uniões d’europa. Apenas o faço para ilustrar o que qualquer viajante menos convencional, que tenha andado por terras de fraco sol em períodos menos comuns ao turismo, como é o caso de Janeiro, já saberá por recolha empírica: Portugal é o país da Europa (leia-se, ainda assim, “um dos”) onde se passa mais frio!
Já todos ouvimos algum dos muitos estrangeiros nórdicos que por cá residem, dizer que no Inverno se pira para a terra dele, porque cá se passa um frio terrível. É certo que os potentes mecanismos de aquecimento centralizado de que dispõem os edifícios nesses países, e que, por cá, são uma compreensível (e desejável) raridade, são uma boa razão para tal suceder. Mas não será esta a principal razão de tal tragédia, que leva os sedentários humanos a migrarem como as aves, conforme as estações. A causa principal estará antes na qualidade deplorável da construção realizada por estas bandas.
Um edifício não deveria ser permeável às intempéries a ponto de tornar desconfortável a vida no seu interior. Isto passa, evidentemente, pelo grau de eficiência do sistema de isolamento térmico concebido. E olhem que nem sempre é culpa do projectista! Tentem lá dizer aos empreiteiros que não bastam as tais plaquinhas de 3 cm de esferovite na cobertura, ou que o projecto prevê isolamento no pavimento e correcção das pontes térmicas com forras específicas da estrutura e da laje porque só assim é que se obtém níveis satisfatórios de conforto térmico. Ouvirão logo algo do género “Isso não faz cá falta nenhuma! Eu já construo casas há mais de vinte anos e nunca usei cá disso!”. Obrigado! Por isso é que os outros continuam a ir para a terra deles no Inverno, e eu, um dia depois de vir, são que nem um pêro, de onde fazia -5º à hora de almoço, já me assoava cá no burgo.
Mas não se trata só de isolar para não perder. Também é preciso aproveitar os ganhos. Somos privilegiados, no contexto europeu, na quantidade, intensidade e duração de incidência da luz solar. O problema é que pouco ou nada se faz para aproveitar essa arma. Não falo dos sofisticados painéis foto-voltaicos, cujo desempenho, rendibilidade, viabilidade económica e manutenção são, ainda, a meu ver, de satisfação insípida. Falo da chamada utilização solar passiva. Ou seja, trocado por miúdos, a captação directa e natural da luz solar, e o armazenamento do calor que ela origina, na própria massa do edifício ou de elementos nele introduzidos, de forma a que resulte num aquecedor eficaz, natural, gratuito e renovável. Há inúmeras formas de o fazer - através das conhecidas estufas, associadas a elementos de recolha do calor nelas armazenado, através da radiação directa, etc. Não pretende, este artigo, ser um manual de arquitectura solar passiva, mas alertar para a importância deste facto, que lida com aspectos importantíssimos da construção, quer ao nível da responsabilidade ecológica, quer ao da eficiência energética, ou, inclusivamente (regozijo geral), ao da economia de um edifício.
A esmagadora maioria da energia consumida por um edifício é dispendida na sua utilização, sendo os gastos energéticos na sua construção, no fabrico dos materiais e em todos os outros pontos de consumo, bastante menos significativos. Como tal, será fácil de entender o quanto se pode economizar (financeira e ecologicamente) com uma boa concepção e execução de um edifício. Basta pensar no frenesim de aquecedores e ar-condicionado, que se vive neste país de clima classificado como temperado e que desapareceria.
Saberão já, por estas horas, que sou um forte defensor da arquitectura bio-climática e ecológica, mas não enquadro a actividade da arquitectura como estando ao serviço de regras destas correntes. Sim: a arquitectura bio-climática e ecológica é importante e até fundamental, mas não se pode esquecer que o papel de um arquitecto passa também por outros pontos - de intervenção social, artística, funcional, etc. A obsessão pelas regras de uma qualquer corrente é empobrecedora, porque retira a visão global e lúcida do objecto, e porque se esquiva à razão. Tal como um pintor que vive obcecado pelo detalhe e que, mercê de tal focalização, se esquece de se afastar da tela, de quando em vez, para tomar consciência do todo, caindo, assim, no risco de ter um resultado final cheio de pormenores belíssimos, mas completamente desproporcionado.
Porém, as preocupações inerentes à concepção bio-climática de um edifício deveriam fazer parte do leque de variáveis com que se esboça o objecto arquitectónico. Infelizmente, não sendo prática corrente no nosso país, isto acontece ainda menos vezes do que as verdadeiras vagas de frio, seja por falta de sensibilização dos projectistas e/ou dos promotores, seja por deficiência de conhecimentos técnicos (pouco ou nada analisados na maioria das escolas de arquitectura e pouco disponíveis), seja apenas para evitar todo o trabalho acrescido que dá fazer um projecto com esses cuidados – porque, obviamente, se se acrescenta uma nova variável à equação, ela fica mais difícil de resolver.
Na passada crónica falava da obrigatoriedade da utilização de sistemas solares para aquecimento de águas domésticas nos novos edifícios. É (será), de facto, a única real presença da arquitectura energeticamente inteligente nos nossos dias. Apesar de ser um passo importante, é preocupante que seja uma imposição da legislação, e não uma tomada de consciência da sociedade, o que origina estas intervenções. Porque, se em outros assuntos é difícil de “convencer” as pessoas de que têm de ser responsáveis a vários níveis, neste caso há um factor que joga a favor de todos. A arquitectura bio-climática torna um edifício, na sua utilização, mais económico do que um que tenha sido concebido e construído sem quaisquer preocupações desta índole! E essa vantagem económica é exponencial, com o passar do tempo!
Por isso, tomemos consciência de que todos nos queixamos da fraca qualidade de conforto que temos no interior dos nossos edifícios, e mentalizemo-nos de que não podemos continuar a construir da mesma forma, legitimados por um falso e recente empirismo, sob pena de perpetuarmos essa falta de qualidade.
Construa-se melhor! Como deve ser! E nem é para que os nórdicos deixem de migrar. É para ver se me passa esta constipação...
Saudinha!
Poucos se interessarão pelos percalços virais da minha saúde (a tal saudinha que por cá desejamos uns aos outros, em jeito de despedida), ou tão pouco pelas minhas deambulações pelo globo. Mas o propósito do meu relato não é uma referência à tão temida vaga de frio – que todos os anos nos espanta, apesar de “chegar” na época em que só se deveria esperar, precisamente, o frio – nem sequer para falar da enorme beleza gótico-renascentista da capital mais antiga da Europa, nossa recente parceira nestas coisas das uniões d’europa. Apenas o faço para ilustrar o que qualquer viajante menos convencional, que tenha andado por terras de fraco sol em períodos menos comuns ao turismo, como é o caso de Janeiro, já saberá por recolha empírica: Portugal é o país da Europa (leia-se, ainda assim, “um dos”) onde se passa mais frio!
Já todos ouvimos algum dos muitos estrangeiros nórdicos que por cá residem, dizer que no Inverno se pira para a terra dele, porque cá se passa um frio terrível. É certo que os potentes mecanismos de aquecimento centralizado de que dispõem os edifícios nesses países, e que, por cá, são uma compreensível (e desejável) raridade, são uma boa razão para tal suceder. Mas não será esta a principal razão de tal tragédia, que leva os sedentários humanos a migrarem como as aves, conforme as estações. A causa principal estará antes na qualidade deplorável da construção realizada por estas bandas.
Um edifício não deveria ser permeável às intempéries a ponto de tornar desconfortável a vida no seu interior. Isto passa, evidentemente, pelo grau de eficiência do sistema de isolamento térmico concebido. E olhem que nem sempre é culpa do projectista! Tentem lá dizer aos empreiteiros que não bastam as tais plaquinhas de 3 cm de esferovite na cobertura, ou que o projecto prevê isolamento no pavimento e correcção das pontes térmicas com forras específicas da estrutura e da laje porque só assim é que se obtém níveis satisfatórios de conforto térmico. Ouvirão logo algo do género “Isso não faz cá falta nenhuma! Eu já construo casas há mais de vinte anos e nunca usei cá disso!”. Obrigado! Por isso é que os outros continuam a ir para a terra deles no Inverno, e eu, um dia depois de vir, são que nem um pêro, de onde fazia -5º à hora de almoço, já me assoava cá no burgo.
Mas não se trata só de isolar para não perder. Também é preciso aproveitar os ganhos. Somos privilegiados, no contexto europeu, na quantidade, intensidade e duração de incidência da luz solar. O problema é que pouco ou nada se faz para aproveitar essa arma. Não falo dos sofisticados painéis foto-voltaicos, cujo desempenho, rendibilidade, viabilidade económica e manutenção são, ainda, a meu ver, de satisfação insípida. Falo da chamada utilização solar passiva. Ou seja, trocado por miúdos, a captação directa e natural da luz solar, e o armazenamento do calor que ela origina, na própria massa do edifício ou de elementos nele introduzidos, de forma a que resulte num aquecedor eficaz, natural, gratuito e renovável. Há inúmeras formas de o fazer - através das conhecidas estufas, associadas a elementos de recolha do calor nelas armazenado, através da radiação directa, etc. Não pretende, este artigo, ser um manual de arquitectura solar passiva, mas alertar para a importância deste facto, que lida com aspectos importantíssimos da construção, quer ao nível da responsabilidade ecológica, quer ao da eficiência energética, ou, inclusivamente (regozijo geral), ao da economia de um edifício.
A esmagadora maioria da energia consumida por um edifício é dispendida na sua utilização, sendo os gastos energéticos na sua construção, no fabrico dos materiais e em todos os outros pontos de consumo, bastante menos significativos. Como tal, será fácil de entender o quanto se pode economizar (financeira e ecologicamente) com uma boa concepção e execução de um edifício. Basta pensar no frenesim de aquecedores e ar-condicionado, que se vive neste país de clima classificado como temperado e que desapareceria.
Saberão já, por estas horas, que sou um forte defensor da arquitectura bio-climática e ecológica, mas não enquadro a actividade da arquitectura como estando ao serviço de regras destas correntes. Sim: a arquitectura bio-climática e ecológica é importante e até fundamental, mas não se pode esquecer que o papel de um arquitecto passa também por outros pontos - de intervenção social, artística, funcional, etc. A obsessão pelas regras de uma qualquer corrente é empobrecedora, porque retira a visão global e lúcida do objecto, e porque se esquiva à razão. Tal como um pintor que vive obcecado pelo detalhe e que, mercê de tal focalização, se esquece de se afastar da tela, de quando em vez, para tomar consciência do todo, caindo, assim, no risco de ter um resultado final cheio de pormenores belíssimos, mas completamente desproporcionado.
Porém, as preocupações inerentes à concepção bio-climática de um edifício deveriam fazer parte do leque de variáveis com que se esboça o objecto arquitectónico. Infelizmente, não sendo prática corrente no nosso país, isto acontece ainda menos vezes do que as verdadeiras vagas de frio, seja por falta de sensibilização dos projectistas e/ou dos promotores, seja por deficiência de conhecimentos técnicos (pouco ou nada analisados na maioria das escolas de arquitectura e pouco disponíveis), seja apenas para evitar todo o trabalho acrescido que dá fazer um projecto com esses cuidados – porque, obviamente, se se acrescenta uma nova variável à equação, ela fica mais difícil de resolver.
Na passada crónica falava da obrigatoriedade da utilização de sistemas solares para aquecimento de águas domésticas nos novos edifícios. É (será), de facto, a única real presença da arquitectura energeticamente inteligente nos nossos dias. Apesar de ser um passo importante, é preocupante que seja uma imposição da legislação, e não uma tomada de consciência da sociedade, o que origina estas intervenções. Porque, se em outros assuntos é difícil de “convencer” as pessoas de que têm de ser responsáveis a vários níveis, neste caso há um factor que joga a favor de todos. A arquitectura bio-climática torna um edifício, na sua utilização, mais económico do que um que tenha sido concebido e construído sem quaisquer preocupações desta índole! E essa vantagem económica é exponencial, com o passar do tempo!
Por isso, tomemos consciência de que todos nos queixamos da fraca qualidade de conforto que temos no interior dos nossos edifícios, e mentalizemo-nos de que não podemos continuar a construir da mesma forma, legitimados por um falso e recente empirismo, sob pena de perpetuarmos essa falta de qualidade.
Construa-se melhor! Como deve ser! E nem é para que os nórdicos deixem de migrar. É para ver se me passa esta constipação...
Saudinha!
02 Fevereiro 2005
10 _ use the force!
Foi no passado dia 27 de janeiro que o Conselho de Ministros aprovou o diploma que integra, entre outros documentos, o novo Regulamento das Características de Comportamento Técnico dos Edifícios (RCCTE), que vem no seguimento das (salutares) tendências e exigências da Europa no capítulo da utilização de energias alternativas e renováveis.
O documento estabelece, entre outros pontos, uma verificação de eficiência energética (a ter lugar antes da emissão da licença de construção) dos edifícios e um limite máximo de consumo energético dos grandes edifícios. Isto requer, naturalmente, uma melhor e mais consciente concepção dos sistemas de isolamento térmico. Ora, os que têm lido estas minhas crónicas (que sofreram uma inesperada e longa interrupção) já estarão a adivinhar que estarei exultante com este sinal de consciência e de responsabilidade de teor ecológico que os nossos políticos finalmente parecem mostrar. Porém, espero que esta solução (que poderá pecar por ser algo impositiva) seja acompanhada por outras duas acções paralelas: uma sensibilização pedagógica junto das populações, a montante, e uma fiscalização eficaz e invulnerável, a jusante.
Claro que o documento, como qualquer um que tenha um carácter restritivo, tem lacunas. Uma das que me saltaram logo à vista foi a classificação tecnocrata das propriedades de isolamento de uma parede, baseada nos níveis de resistência térmica do material em que ela é construída. Quero referir-me, já adivinharão alguns, ao caso da terra crua – taipa ou adobe. Ora, neste novo regulamento, a terra crua está em maus lençois porque, de forma errónea, interpretou-se o desempenho do material terra no seu contexto isolado, sem ter em conta o factor construtivo, que é o que realmente terá uma acção no comportamento térmico. Ou seja, o material terra foi considerado como sendo um material com insuficientes propriedades de isolamento térmico. Isto não é uma incorrecção científica, mas constitui um erro técnico de “cegueira de gabinete”. O que se deveria ter avaliado seria o comportamento de uma parede em terra e não do material que a compõe. Não é preciso ser-se formado em vertentes da construção para se ter a certeza empírica (haverá outra?) de que um edifício em terra crua constitui uma bolha de resistência às contrariedades térmicas do exterior. Todos nós já entrámos em casas de taipa (tão presentes na região do sul do país) num dia de verão impiedoso e sentimos a frescura que aí subsiste. É um facto que a terra não é um material com boas características de isolamento térmico. Mas as suas excelentes propriedades de inércia térmica, a sua massa, a humidade e porosidade que encerra no seu miolo e as trocas gasosas e de vapor permitidas por uma parede em taipa ou adobes, conferem-lhe uma resistência térmica tão aceitável como a de materiais que são, à partida, bons isolantes térmicos.
De terra falarei aqui com alguma frequência, por isso, por agora, ficarei mais centrado na ocorrência deste documento legal. É, sem dúvida, um passo fundamental no desenvolvimento eco-social do nosso país. E, apesar de ser bastante louvável, não deve ser visto como um acto de bravura, mas antes como uma inevitável responsabilidade, que tardava em ser encarada com seriedade.
Espero que me perdoem estes meses em que, por questões diversas, interrompi estas crónicas, e que me concedam o direito de mostrar o meu desagrado em relação ao atraso dos outros. Porque, de facto, já há três anos que está em curso um programa, apelidado de Programa de Água Quente Solar que preconizava a instalação de uma média de 150.000 m2 de painéis solares por ano, num total de um milhão de metros quadrados até 2010. Verifica-se que a média anual real é de menos de 10.000 m2, ou seja, menos de 7% do previsto. Já era tempo de fazer algo sério. Como tal, numa medida que se poderá inserir nas que atrás apelidei de “algo impositiva” - e que eu defendo, desde que acompanhada dos tais outros dois ingredientes (sensibilização pedagógica e fiscalização) - irá vigorar a obrigatoriedade da utilização de painéis solares para aquecimento de águas domésticas em todos os edifícios que sejam construídos em solo nacional. As excepções são, felizmente, escassas, e dizem respeito a casos onde a insolação seja manifestamente inexistente ou insuficiente, e a edifícios que optem por outros sistemas de carácter energético renovável. Digo felizmente, quando falo da escassez de excepções, porque não seria nada interessante ver este assunto ser mais um campo com falta de clareza e de objectividade regulamentar, com todos os problemas e injustiças que provêm dessas situações.
Será demasiado lírico pensar que todos os defeitos presentes na qualidade da construção em Portugal se restringem ao problema do isolamento térmico, ou que mesmo esses serão resolvidos com esta medida. Mas não deixa de ser um passo muito significativo na direcção certa.
Porque é conceptualmente estúpido tentarmos contrariar a natureza onde nos inserimos, e só uma atitude semelhante ao aikido, de que falei numa crónica anterior, e que consiste em aproveitar a força do “adversário” para se converter na força dos nossos próprios golpes, será inteligente e producente. A natureza oferece-nos a sua força. O sol é uma fonte de energia com uma presença e uma intensidade mais do que suficiente para a satisfação da maior parte das nossas necessidades energéticas, desde que se trabalhe com ela. As vantagens são inúmeras. As desvantagens são nulas. As condições existem. Só nos resta uma atitude: Use the force!
O documento estabelece, entre outros pontos, uma verificação de eficiência energética (a ter lugar antes da emissão da licença de construção) dos edifícios e um limite máximo de consumo energético dos grandes edifícios. Isto requer, naturalmente, uma melhor e mais consciente concepção dos sistemas de isolamento térmico. Ora, os que têm lido estas minhas crónicas (que sofreram uma inesperada e longa interrupção) já estarão a adivinhar que estarei exultante com este sinal de consciência e de responsabilidade de teor ecológico que os nossos políticos finalmente parecem mostrar. Porém, espero que esta solução (que poderá pecar por ser algo impositiva) seja acompanhada por outras duas acções paralelas: uma sensibilização pedagógica junto das populações, a montante, e uma fiscalização eficaz e invulnerável, a jusante.
Claro que o documento, como qualquer um que tenha um carácter restritivo, tem lacunas. Uma das que me saltaram logo à vista foi a classificação tecnocrata das propriedades de isolamento de uma parede, baseada nos níveis de resistência térmica do material em que ela é construída. Quero referir-me, já adivinharão alguns, ao caso da terra crua – taipa ou adobe. Ora, neste novo regulamento, a terra crua está em maus lençois porque, de forma errónea, interpretou-se o desempenho do material terra no seu contexto isolado, sem ter em conta o factor construtivo, que é o que realmente terá uma acção no comportamento térmico. Ou seja, o material terra foi considerado como sendo um material com insuficientes propriedades de isolamento térmico. Isto não é uma incorrecção científica, mas constitui um erro técnico de “cegueira de gabinete”. O que se deveria ter avaliado seria o comportamento de uma parede em terra e não do material que a compõe. Não é preciso ser-se formado em vertentes da construção para se ter a certeza empírica (haverá outra?) de que um edifício em terra crua constitui uma bolha de resistência às contrariedades térmicas do exterior. Todos nós já entrámos em casas de taipa (tão presentes na região do sul do país) num dia de verão impiedoso e sentimos a frescura que aí subsiste. É um facto que a terra não é um material com boas características de isolamento térmico. Mas as suas excelentes propriedades de inércia térmica, a sua massa, a humidade e porosidade que encerra no seu miolo e as trocas gasosas e de vapor permitidas por uma parede em taipa ou adobes, conferem-lhe uma resistência térmica tão aceitável como a de materiais que são, à partida, bons isolantes térmicos.
De terra falarei aqui com alguma frequência, por isso, por agora, ficarei mais centrado na ocorrência deste documento legal. É, sem dúvida, um passo fundamental no desenvolvimento eco-social do nosso país. E, apesar de ser bastante louvável, não deve ser visto como um acto de bravura, mas antes como uma inevitável responsabilidade, que tardava em ser encarada com seriedade.
Espero que me perdoem estes meses em que, por questões diversas, interrompi estas crónicas, e que me concedam o direito de mostrar o meu desagrado em relação ao atraso dos outros. Porque, de facto, já há três anos que está em curso um programa, apelidado de Programa de Água Quente Solar que preconizava a instalação de uma média de 150.000 m2 de painéis solares por ano, num total de um milhão de metros quadrados até 2010. Verifica-se que a média anual real é de menos de 10.000 m2, ou seja, menos de 7% do previsto. Já era tempo de fazer algo sério. Como tal, numa medida que se poderá inserir nas que atrás apelidei de “algo impositiva” - e que eu defendo, desde que acompanhada dos tais outros dois ingredientes (sensibilização pedagógica e fiscalização) - irá vigorar a obrigatoriedade da utilização de painéis solares para aquecimento de águas domésticas em todos os edifícios que sejam construídos em solo nacional. As excepções são, felizmente, escassas, e dizem respeito a casos onde a insolação seja manifestamente inexistente ou insuficiente, e a edifícios que optem por outros sistemas de carácter energético renovável. Digo felizmente, quando falo da escassez de excepções, porque não seria nada interessante ver este assunto ser mais um campo com falta de clareza e de objectividade regulamentar, com todos os problemas e injustiças que provêm dessas situações.
Será demasiado lírico pensar que todos os defeitos presentes na qualidade da construção em Portugal se restringem ao problema do isolamento térmico, ou que mesmo esses serão resolvidos com esta medida. Mas não deixa de ser um passo muito significativo na direcção certa.
Porque é conceptualmente estúpido tentarmos contrariar a natureza onde nos inserimos, e só uma atitude semelhante ao aikido, de que falei numa crónica anterior, e que consiste em aproveitar a força do “adversário” para se converter na força dos nossos próprios golpes, será inteligente e producente. A natureza oferece-nos a sua força. O sol é uma fonte de energia com uma presença e uma intensidade mais do que suficiente para a satisfação da maior parte das nossas necessidades energéticas, desde que se trabalhe com ela. As vantagens são inúmeras. As desvantagens são nulas. As condições existem. Só nos resta uma atitude: Use the force!
31 Julho 2004
Lápis Azul
Após a publicação da crónica anterior (09 _ o brilho do verde), a direcção do jornal Diário do Sul entendeu por bem suspender a publicação das minhas crónicas por considerá-las de "tom provocatório", de "tendências politicamente incorrectas" e "passíveis de comprometer a tranquilidade" abrangente desejada pelo director, nomeadamente na sua relação com os principais compradores de espaços publicitários nas páginas do jornal - construtores e fabricantes de materiais (tais como os ditos "rústicos"...)
Por um período de vários meses, apesar do empenho de um dos sub-directores e responsável pelo suplemento cultural D. Quixote (Manuel Piçarra - filho) e de algumas manifestações públicas de necessidade de continuar com estas crónicas (de que se destaca as de vários colegas arquitectos e a da Presidente da Junta de Freguesia da Malagueira, em artigo na imprensa, em que defendia a importância e pertinência da publicação das crónicas d'arquitextos) o jornal Diário do Sul recusou-se a publicar estes textos.
As crónicas que se seguem dizem respeito à segunda época de publicação, por notável tentativa (do sub-director Manuel Piçarra - filho) de reintroduzir a coluna semanal, entre Fevereiro e Julho de 2005, até nova e definitiva censura destes textos.
Por um período de vários meses, apesar do empenho de um dos sub-directores e responsável pelo suplemento cultural D. Quixote (Manuel Piçarra - filho) e de algumas manifestações públicas de necessidade de continuar com estas crónicas (de que se destaca as de vários colegas arquitectos e a da Presidente da Junta de Freguesia da Malagueira, em artigo na imprensa, em que defendia a importância e pertinência da publicação das crónicas d'arquitextos) o jornal Diário do Sul recusou-se a publicar estes textos.
As crónicas que se seguem dizem respeito à segunda época de publicação, por notável tentativa (do sub-director Manuel Piçarra - filho) de reintroduzir a coluna semanal, entre Fevereiro e Julho de 2005, até nova e definitiva censura destes textos.
28 Julho 2004
09 _ o brilho do verde
Está actualmente a ser discutida a proposta de revisão da situação da Reserva Ecológica Nacional (REN) e da Reserva Agrícola Nacional (RAN).
Como se sabe, estas figuras dizem respeito a uma classificação do território nacional, sendo que a REN - que foi criada em 1983 - corresponde a mais de 20% da totalidade daquele.
Como também se sabe, esta figura foi criada por duas razões fundamentais: uma mais directamente ecológica - a preservação de áreas em que as espécies existentes (de fauna e flora) justifiquem a sua preservação; outra de carácter mais urbanístico - a prevenção da construção em solos de má qualidade para o efeito, ou em zonas de possíveis perigos (inundações ou má drenagem, declives acentuados, erosão intensa, linhas de água, etc.) para a implantação de estruturas construídas.
No caso da RAN, acresce uma tentativa de criar um equilíbrio na ocupação do território, considerado necessário, reservando áreas para o cultivo e produção agrícola.
Dada a extraordinária importância deste assunto, desde já se me oferece fazer alguns comentários à forma como este processo está a ser conduzido:
1. O responsável pela proposta de alteração destes instrumentos de ordenamento do território - Sidónio Pardal, que lidera a equipa do Instituto Superior de Agronomia convocada para o efeito - é conhecido como sendo um forte opositor à própria existência desses mesmos instrumentos (pelo menos com esta filosofia de protecção), tendo mesmo publicações nesse sentido. Parece, daí, pouco imparcial e transparente, logo à partida, este processo.
2. Quando foi anunciado que se iria proceder a uma actualização da situação legislativa destes intrumentos, foi recomendada uma abordagem cautelosa e metódica, com recurso a vários pareceres técnicos creditados. Porém, durante os vários meses que se seguiram, o processo seguiu o seu curso, independentemente de qualquer estudo técnico aprofundado. Agora (mal menor), mercê dos protestos das associações ambientalistas, vai proceder-se a uma ronda de audiências com entidades e personalidades da área. Pena é que, em lugar de se usufruir do valioso contributo da pluralidade na génese de um conceito, apenas se use este potencial na sua vertente menos nobre e frutífera – a da fiscalização desse conceito acabado. De novo as tendências autistas confortável da prepotência.
Mas, entrando na proposta de alteração, propriamente dita, sobressai o facto de o novo regulamento transferir a gestão da RAN e REN para as autarquias. Também aqui me parece que há algo a dizer:
1. A natureza está (por opção nossa - que dela nos distanciámos, para o bem e para o mal) numa dimensão bastante distinta da nossa. Não se mede pela nossa bitola. Pertence a uma realidade completamente alheia à nossa esquematização sócio-política da realidade. Como tal, acontece de formas e por lógicas que em nada se enquadram na nossa divisão do território, especificamente, pela divisão administrativa autárquica. Como gerir, portanto, um espaço que se rege por factores naturais, ao dividir a sua administração em zonas de definição totalmente artificial? Ou seja: como impedir que, para uma porção de território - com determinadas características biológicas e morfológicas homogéneas - que se estenda por mais do que um município, as diferentes e flutuantes políticas dos vários executivos autárquicos que tutelam esse espaço não levem à perda da sua homogeneidade e, em última análise, à perda de identidade e de carácter desse mesmo espaço? A regionalização poderá ser uma excelente opção a nível social e económico, mas no que diz respeito ao plano ecológico e da natureza, há que ter uma visão muito mais abrangente, sob pena de estarmos a gerar uma manta de retalhos.
2. Por muito que se queira acreditar na idoneidade dos políticos da administração regional, também é sabido que os cargos autárquicos, pela proximidade com as populações (independentemente das enormes vantagens que este aspecto acarreta), são os mais passíveis de uma certa gestão populista - não será necessária nenhuma referência à destruição de valores ideológicos, da fase política que atravessamos (qual auto de barca irmã bastarda da Custódia de Belém), pois não? E ainda que assim não seja, o perfil de um político de autarquia não será forçosamente o mesmo de um político de gestão nacional. Como tal pode colocar-se a questão: estarão os executivos municipais realmente habilitados para lidar com um assunto tão sério, tão delicado e tão complexo e abrangente como a gestão das Reservas Ecológica e Agrícola?
3. A actuação na salvaguarda da RAN e REN tem, no meu entender, vindo a ser exemplar. Independentemente do conteúdo da lei e dos possíveis impasses que possa criar, o que enalteço é a solidez da gestão do território das REN e RAN perante a pressão fortíssima dos interesses do mundo da especulação imobiliária. Será que, ao fragmentar essa gestão, não estamos a dar o mote para o rápido aparecimento de excepções na interpretação e salvaguarda das reservas? Claro está que, muito rapidamente, a excepção ocupa o lugar da regra.
4. A quem competirá a fiscalização das reservas e as actuações sobre usos indevidos e abusivos? É que, se também for às Câmaras municipais, o caso parece-me muito mal parado, já que são infindáveis as autarquias deste país que nem sequer conseguem ter mão no seu próprio centro histórico, alegando sempre falta de meios (humanos e logísticos) para a correcta e eficaz “vigilância” do seu burgo.
Ora, é evidente que a situação real alterou-se consideravelmente desde 1983. Neste sentido, é também de fácil acordo que é pertinente uma revisão da situação do ordenamento do território. Até porque, tendo em conta o exemplo construído, a situação urbanística em Portugal, a alterar-se, só se for para melhor...
Mas a questão é saber com que política de base é que esta alteração ocorre. Porque não deixa de ser bem vinda uma actualização desta realidade. O problema é que adivinha-se a selvajaria imobiliária no horizonte. Até porque, segundo o autor da proposta de revisão, a principal caducidade emergente dos instrumentos (RAN e REN) reside na sua actual definição “à margem da contextualização sócio-económica". Ora, é inevitável (e inteligente) ponderar os factores de ordem económica na definição de estratégias de gestão do território, mas não deverá nunca ser esse o ponto de partida ou de chegada do processo. Acontece que nesta revisão, este aspecto apresenta-se como um dos argumentos hasteados mais alto, o que deixa dúvidas sobre a filosofia subjacente a todo o conceito. Para mais, quando se conhece a divergência das ideias do lider do estudo que pretenderia legitimar a existência destes instrumentos de ordenamento com o próprio conceito destes, não se reduz a seriedade das dúvidas referidas. Parece padecer de maleita congénita, uma restruturação de algo, que é levada a cabo por alguém que é opositor do próprio objecto a restruturar.
Esperemos apenas que esta ronda de audiências resulte numa visão responsável e estruturada da futura gestão de um dos instrumentos de ordenamento do território mais delicado e sujeito a especulações e pressões. E que, pelo menos desta vez, o verde das notas não brilhe mais do que o verde do mais inato dos nossos patrimónios - o natural.
Como se sabe, estas figuras dizem respeito a uma classificação do território nacional, sendo que a REN - que foi criada em 1983 - corresponde a mais de 20% da totalidade daquele.
Como também se sabe, esta figura foi criada por duas razões fundamentais: uma mais directamente ecológica - a preservação de áreas em que as espécies existentes (de fauna e flora) justifiquem a sua preservação; outra de carácter mais urbanístico - a prevenção da construção em solos de má qualidade para o efeito, ou em zonas de possíveis perigos (inundações ou má drenagem, declives acentuados, erosão intensa, linhas de água, etc.) para a implantação de estruturas construídas.
No caso da RAN, acresce uma tentativa de criar um equilíbrio na ocupação do território, considerado necessário, reservando áreas para o cultivo e produção agrícola.
Dada a extraordinária importância deste assunto, desde já se me oferece fazer alguns comentários à forma como este processo está a ser conduzido:
1. O responsável pela proposta de alteração destes instrumentos de ordenamento do território - Sidónio Pardal, que lidera a equipa do Instituto Superior de Agronomia convocada para o efeito - é conhecido como sendo um forte opositor à própria existência desses mesmos instrumentos (pelo menos com esta filosofia de protecção), tendo mesmo publicações nesse sentido. Parece, daí, pouco imparcial e transparente, logo à partida, este processo.
2. Quando foi anunciado que se iria proceder a uma actualização da situação legislativa destes intrumentos, foi recomendada uma abordagem cautelosa e metódica, com recurso a vários pareceres técnicos creditados. Porém, durante os vários meses que se seguiram, o processo seguiu o seu curso, independentemente de qualquer estudo técnico aprofundado. Agora (mal menor), mercê dos protestos das associações ambientalistas, vai proceder-se a uma ronda de audiências com entidades e personalidades da área. Pena é que, em lugar de se usufruir do valioso contributo da pluralidade na génese de um conceito, apenas se use este potencial na sua vertente menos nobre e frutífera – a da fiscalização desse conceito acabado. De novo as tendências autistas confortável da prepotência.
Mas, entrando na proposta de alteração, propriamente dita, sobressai o facto de o novo regulamento transferir a gestão da RAN e REN para as autarquias. Também aqui me parece que há algo a dizer:
1. A natureza está (por opção nossa - que dela nos distanciámos, para o bem e para o mal) numa dimensão bastante distinta da nossa. Não se mede pela nossa bitola. Pertence a uma realidade completamente alheia à nossa esquematização sócio-política da realidade. Como tal, acontece de formas e por lógicas que em nada se enquadram na nossa divisão do território, especificamente, pela divisão administrativa autárquica. Como gerir, portanto, um espaço que se rege por factores naturais, ao dividir a sua administração em zonas de definição totalmente artificial? Ou seja: como impedir que, para uma porção de território - com determinadas características biológicas e morfológicas homogéneas - que se estenda por mais do que um município, as diferentes e flutuantes políticas dos vários executivos autárquicos que tutelam esse espaço não levem à perda da sua homogeneidade e, em última análise, à perda de identidade e de carácter desse mesmo espaço? A regionalização poderá ser uma excelente opção a nível social e económico, mas no que diz respeito ao plano ecológico e da natureza, há que ter uma visão muito mais abrangente, sob pena de estarmos a gerar uma manta de retalhos.
2. Por muito que se queira acreditar na idoneidade dos políticos da administração regional, também é sabido que os cargos autárquicos, pela proximidade com as populações (independentemente das enormes vantagens que este aspecto acarreta), são os mais passíveis de uma certa gestão populista - não será necessária nenhuma referência à destruição de valores ideológicos, da fase política que atravessamos (qual auto de barca irmã bastarda da Custódia de Belém), pois não? E ainda que assim não seja, o perfil de um político de autarquia não será forçosamente o mesmo de um político de gestão nacional. Como tal pode colocar-se a questão: estarão os executivos municipais realmente habilitados para lidar com um assunto tão sério, tão delicado e tão complexo e abrangente como a gestão das Reservas Ecológica e Agrícola?
3. A actuação na salvaguarda da RAN e REN tem, no meu entender, vindo a ser exemplar. Independentemente do conteúdo da lei e dos possíveis impasses que possa criar, o que enalteço é a solidez da gestão do território das REN e RAN perante a pressão fortíssima dos interesses do mundo da especulação imobiliária. Será que, ao fragmentar essa gestão, não estamos a dar o mote para o rápido aparecimento de excepções na interpretação e salvaguarda das reservas? Claro está que, muito rapidamente, a excepção ocupa o lugar da regra.
4. A quem competirá a fiscalização das reservas e as actuações sobre usos indevidos e abusivos? É que, se também for às Câmaras municipais, o caso parece-me muito mal parado, já que são infindáveis as autarquias deste país que nem sequer conseguem ter mão no seu próprio centro histórico, alegando sempre falta de meios (humanos e logísticos) para a correcta e eficaz “vigilância” do seu burgo.
Ora, é evidente que a situação real alterou-se consideravelmente desde 1983. Neste sentido, é também de fácil acordo que é pertinente uma revisão da situação do ordenamento do território. Até porque, tendo em conta o exemplo construído, a situação urbanística em Portugal, a alterar-se, só se for para melhor...
Mas a questão é saber com que política de base é que esta alteração ocorre. Porque não deixa de ser bem vinda uma actualização desta realidade. O problema é que adivinha-se a selvajaria imobiliária no horizonte. Até porque, segundo o autor da proposta de revisão, a principal caducidade emergente dos instrumentos (RAN e REN) reside na sua actual definição “à margem da contextualização sócio-económica". Ora, é inevitável (e inteligente) ponderar os factores de ordem económica na definição de estratégias de gestão do território, mas não deverá nunca ser esse o ponto de partida ou de chegada do processo. Acontece que nesta revisão, este aspecto apresenta-se como um dos argumentos hasteados mais alto, o que deixa dúvidas sobre a filosofia subjacente a todo o conceito. Para mais, quando se conhece a divergência das ideias do lider do estudo que pretenderia legitimar a existência destes instrumentos de ordenamento com o próprio conceito destes, não se reduz a seriedade das dúvidas referidas. Parece padecer de maleita congénita, uma restruturação de algo, que é levada a cabo por alguém que é opositor do próprio objecto a restruturar.
Esperemos apenas que esta ronda de audiências resulte numa visão responsável e estruturada da futura gestão de um dos instrumentos de ordenamento do território mais delicado e sujeito a especulações e pressões. E que, pelo menos desta vez, o verde das notas não brilhe mais do que o verde do mais inato dos nossos patrimónios - o natural.
21 Julho 2004
08 _ um toque de rústico II
Foi há três semanas que, numa crónica que gerou alguma polémica, manifestei o meu pouco apreço por aquilo que julgo ser uma abordagem pouco interessante e honesta da arquitectura e da construção. Num sentido mais lato, estendo esta análise a toda a actividade criativa e de intervenção social.
Falava, nesse breve texto, da repetição linear e formalista de soluções anacrónicas ou de cariz próprio e divergente do contexto em que essa mimese é processada. Trocado por miúdos, falo da inconsequente e desprestigiante imitação.
A esta empobrecedora atitude de estagnação criativa e intelectual, pertence também a abordagem preconceituosa do exercício de projectar. Leia-se “preconceituosa” no seu sentido etimológico - que é precedido de um conceito. Ou seja: tal como a pescada, que antes de o ser já o era.
É prática corrente proceder-se a um esquema mental (que precede o frenesim gráfico dos desenhos de concepção de um projecto) que remete todo o processo criativo para uma série de conceitos (fundamentalmente de carácter formalista) que podem pôr em causa a legitimidade intelectual do resultado final, enquanto objecto arquitectónico - os tais pré-conceitos. Que fique bem claro que a existência de conceitos fortes num processo criativo é salutar, desde que o acompanhe e dele surja, em lugar de o preceder e condicionar.
Para se perceber como esta atitude pode ser redutora, pense-se em dois compositores de música: Um escreve, invariavelmente, para um quarteto de cordas - dois violinos (certamente não os de Chopin), uma viola e um violoncelo, por exemplo. O outro escreve a música que melhor ilustra e exprime o sentimento que quer transmitir - será essa tentativa de transmitir esse sentimento que irá solicitar a intervenção de um clarinete, de um obué, de um fagote, de uma trompa ou de qualquer outro instrumento. Veja-se bem a diferença na potencial riqueza final de cada uma das peças. É evidente que se pode fazer muito com muito pouco - sendo até um exercício bastante interessante (Mies van der Rohe mostrou-nos isso como ninguém) - mas esse pouco tem de ser intencional, e não fruto de uma restrição de recursos intelectuais e linguísticos, antes mesmo de iniciado o processo - a depuração como discurso e não como gaguez!
Será por demais aceitável que alguém que não está familiarizado com as exigências e responsabilidades do pensamento arquitectónico se sinta imediatamente inundado de imagens estereotipadas, assim que ouve pronunciar a palavra casa. E será (pelo menos na esmagadora maioria dos casos) algo do género: uma planta rectangular; um telhado de duas águas; umas janelinhas aos quadradinhos e uma porta de entrada. Tudo o resto virá da quantidade de revistas que se folheia na espera do consultório, das visitas que se faz aos amigos que moram no estrangeiro, ou dos filmes de Hollywood que se devora, por entre telenovelas mexicanas.
Muito poucos formarão outra imagem imediata ou, pior do que isso, estarão sequer disponíveis para ponderar sobre a falibilidade da que elegeram.
A questão que se coloca é a de que, tal como a cada pessoa corresponde uma personalidade, a cada casa (ou edifício) corresponde também uma identidade própria. E cada local oferece uma realidade, que não pode ser descurada no gizar das ideias basilares da intervenção. E cada personalidade de cada habitante de cada casa requer uma diferente identidade da sua casa. E uma série de variáveis, que fazem com que não seja possível (nem desejável) traçar linhas generalizantes, pró-dogmáticas, requerem uma atitude e uma abordagem específicas, no sentido de dar a resposta adequada ao problema.
Porque a arte difere da matemática por não nos dar a conhecer as fórmulas; porque, no fundo, tal como na matemática, na arte põe-se-nos um problema, em que temos de equacionar as variáveis e proceder aos cálculos, sob forma de acto criativo. Só que, ao contrário da matemática, não existe apenas uma resposta possível para cada problema.
Por isso é fundamental que o cliente confie no seu arquitecto, permitindo-lhe a provocação, ao ser confrontado, por proposta deste, com soluções de “intervenção”, e não de “acomodação”. Assim como é fundamental que o arquitecto confie no seu cliente, para poder realmente vir a conhecer as tais variáveis da equação que se prendem com a identidade do futuro utilizador do objecto a conceber.
O processo criativo, só assim será real, lúcido e honesto.
Porque sem lucidez não há verdadeiro conhecimento.
Porque sem conhecimento não há liberdade.
Porque sem liberdade não há arte.
Porque sem arte há um mundo dorido.
Falava, nesse breve texto, da repetição linear e formalista de soluções anacrónicas ou de cariz próprio e divergente do contexto em que essa mimese é processada. Trocado por miúdos, falo da inconsequente e desprestigiante imitação.
A esta empobrecedora atitude de estagnação criativa e intelectual, pertence também a abordagem preconceituosa do exercício de projectar. Leia-se “preconceituosa” no seu sentido etimológico - que é precedido de um conceito. Ou seja: tal como a pescada, que antes de o ser já o era.
É prática corrente proceder-se a um esquema mental (que precede o frenesim gráfico dos desenhos de concepção de um projecto) que remete todo o processo criativo para uma série de conceitos (fundamentalmente de carácter formalista) que podem pôr em causa a legitimidade intelectual do resultado final, enquanto objecto arquitectónico - os tais pré-conceitos. Que fique bem claro que a existência de conceitos fortes num processo criativo é salutar, desde que o acompanhe e dele surja, em lugar de o preceder e condicionar.
Para se perceber como esta atitude pode ser redutora, pense-se em dois compositores de música: Um escreve, invariavelmente, para um quarteto de cordas - dois violinos (certamente não os de Chopin), uma viola e um violoncelo, por exemplo. O outro escreve a música que melhor ilustra e exprime o sentimento que quer transmitir - será essa tentativa de transmitir esse sentimento que irá solicitar a intervenção de um clarinete, de um obué, de um fagote, de uma trompa ou de qualquer outro instrumento. Veja-se bem a diferença na potencial riqueza final de cada uma das peças. É evidente que se pode fazer muito com muito pouco - sendo até um exercício bastante interessante (Mies van der Rohe mostrou-nos isso como ninguém) - mas esse pouco tem de ser intencional, e não fruto de uma restrição de recursos intelectuais e linguísticos, antes mesmo de iniciado o processo - a depuração como discurso e não como gaguez!
Será por demais aceitável que alguém que não está familiarizado com as exigências e responsabilidades do pensamento arquitectónico se sinta imediatamente inundado de imagens estereotipadas, assim que ouve pronunciar a palavra casa. E será (pelo menos na esmagadora maioria dos casos) algo do género: uma planta rectangular; um telhado de duas águas; umas janelinhas aos quadradinhos e uma porta de entrada. Tudo o resto virá da quantidade de revistas que se folheia na espera do consultório, das visitas que se faz aos amigos que moram no estrangeiro, ou dos filmes de Hollywood que se devora, por entre telenovelas mexicanas.
Muito poucos formarão outra imagem imediata ou, pior do que isso, estarão sequer disponíveis para ponderar sobre a falibilidade da que elegeram.
A questão que se coloca é a de que, tal como a cada pessoa corresponde uma personalidade, a cada casa (ou edifício) corresponde também uma identidade própria. E cada local oferece uma realidade, que não pode ser descurada no gizar das ideias basilares da intervenção. E cada personalidade de cada habitante de cada casa requer uma diferente identidade da sua casa. E uma série de variáveis, que fazem com que não seja possível (nem desejável) traçar linhas generalizantes, pró-dogmáticas, requerem uma atitude e uma abordagem específicas, no sentido de dar a resposta adequada ao problema.
Porque a arte difere da matemática por não nos dar a conhecer as fórmulas; porque, no fundo, tal como na matemática, na arte põe-se-nos um problema, em que temos de equacionar as variáveis e proceder aos cálculos, sob forma de acto criativo. Só que, ao contrário da matemática, não existe apenas uma resposta possível para cada problema.
Por isso é fundamental que o cliente confie no seu arquitecto, permitindo-lhe a provocação, ao ser confrontado, por proposta deste, com soluções de “intervenção”, e não de “acomodação”. Assim como é fundamental que o arquitecto confie no seu cliente, para poder realmente vir a conhecer as tais variáveis da equação que se prendem com a identidade do futuro utilizador do objecto a conceber.
O processo criativo, só assim será real, lúcido e honesto.
Porque sem lucidez não há verdadeiro conhecimento.
Porque sem conhecimento não há liberdade.
Porque sem liberdade não há arte.
Porque sem arte há um mundo dorido.
12 Julho 2004
07 _ polícias da arquitectura
Antes de mais, fica a finalização da crónica anterior - que, por erro de paginação, saiu amputada da sua frase final. Dizia, então, essa frase, que a crónica em questão (que se intitulava “um toque rústico”) resultava de uma velha conversa com o arqº João Portalete, a quem ficava o devido agradecimento.
Permita-me o meu referido colega e amigo que me sirva da figura do cargo que ocupa - técnico de uma autarquia - para reflectir, esta semana, sobre essa outra vertente do desempenho da função de arquitecto.
Se é verdade que a função primordial e “inata” do arquitecto será a de projectar, não é menos verdade que há uma série de outras frentes em que é exigida (e desejável) a intervenção de técnicos competentes e credenciados para o seu tratamento.
Uma destas “variantes da actividade mãe” é a de técnico municipal, ao serviço de uma autarquia (porque também se pode estender pelo domínio das CCR e GTL que têm o seu papel distinto do de uma câmara municipal). As funções desempenhadas por um arquitecto num orgão autarquico são, essencialmente de duas ordens: uma - de técnico projectista; outra - a de técnico de licenciamento. Isto salvo por questões políticas - um arquitecto pode ser, por exemplo, presidente de câmara ou vereador, sem que tal tenha, contudo, algo a ver com a sua formação, mas antes por questões políticas e/ou de percurso pessoal. Se a primeira daquelas ordens se aproxima da tal “actividade mãe” de que falava - o exercício de projectar - já tal não poderá ser dito sobre a segunda. Trata-se, neste caso, de dar seguimento aos processos que conduzem ao licenciamento de uma obra ou outro qualquer pedido de carácter urbanístico, à luz da realidade legal, regulamentar, técnica e política. E é precisamente nesta última vertente que se torna mais ingrato o trabalho destes técnicos.
Mas voltemos atrás por breves instantes. Um arquitecto que trabalhe numa câmara municipal e que possa fazer projecto, está, obviamente, também sujeito às tendências e opções políticas do executivo, que, diga-se em verdade, por vezes pouco tem de preocupação arquitectónica ou de cultura urbanística, sendo este pelouro apenas um dos mais visíveis estandartes de eleição de políticos menos abnegatórios - em três penadas pode dizer-se que, para uma câmara municipal, demolir poucas obras ilegais e construir muita obra vistosa é como, para um governo, baixar os impostos ou subir as reformas.
Mas não é disso que se fala aqui e agora.
Falava de arquitectos projectistas, numa câmara municipal. E dizia eu que, por sua vez, um arquitecto que esteja enquadrado na pesada burocracia (sobrevivente de velhas engrenagens ferrugentas que nunca chegaram a ser substituídas) do processo de licenciamento municipal de obras, tem entre mãos uma tarefa que facilmente se pode revelar como algo de frustrante e revoltante.
Que fique bem claro que o processo de licenciamento de obras é (pelo menos na nossa realidade social e cultural) absolutamente indispensável e desejável. E que fique igualmente inequívoca a necessidade de ter técnicos competentes e devidamente formados nessa área - arquitectos e urbanístas. O problema, porém, é a negação de competências que o próprio sistema encerra em si mesmo, numa espécie de contra-entropia definhante. Porque a máquina operante (entidade licenciadora), ao invés de funcionar como um catalizador do crescimento sustentado e consolidado da paisagem construída, impõem-se como um instrumento nivelador - que, como dificilmente seria evitável nestas circunstâncias, afina pela mediocridade - contribuíndo para a fermentação pustulenta do tecido urbano e (principalmente) suburbano do território. Ou seja - os técnicos licenciadores das câmaras municipais funcionam (por imposição do sistema) como repressores do mal e não como promotores do bem.
Escusado será dizer que isto advém de políticas de fundo e de impasses criados pela própria lei. Se é mais volátil a primeira questão (porque trata de personalidades individuais que gerem os destinos e as linhas de acção de todo o executivo), quanto à segunda, trata-se apenas de estagnação e inadaptação às realidades - quem analisar o regulamento geral de edificações urbanas (RGEU), depara-se com a profunda desadequação do documento em relação à realidade actual. Mais incrível, é a colisão do teor de documentos regulamentares, que ocorre com muito menos raridade do que a eficiência exigiria - RGEU, código civil, planos directores, decretos-lei, portarias, etc., por vezes contradizem-se em matérias essenciais à elaboração de um projecto e ao seu respectivo licenciamento. Mas a própria lógica das leis não permite grande intervenção qualitativa da parte dos técnicos - já que não possibilita o impedimento de atentados urbanísticos (basta ter um telhadinho, menos de três pisos e ser branco e já se pode construir praticamente a aberração que se quiser), nem permite o licenciamento de objectos arquitectonicos de qualidade (porque, mesmo que seja um projecto magnífico, se não tiver telhadinho, menos de três pisos e não for branco, os regulamentos não o enquadram). As escassas excepções à aplicação hirta dos regulamentos apenas enfatizam o absurdo da regra. Depois, ainda vem sobrepor-se a todo este cenário, a vontade política do executivo, que, sejamos francos, poucas vezes põe a real finalidade das suas potencialidades à frente da especulação eleitoral que daí possa resultar. Daí que seja importante referir que os técnicos que lidam directamente com os munícipes (os tais arquitectos dos atendimentos) não podem fazer milagres, nem sequer depende da vontade deles aprovar ou indeferir um projecto. Esqueçam lá o peru no Natal e o telefonema “ó sr. arquitecto...”, porque eles não podem mesmo fazer o “jeitinho”. Os técnicos de licenciamento limitam-se a emitir a sua opinião enquanto tal (fundamentada, nuns 95%, em regras muito precisas, e nos restantes 5% em ponderação subjectiva de carácter arquitectónico e social), após o que se segue uma série de degraus a escalar - passando pelas chefias de divisão, de departamento, pela vereação - até chegar à reunião de câmara, para deliberação. Em qualquer destes pontos do percurso, o “veredicto” do técnico (o tal arquitecto do atendimento) pode ser contrariado, ignorado, ou simplesmente considerado como não estando de acordo com a política vigente da câmara em questão. Note-se que não me refiro a nenhum município em concreto, porque tenho a ideia de que todos, de uma forma ou de outra, com mais ou menos frequência, acabam por cair nesta realidade. Em resumo, a regulamentação existente, associada à utilização que lhe é dada e às políticas levadas a cabo pelas autarquias, definem uma área imensa de não-actuação, ao invés de criarem linhas de acção. É a lógica da minimização dos custos, em deterimento da optimização dos ganhos. Como será fácil de concluir, sai-se a perder...
Por outro lado, as próprias câmaras municipais divorciam-se da sua inerente responsabilidade de formação de uma cultura do edificado e da criação de condições para um crescimento optimizado. Falo, por exemplo, da promoção de concursos de arquitectura e urbanismo. Ou, tão simplesmente, do lançamento de concursos de ideias, que permitam a emergência de visões diferentes para uma mesma realidade, com a consequente criação de debate e de saudável provocação, que, no seu turbilhão intelectual e conceptual, darão forçosamente origem a uma cultura de ponderação e de modernidade e a uma aproximação da população, dos técnicos e dos políticos à solidez, coerência e intencionalidade do crescimento e do desenvolvimento.
Todos vemos o caos urbano em que estamos a mergulhar as nossas povoações.
Criou-se uma mórbida relação entre edificado coerente e pobreza - por ausência de intervenção, que impediu os maus tratos à paisagem.
Urge intervir de forma consequente - não apenas restringir, mas interagir.
Há uns dias, uma equipa que jogou à defesa ganhou a outra que atacou sem perder de vista o seu objectivo. Desta vez perderam os audazes. Mas alguém se sentiu derrotado?
Permita-me o meu referido colega e amigo que me sirva da figura do cargo que ocupa - técnico de uma autarquia - para reflectir, esta semana, sobre essa outra vertente do desempenho da função de arquitecto.
Se é verdade que a função primordial e “inata” do arquitecto será a de projectar, não é menos verdade que há uma série de outras frentes em que é exigida (e desejável) a intervenção de técnicos competentes e credenciados para o seu tratamento.
Uma destas “variantes da actividade mãe” é a de técnico municipal, ao serviço de uma autarquia (porque também se pode estender pelo domínio das CCR e GTL que têm o seu papel distinto do de uma câmara municipal). As funções desempenhadas por um arquitecto num orgão autarquico são, essencialmente de duas ordens: uma - de técnico projectista; outra - a de técnico de licenciamento. Isto salvo por questões políticas - um arquitecto pode ser, por exemplo, presidente de câmara ou vereador, sem que tal tenha, contudo, algo a ver com a sua formação, mas antes por questões políticas e/ou de percurso pessoal. Se a primeira daquelas ordens se aproxima da tal “actividade mãe” de que falava - o exercício de projectar - já tal não poderá ser dito sobre a segunda. Trata-se, neste caso, de dar seguimento aos processos que conduzem ao licenciamento de uma obra ou outro qualquer pedido de carácter urbanístico, à luz da realidade legal, regulamentar, técnica e política. E é precisamente nesta última vertente que se torna mais ingrato o trabalho destes técnicos.
Mas voltemos atrás por breves instantes. Um arquitecto que trabalhe numa câmara municipal e que possa fazer projecto, está, obviamente, também sujeito às tendências e opções políticas do executivo, que, diga-se em verdade, por vezes pouco tem de preocupação arquitectónica ou de cultura urbanística, sendo este pelouro apenas um dos mais visíveis estandartes de eleição de políticos menos abnegatórios - em três penadas pode dizer-se que, para uma câmara municipal, demolir poucas obras ilegais e construir muita obra vistosa é como, para um governo, baixar os impostos ou subir as reformas.
Mas não é disso que se fala aqui e agora.
Falava de arquitectos projectistas, numa câmara municipal. E dizia eu que, por sua vez, um arquitecto que esteja enquadrado na pesada burocracia (sobrevivente de velhas engrenagens ferrugentas que nunca chegaram a ser substituídas) do processo de licenciamento municipal de obras, tem entre mãos uma tarefa que facilmente se pode revelar como algo de frustrante e revoltante.
Que fique bem claro que o processo de licenciamento de obras é (pelo menos na nossa realidade social e cultural) absolutamente indispensável e desejável. E que fique igualmente inequívoca a necessidade de ter técnicos competentes e devidamente formados nessa área - arquitectos e urbanístas. O problema, porém, é a negação de competências que o próprio sistema encerra em si mesmo, numa espécie de contra-entropia definhante. Porque a máquina operante (entidade licenciadora), ao invés de funcionar como um catalizador do crescimento sustentado e consolidado da paisagem construída, impõem-se como um instrumento nivelador - que, como dificilmente seria evitável nestas circunstâncias, afina pela mediocridade - contribuíndo para a fermentação pustulenta do tecido urbano e (principalmente) suburbano do território. Ou seja - os técnicos licenciadores das câmaras municipais funcionam (por imposição do sistema) como repressores do mal e não como promotores do bem.
Escusado será dizer que isto advém de políticas de fundo e de impasses criados pela própria lei. Se é mais volátil a primeira questão (porque trata de personalidades individuais que gerem os destinos e as linhas de acção de todo o executivo), quanto à segunda, trata-se apenas de estagnação e inadaptação às realidades - quem analisar o regulamento geral de edificações urbanas (RGEU), depara-se com a profunda desadequação do documento em relação à realidade actual. Mais incrível, é a colisão do teor de documentos regulamentares, que ocorre com muito menos raridade do que a eficiência exigiria - RGEU, código civil, planos directores, decretos-lei, portarias, etc., por vezes contradizem-se em matérias essenciais à elaboração de um projecto e ao seu respectivo licenciamento. Mas a própria lógica das leis não permite grande intervenção qualitativa da parte dos técnicos - já que não possibilita o impedimento de atentados urbanísticos (basta ter um telhadinho, menos de três pisos e ser branco e já se pode construir praticamente a aberração que se quiser), nem permite o licenciamento de objectos arquitectonicos de qualidade (porque, mesmo que seja um projecto magnífico, se não tiver telhadinho, menos de três pisos e não for branco, os regulamentos não o enquadram). As escassas excepções à aplicação hirta dos regulamentos apenas enfatizam o absurdo da regra. Depois, ainda vem sobrepor-se a todo este cenário, a vontade política do executivo, que, sejamos francos, poucas vezes põe a real finalidade das suas potencialidades à frente da especulação eleitoral que daí possa resultar. Daí que seja importante referir que os técnicos que lidam directamente com os munícipes (os tais arquitectos dos atendimentos) não podem fazer milagres, nem sequer depende da vontade deles aprovar ou indeferir um projecto. Esqueçam lá o peru no Natal e o telefonema “ó sr. arquitecto...”, porque eles não podem mesmo fazer o “jeitinho”. Os técnicos de licenciamento limitam-se a emitir a sua opinião enquanto tal (fundamentada, nuns 95%, em regras muito precisas, e nos restantes 5% em ponderação subjectiva de carácter arquitectónico e social), após o que se segue uma série de degraus a escalar - passando pelas chefias de divisão, de departamento, pela vereação - até chegar à reunião de câmara, para deliberação. Em qualquer destes pontos do percurso, o “veredicto” do técnico (o tal arquitecto do atendimento) pode ser contrariado, ignorado, ou simplesmente considerado como não estando de acordo com a política vigente da câmara em questão. Note-se que não me refiro a nenhum município em concreto, porque tenho a ideia de que todos, de uma forma ou de outra, com mais ou menos frequência, acabam por cair nesta realidade. Em resumo, a regulamentação existente, associada à utilização que lhe é dada e às políticas levadas a cabo pelas autarquias, definem uma área imensa de não-actuação, ao invés de criarem linhas de acção. É a lógica da minimização dos custos, em deterimento da optimização dos ganhos. Como será fácil de concluir, sai-se a perder...
Por outro lado, as próprias câmaras municipais divorciam-se da sua inerente responsabilidade de formação de uma cultura do edificado e da criação de condições para um crescimento optimizado. Falo, por exemplo, da promoção de concursos de arquitectura e urbanismo. Ou, tão simplesmente, do lançamento de concursos de ideias, que permitam a emergência de visões diferentes para uma mesma realidade, com a consequente criação de debate e de saudável provocação, que, no seu turbilhão intelectual e conceptual, darão forçosamente origem a uma cultura de ponderação e de modernidade e a uma aproximação da população, dos técnicos e dos políticos à solidez, coerência e intencionalidade do crescimento e do desenvolvimento.
Todos vemos o caos urbano em que estamos a mergulhar as nossas povoações.
Criou-se uma mórbida relação entre edificado coerente e pobreza - por ausência de intervenção, que impediu os maus tratos à paisagem.
Urge intervir de forma consequente - não apenas restringir, mas interagir.
Há uns dias, uma equipa que jogou à defesa ganhou a outra que atacou sem perder de vista o seu objectivo. Desta vez perderam os audazes. Mas alguém se sentiu derrotado?
30 Junho 2004
06 _ um toque rústico
Com alguma frequência, os clientes (ou candidatos a tal) que me entram pelo atelier (ateliê - segundo as novas regras ortográficas), trazem um desejo ardente de virem a possuir “uma casa rústica”. É sempre difícil de adivinhar o que é que será esta coisa do rústico, mas tenho vindo a constatar que, na maioria dos casos, a expressão “rústico” está para o Português de classe média, como para o turista americano estará o “very typical” (sem a extrovertida interjeição de espanto proferida por este último - “oooooohhh!”).
É inegável que os objectos de cariz rústico têm um charme especial e uma beleza muito própria. Mas é isso mesmo que se passa - são objectos muito especiais e, sobretudo, próprios. “A busca de algo não resulta na sua descoberta aparente, mas na compreensão de todas as partes que se unem para lhe dar existência.” É assim que Artur Quaayayp, no seu poema “Rostos da Vila”, nos relembra da densidade necessária à veracidade de um objecto - talvez aquilo que, nos humanos, apelidamos de alma.
Na contemplação da beleza, o olhar deve ultrapassar a forma, e perceber que a real beleza está na história por detrás de cada pormenor. Como a beleza de um beijo não reside no prazer imediato desse beijo, mas na sua conquista.
Nos tempos em que as coisas eram rústicas, os processos de fabrico dessas mesmas coisas eram muito primários, em comparação com os meios actuais. Era daí que resultava o conjunto de imperfeições e pormenores únicos que faziam de uma peça algo de rústico.
Hoje em dia, a tecnologia disponível permite um grau de perfeição e de rigor que só o futuro menosprezará. Como tal, apenas de forma falsa, se poderá introduzir peças rústicas na realidade contemporânea (excepção feita a alguns nichos da indústria, que continuam, por opção, a utilizar técnicas rudimentares e ancestrais de produção).
É que tudo tem uma razão de ser. Por exemplo: se as janelas de outrora, feitas em madeira, tinham vidrinhos pequenos, resultando num quadriculado de ripinhas, era, entre outras razões, porque a madeira corre o risco de empenar, e, ao introduzir a quadrícula, está-se a introduzir uma maior resistência a esta tendência para empenar. Que sentido fará, hoje em dia, construir janelas em alumínio ou PVC (materiais com muito menor risco de empenarem), colocar-lhes um vidro único (duplo) e, depois, introduzir-lhe umas inúteis tiras plásticas entre os vidros, apenas para imitar as antigas e lhe dar aquele aspecto rústico?
Ou, então, para quê construir chaminés de dimensões generosas, numa casa onde já não se fuma carnes?
Quanto às imperfeições dos materiais: se, por exemplo, uma tijoleira tinha cores variáveis e alguma irregularidade na sua superfície, era porque era cozida em fornos a lenha e de modo rudimentar. Que raio de ideia teve quem resolveu criar mosaicos vidrados, de construção ultra-sitematizada e industrializada, com as mesmas nuances de cor e textura, que por vezes são tão difíceis de obter com ar credível, que até encarecem o produto?
Torno a dizer: tudo tem (tinha) uma razão de ser. Se as casas tinham socos, alizares, beirados e toda uma série de elementos (cuja beleza será inegável), é porque esses elementos faziam parte de uma lógica construtiva, de uma série de procedimentos para optimizar o desempenho dos materiais e a sua durabilidade. A sua recriação de forma gratuita, por questões puramente estéticas, é absurda e desprestigiante, quer para a sanidade artistico-intelectual de uma sociedade (porque não acompanha a realidade técnica e artística), quer para a obtenção de bons resultados técnicos no produto final (porque tenta recriar situações anacrónicas da técnica e materiais utilizados para o fazer), quer, ainda, para a satisfação de quem o deseja (porque nunca será possível reproduzir fielmente algo proveniente de um contexto totalmente diferente).
Muitas vezes é o próprio mercado de materiais a propor-nos soluções de imitação. Têm sempre um nome que iguala o refinado ridículo do próprio produto, do tipo “antique” ou “série vintage”. Dos mosaicos a imitar tijoleira tradicional (por vezes até com lascas nas arestas), às vigas de betão revestidas a madeira, passando pelas torneiras a imitar os modelos arcaicos - por vezes até imitam as bocas de água do tempo em que não existia água canalizada e tudo se baseava na bomba de manivela - tudo está ao nosso dispor, para que possamos ter uma série de objectos com uma cara e outro coração.
Isto fará tanto sentido como agarrar no motor de um Fórmula 1 e colocá-lo na carroceria de um “boca de sapo”. Simplesmente não pode resultar, e oferece-nos o ridículo em generosas doses.
Deixemo-nos de romantismos e saibamos amar o que os nossos dias nos oferecem. Será essa a diferença entre sentirmo-nos vivos e parte desta nave ou ultrapassados e ocupantes do seu reboque.
Não está em causa o aproveitamento de objectos (arquitectónicos ou outros) antigos - que muito saúdo, desde que recuperados na íntegra, para constituírem real testemunho de técnicas e soluções de uma época. Está em causa a produção actual de objectos que utilizam técnicas e soluções contemporâneas na imitação de estéticas obsoletas. Está, portanto em causa, a verdade dos objectos e a sua honestidade. E a atitude que poderá combater essa tendência, tem de partir dos técnicos - arquitectos e designers, na circunstância - que têm de saber propor soluções que integrem o design actual, e que o dignifiquem.
Para que se possa sentir a veracidade dos objectos.
Para que o seu charme exista, de facto, e não seja apenas algo que se desfaz com a nitidez.
Para que, por detrás de uma bela cara, esteja um grande coração.
*Esta crónica surge de uma velha conversa com o arqº João Portalete - a quem fica o agradecimento.
É inegável que os objectos de cariz rústico têm um charme especial e uma beleza muito própria. Mas é isso mesmo que se passa - são objectos muito especiais e, sobretudo, próprios. “A busca de algo não resulta na sua descoberta aparente, mas na compreensão de todas as partes que se unem para lhe dar existência.” É assim que Artur Quaayayp, no seu poema “Rostos da Vila”, nos relembra da densidade necessária à veracidade de um objecto - talvez aquilo que, nos humanos, apelidamos de alma.
Na contemplação da beleza, o olhar deve ultrapassar a forma, e perceber que a real beleza está na história por detrás de cada pormenor. Como a beleza de um beijo não reside no prazer imediato desse beijo, mas na sua conquista.
Nos tempos em que as coisas eram rústicas, os processos de fabrico dessas mesmas coisas eram muito primários, em comparação com os meios actuais. Era daí que resultava o conjunto de imperfeições e pormenores únicos que faziam de uma peça algo de rústico.
Hoje em dia, a tecnologia disponível permite um grau de perfeição e de rigor que só o futuro menosprezará. Como tal, apenas de forma falsa, se poderá introduzir peças rústicas na realidade contemporânea (excepção feita a alguns nichos da indústria, que continuam, por opção, a utilizar técnicas rudimentares e ancestrais de produção).
É que tudo tem uma razão de ser. Por exemplo: se as janelas de outrora, feitas em madeira, tinham vidrinhos pequenos, resultando num quadriculado de ripinhas, era, entre outras razões, porque a madeira corre o risco de empenar, e, ao introduzir a quadrícula, está-se a introduzir uma maior resistência a esta tendência para empenar. Que sentido fará, hoje em dia, construir janelas em alumínio ou PVC (materiais com muito menor risco de empenarem), colocar-lhes um vidro único (duplo) e, depois, introduzir-lhe umas inúteis tiras plásticas entre os vidros, apenas para imitar as antigas e lhe dar aquele aspecto rústico?
Ou, então, para quê construir chaminés de dimensões generosas, numa casa onde já não se fuma carnes?
Quanto às imperfeições dos materiais: se, por exemplo, uma tijoleira tinha cores variáveis e alguma irregularidade na sua superfície, era porque era cozida em fornos a lenha e de modo rudimentar. Que raio de ideia teve quem resolveu criar mosaicos vidrados, de construção ultra-sitematizada e industrializada, com as mesmas nuances de cor e textura, que por vezes são tão difíceis de obter com ar credível, que até encarecem o produto?
Torno a dizer: tudo tem (tinha) uma razão de ser. Se as casas tinham socos, alizares, beirados e toda uma série de elementos (cuja beleza será inegável), é porque esses elementos faziam parte de uma lógica construtiva, de uma série de procedimentos para optimizar o desempenho dos materiais e a sua durabilidade. A sua recriação de forma gratuita, por questões puramente estéticas, é absurda e desprestigiante, quer para a sanidade artistico-intelectual de uma sociedade (porque não acompanha a realidade técnica e artística), quer para a obtenção de bons resultados técnicos no produto final (porque tenta recriar situações anacrónicas da técnica e materiais utilizados para o fazer), quer, ainda, para a satisfação de quem o deseja (porque nunca será possível reproduzir fielmente algo proveniente de um contexto totalmente diferente).
Muitas vezes é o próprio mercado de materiais a propor-nos soluções de imitação. Têm sempre um nome que iguala o refinado ridículo do próprio produto, do tipo “antique” ou “série vintage”. Dos mosaicos a imitar tijoleira tradicional (por vezes até com lascas nas arestas), às vigas de betão revestidas a madeira, passando pelas torneiras a imitar os modelos arcaicos - por vezes até imitam as bocas de água do tempo em que não existia água canalizada e tudo se baseava na bomba de manivela - tudo está ao nosso dispor, para que possamos ter uma série de objectos com uma cara e outro coração.
Isto fará tanto sentido como agarrar no motor de um Fórmula 1 e colocá-lo na carroceria de um “boca de sapo”. Simplesmente não pode resultar, e oferece-nos o ridículo em generosas doses.
Deixemo-nos de romantismos e saibamos amar o que os nossos dias nos oferecem. Será essa a diferença entre sentirmo-nos vivos e parte desta nave ou ultrapassados e ocupantes do seu reboque.
Não está em causa o aproveitamento de objectos (arquitectónicos ou outros) antigos - que muito saúdo, desde que recuperados na íntegra, para constituírem real testemunho de técnicas e soluções de uma época. Está em causa a produção actual de objectos que utilizam técnicas e soluções contemporâneas na imitação de estéticas obsoletas. Está, portanto em causa, a verdade dos objectos e a sua honestidade. E a atitude que poderá combater essa tendência, tem de partir dos técnicos - arquitectos e designers, na circunstância - que têm de saber propor soluções que integrem o design actual, e que o dignifiquem.
Para que se possa sentir a veracidade dos objectos.
Para que o seu charme exista, de facto, e não seja apenas algo que se desfaz com a nitidez.
Para que, por detrás de uma bela cara, esteja um grande coração.
*Esta crónica surge de uma velha conversa com o arqº João Portalete - a quem fica o agradecimento.
23 Junho 2004
05
A propósito do conceito do belo, algumas considerações merecem ainda referência. Na crónica anterior, referi-me ao carácter circunstancial desse conceito, num contexto fundamentalmente cronológico. Mas se defendi a inovação como elemento indissociável da beleza de um objecto de design, é preciso também referir a situação geográfica e cultural, bem como todo o contexto técnico e tecnológico, no rol de variáveis a equacionar.
É importante que se entenda que esta história de inovar não constitui um processo de ruptura nem uma insolente provocação à respeitosa e respeitável tradição cultural e técnica de um local e de uma civilização.
Mas estamos sempre a tentar resolver o mesmo problema com uma constante alteração das tais variáveis. Logo, nunca a solução poderia ser a mesma.
Senão veja-se: tal como o exemplo que utilizei na semana passada, hoje em dia vamos de Lisboa a Milão em menos de três horas. Poder-se-á, então, continuar a falar de regionalismo? Claro que sim (e não tem nada a ver com o lado político, muito explorado ultimamente, do termo), desde que se entenda esse regionalismo como algo de adquirido (clima, tipo de solos, latitude e incidência solar, enquadramento geográfico, etc.). Porque o lado cultural do regionalismo tende para a fusão. Nem vale a pena tentar contrariar, porque seria remar contra a maré. Veja-se as tendências actuais da música, a título de exemplo – fado com ritmos electrónicos, cante alentejano com ritmos latinos, jazz com rock, música clássica europeia com música clássica indiana e oriental – um admirável mundo novo, que nos foi trazido pela tecnologia, e que nos permite estar em todo o lado quase em simultâneo. Pois – a tal história de Aldeia Global. Houve tempos em que Marco Pólo nos trouxe os mais fabulosos relatos de civilizações distantes e muito diferentes da nossa. Agora já podemos ver em directo qualquer acontecimento que ocorre no outro lado do globo. Há estreias, em simultâneo, em todo o planeta, de filmes e de outros produtos culturais, que outrora eram exclusivos da própria cultura que lhes dava berço.
Sejamos francos: a cultura de um povo – que alguns teimam em estagnar, como se fosse algo de intocável, é o resultado de uma eterna e constante adição, absorção e adaptação de elementos de culturas que se entrecruzaram ou se fundiram. (Ninguém por aí acha mesmo que o tradicional monte alentejano nasceu do nada, em pleno Alentejo, pois não? Aos que assim pensam, sugiro-vos uma voltinha pelo norte de Marrocos, uma breve visita a Espanha, uns pozinhos de Romanos, umas ervas Visigóticas e uns outros tantos ingredientes daqui e dali, de todas as culturas que por cá passaram e dos locais por onde os nossos avós andaram). É por isso que os apelos à manutenção das tradições culturais só fazem sentido se essa manutenção for vista como algo de dinâmico e adaptado às realidades, e não como uma estéril e estagnante repetição de modelos recolhidos de uma época escolhida (porquê aquela?) por romantismos subjectivos e muito pouco universalistas.
O problema é que nós, condicionados pela nossa relação irresoluta com a morte, achamos que a época em que vivemos congrega a sublimação de toda a evolução adquirida. Para a frente tudo terá de ficar como nós o deixarmos. A evolução é, assim, vista como algo de perverso que nos esbofeteia com a indignação da finitude humana.
É óbvio que todos temos muito orgulho na nossa própria cultura, e que a queremos preservar. Mas será que este preservar quer dizer musealizar? Veja-se o perturbante exemplo de Monsaraz: um local profundamente encantador, cujo charme epidérmico contrasta com o lento e avançado processo de putrefacção do seu âmago. É a mumificação da história.
O processo de estagnação do património só traz o aprofundamento do fosso entre o passado e o presente, constituindo, assim, uma barreira à continuidade e, consequentemente, uma negação à vitalidade e à potencialidade desse mesmo passado, recusando a sua validade no presente. A constante evolução, ao invés, afirma a legitimidade desse passado, ao tomá-lo como sólido ponto de partida para a construção de presentes e, consequentemente, de futuros.
No ano 3019, quando a humanidade já não andar por aqui, Évora será visitada por extraterrestres (vá lá… há coisas menos prováveis…). Quando saírem da sua nave, vão observar a cidade, tentando compreender a civilização que a habitava. E vão escrever, no seu diário de bordo, algo do género:
- Planeta azul, cidade de Évora, ano de 3019.
Esta cidade é magnífica, com uma série de testemunhos históricos que pressupõem a existência de várias culturas, ao longo dos tempos. Encontramos várias camadas sobrepostas, relativas a diversas ocupações, que sugerem civilizações semelhantes a outras que encontrámos noutros pontos deste planeta, sobretudo no resto desta península, em Roma e no território apelidado de Magreb. Pode-se observar magníficos exemplos da mestria construtiva, que mostram a fantástica evolução técnica, artística e social dos seus habitantes. Porém, algures durante o que os terrestres chamavam de séc. XX, deixou de haver essa evolução (ao contrário do que se verifica noutros locais do planeta), e passou-se a utilizar um mesmo modelo e técnica para a expansão de todo o território. Não se compreende as razões que levaram uma população com uma tradição de constante evolução muito marcada – que deu origem a tão notáveis exemplos – a prescindir desta busca de novas soluções, e a cair numa estagnação técnica e artística.
Será, isto, diferente da realidade? Não espantará já os mais por dentro das coisas d’arte, esta sequência de extraordinários exemplos de épocas e culturas tão diversas como a Romana, a Magrebina, a Românica, a Gótica, a Renascentista, a Barroca, e por aí fora, até nos atolarmos no reino das infindáveis repetições do Monte-Alentejano-versão-Casa-Cláudia? Olhemos bem à nossa volta, e veremos que, salvo o extraordinário exemplo do Bairro da Malagueira (vá, batam-me lá) e de mais uma ou duas pequenas excepções, nada de realmente novo foi feito nesta cidade nos últimos anos (leia-se décadas). Mas vejam que (a propósito do bairro citado) nem interessa tanto se se gosta da Malagueira ou não. Interessa que é uma intervenção que constitui uma interpretação inovadora e progressista da realidade eborense, servindo (mesmo que, eventualmente, fosse pelos ensinamentos que se colhem de um mau exemplo), para dar um passo em frente e participar na evolução.
Alguns há que falam em descaracterização da cidade ao, por exemplo, se trocar os velhos candeeiros públicos (eles próprios já a imitarem as velhas lamparinas a azeite) por outros de traça moderna. Seriam os crono-homólogos desses mensageiros da boa velha a, em tempos idos, se insurgirem contra a introdução de luz eléctrica nos espaços públicos – porque retiravam o tal carácter tradicional e mais o aqui d’el rei do costume.
É sobejamente conhecida a frase “isto no meu tempo é que era”. Faço de novo um apelo a algum psicólogo que por aí ande, que possa explicar que esse é um fenómeno de associação emocional de uma conjuntura social e universal a uma condição pessoal. É óbvio que as coisas que pertencem ao tempo em que se tinha 16 anos parecem sempre melhores aos homens de 60. Não por serem realmente melhores, mas por neles estarem inconscientemente associadas à vitalidade e jovialidade de que gozavam, há 44 anos atrás.
Um dos mais difíceis exercícios de postura na vida em sociedade será a constante lucidez social de que devemos gozar constantemente, e que não deve ser manipulada por romantismos pessoais. Perceber o que deverá ser o caminho da sociedade, sem ceder a caprichos próprios e a lirismos saudosistas.
Por isso, sem menosprezar a importância do papel dos conservadores (no refrear de investidas histéricas, para impedir os extremismos), impõe-se um grito pelo progresso e pela inovação, sabendo que só assim estamos a respeitar o legado dos nossos antepassados, já que este se constitui de sucessivas inovações e progressos, ao longo de toda a história. Não se trata de romper com o que eles fizeram. Trata-se de continuar a sua obra.
A tradição não é a forma, nem a solução, nem a técnica. É a atitude. E a atitude do ser humano na Terra tem sido a experimentação, o arrojo, a inovação, o progresso. Continuar por esse caminho é a única forma de manter viva a tradição.
É importante que se entenda que esta história de inovar não constitui um processo de ruptura nem uma insolente provocação à respeitosa e respeitável tradição cultural e técnica de um local e de uma civilização.
Mas estamos sempre a tentar resolver o mesmo problema com uma constante alteração das tais variáveis. Logo, nunca a solução poderia ser a mesma.
Senão veja-se: tal como o exemplo que utilizei na semana passada, hoje em dia vamos de Lisboa a Milão em menos de três horas. Poder-se-á, então, continuar a falar de regionalismo? Claro que sim (e não tem nada a ver com o lado político, muito explorado ultimamente, do termo), desde que se entenda esse regionalismo como algo de adquirido (clima, tipo de solos, latitude e incidência solar, enquadramento geográfico, etc.). Porque o lado cultural do regionalismo tende para a fusão. Nem vale a pena tentar contrariar, porque seria remar contra a maré. Veja-se as tendências actuais da música, a título de exemplo – fado com ritmos electrónicos, cante alentejano com ritmos latinos, jazz com rock, música clássica europeia com música clássica indiana e oriental – um admirável mundo novo, que nos foi trazido pela tecnologia, e que nos permite estar em todo o lado quase em simultâneo. Pois – a tal história de Aldeia Global. Houve tempos em que Marco Pólo nos trouxe os mais fabulosos relatos de civilizações distantes e muito diferentes da nossa. Agora já podemos ver em directo qualquer acontecimento que ocorre no outro lado do globo. Há estreias, em simultâneo, em todo o planeta, de filmes e de outros produtos culturais, que outrora eram exclusivos da própria cultura que lhes dava berço.
Sejamos francos: a cultura de um povo – que alguns teimam em estagnar, como se fosse algo de intocável, é o resultado de uma eterna e constante adição, absorção e adaptação de elementos de culturas que se entrecruzaram ou se fundiram. (Ninguém por aí acha mesmo que o tradicional monte alentejano nasceu do nada, em pleno Alentejo, pois não? Aos que assim pensam, sugiro-vos uma voltinha pelo norte de Marrocos, uma breve visita a Espanha, uns pozinhos de Romanos, umas ervas Visigóticas e uns outros tantos ingredientes daqui e dali, de todas as culturas que por cá passaram e dos locais por onde os nossos avós andaram). É por isso que os apelos à manutenção das tradições culturais só fazem sentido se essa manutenção for vista como algo de dinâmico e adaptado às realidades, e não como uma estéril e estagnante repetição de modelos recolhidos de uma época escolhida (porquê aquela?) por romantismos subjectivos e muito pouco universalistas.
O problema é que nós, condicionados pela nossa relação irresoluta com a morte, achamos que a época em que vivemos congrega a sublimação de toda a evolução adquirida. Para a frente tudo terá de ficar como nós o deixarmos. A evolução é, assim, vista como algo de perverso que nos esbofeteia com a indignação da finitude humana.
É óbvio que todos temos muito orgulho na nossa própria cultura, e que a queremos preservar. Mas será que este preservar quer dizer musealizar? Veja-se o perturbante exemplo de Monsaraz: um local profundamente encantador, cujo charme epidérmico contrasta com o lento e avançado processo de putrefacção do seu âmago. É a mumificação da história.
O processo de estagnação do património só traz o aprofundamento do fosso entre o passado e o presente, constituindo, assim, uma barreira à continuidade e, consequentemente, uma negação à vitalidade e à potencialidade desse mesmo passado, recusando a sua validade no presente. A constante evolução, ao invés, afirma a legitimidade desse passado, ao tomá-lo como sólido ponto de partida para a construção de presentes e, consequentemente, de futuros.
No ano 3019, quando a humanidade já não andar por aqui, Évora será visitada por extraterrestres (vá lá… há coisas menos prováveis…). Quando saírem da sua nave, vão observar a cidade, tentando compreender a civilização que a habitava. E vão escrever, no seu diário de bordo, algo do género:
- Planeta azul, cidade de Évora, ano de 3019.
Esta cidade é magnífica, com uma série de testemunhos históricos que pressupõem a existência de várias culturas, ao longo dos tempos. Encontramos várias camadas sobrepostas, relativas a diversas ocupações, que sugerem civilizações semelhantes a outras que encontrámos noutros pontos deste planeta, sobretudo no resto desta península, em Roma e no território apelidado de Magreb. Pode-se observar magníficos exemplos da mestria construtiva, que mostram a fantástica evolução técnica, artística e social dos seus habitantes. Porém, algures durante o que os terrestres chamavam de séc. XX, deixou de haver essa evolução (ao contrário do que se verifica noutros locais do planeta), e passou-se a utilizar um mesmo modelo e técnica para a expansão de todo o território. Não se compreende as razões que levaram uma população com uma tradição de constante evolução muito marcada – que deu origem a tão notáveis exemplos – a prescindir desta busca de novas soluções, e a cair numa estagnação técnica e artística.
Será, isto, diferente da realidade? Não espantará já os mais por dentro das coisas d’arte, esta sequência de extraordinários exemplos de épocas e culturas tão diversas como a Romana, a Magrebina, a Românica, a Gótica, a Renascentista, a Barroca, e por aí fora, até nos atolarmos no reino das infindáveis repetições do Monte-Alentejano-versão-Casa-Cláudia? Olhemos bem à nossa volta, e veremos que, salvo o extraordinário exemplo do Bairro da Malagueira (vá, batam-me lá) e de mais uma ou duas pequenas excepções, nada de realmente novo foi feito nesta cidade nos últimos anos (leia-se décadas). Mas vejam que (a propósito do bairro citado) nem interessa tanto se se gosta da Malagueira ou não. Interessa que é uma intervenção que constitui uma interpretação inovadora e progressista da realidade eborense, servindo (mesmo que, eventualmente, fosse pelos ensinamentos que se colhem de um mau exemplo), para dar um passo em frente e participar na evolução.
Alguns há que falam em descaracterização da cidade ao, por exemplo, se trocar os velhos candeeiros públicos (eles próprios já a imitarem as velhas lamparinas a azeite) por outros de traça moderna. Seriam os crono-homólogos desses mensageiros da boa velha a, em tempos idos, se insurgirem contra a introdução de luz eléctrica nos espaços públicos – porque retiravam o tal carácter tradicional e mais o aqui d’el rei do costume.
É sobejamente conhecida a frase “isto no meu tempo é que era”. Faço de novo um apelo a algum psicólogo que por aí ande, que possa explicar que esse é um fenómeno de associação emocional de uma conjuntura social e universal a uma condição pessoal. É óbvio que as coisas que pertencem ao tempo em que se tinha 16 anos parecem sempre melhores aos homens de 60. Não por serem realmente melhores, mas por neles estarem inconscientemente associadas à vitalidade e jovialidade de que gozavam, há 44 anos atrás.
Um dos mais difíceis exercícios de postura na vida em sociedade será a constante lucidez social de que devemos gozar constantemente, e que não deve ser manipulada por romantismos pessoais. Perceber o que deverá ser o caminho da sociedade, sem ceder a caprichos próprios e a lirismos saudosistas.
Por isso, sem menosprezar a importância do papel dos conservadores (no refrear de investidas histéricas, para impedir os extremismos), impõe-se um grito pelo progresso e pela inovação, sabendo que só assim estamos a respeitar o legado dos nossos antepassados, já que este se constitui de sucessivas inovações e progressos, ao longo de toda a história. Não se trata de romper com o que eles fizeram. Trata-se de continuar a sua obra.
A tradição não é a forma, nem a solução, nem a técnica. É a atitude. E a atitude do ser humano na Terra tem sido a experimentação, o arrojo, a inovação, o progresso. Continuar por esse caminho é a única forma de manter viva a tradição.
16 Junho 2004
04
De regresso ao papel do arquitecto no processo construtivo e de criação dos tais cenários de vida, a que aludi anteriormente, debrucemo-nos hoje sobre uma das vertentes (porventura a mais volátil) da fase criativa do trabalho daqueles profissionais. Esta fase poder-se-á conotar com a génese de todo o processo subsequente.
Mas não se julgue que o processo criativo constitui uma espécie de histeria idealista do artista. (Antes de mais relembro que, tal como referi numa crónica passada, o trabalho é, a meu ver, composto dos tais 20% de inspiração e 80% de transpiração).
Assim que se dá início ao processo intelectual e artístico que precede e acompanha um projecto de arquitectura, acontece, ao contrário do que se passa com outras artes “mais puras” (tais como a pintura, a escultura, a música, etc.), um fenómeno de espartilhamento da explosão criativa: há uma série de condicionantes – de ordem legal, jurídica, técnica, cultural e em tudo circunstancial – que proporcionam, ao arquitecto, um campo de acção bem mais restrito daquilo que se pode e tende a julgar. Basta pensar que um projecto, ao contrário de um quadro, por exemplo e na maioria dos casos, é para um cliente específico, que já tem uma noção muito precisa (por vezes até demasiado formalista) do que pretende como objecto final. Mesmo nos casos em que isto possa não acontecer (como nas obras públicas, ou nos clientes mais arrojados), há sempre os planos municipais, os regulamentos de construção, as condicionantes técnicas, os impiedosos limites orçamentais, as restrições de oferta do mercado (nos materiais e na mão de obra), as características morfológicas e paisagísticas da área de intervenção, e toda uma série de limites máximos ou mínimos que se sobrepõem à magia da folha branca por riscar.
Uma vez conhecidos os ingredientes, pode o cozinheiro dar início à confecção.
É aí que entra em jogo o talento e a criatividade do artista/técnico – artista para saber refinar a exequibilidade da peça sem que ela perca o poder de fascínio em prol da simplificação de execução; técnico para saber dar solidez abrangente aos mais arrojados desafios criativos.
Como bem nos ensina a forma do próprio planeta em que vivemos, pode partir-se de um mesmo local em qualquer direcção e chegar-se a um qualquer outro ponto, tomando um qualquer rumo. Como decidir, então, qual a estrada a tomar? Ora, se é verdade que todas as condicionantes atrás referidas têm um carácter restritivo, também se pode dizer que, ao estreitar o ângulo de visão, elas podem fornecer pistas e desafios que contribuem para o sucesso das opções escolhidas. Um pouco como a técnica do Aikido, em que a força do adversário se converte em poder próprio. Portanto, uma situação desfavorável, pode ser um bom ponto de partida para uma abordagem interessante. Muitos casos há em que, mercê de contextos (físicos, geográficos, culturais, legais, etc) constrangedores, bons projectos e obras são conseguidos – já que estamos em tempo de bola, veja-se o magnífico exemplo do estádio de Braga, com uma brilhante adaptação a um contexto que, a priori, se revela, no mínimo, diferente do normal e do ideal para um estádio de futebol.
Porém, mesmo depois de tudo isto, sobrevém inevitavelmente o íntimo do arquitecto. É ele que, condicionado e condimentado por todos estes ingredientes, vai dar o corpo à alma concebida. Cuore, cazzo, cervello – (ccc) ensinaram-me na faculdade de arquitectura de Milão – são os três ingredientes indissociáveis à actividade de um criador, de um arquitecto em particular. Coração, cérebro, coragem (utilizando um eufemismo, mais pudico do que o termo aplicado pela franqueza dos italianos) aludem às três componentes humanas a utilizar. Ou, se se quiser, a paixão do acto criativo, associada à coragem de grandes voos, consolidada pela inteligência que permitirá o bom termo desses impulsos.
Mas é claro que toda esta subjectividade permite, ainda e saudavelmente, vários resultados a partir dos mesmos pressupostos. Toda a “conspiração” intelectual produzida pelo arquitecto está, em último grau, dependente de um derradeiro critério, de ordem estética: o conceito do belo.
É aqui que a porca torce o rabo! Que história é esta do belo? O que é que faz de uma coisa algo de belo e de outra algo que não o é considerado?
Ora, todos nós sabemos que o conceito do belo se alterou ao longo dos tempos – veja-se as pinturas das senhoras belas do período barroco (longe de qualquer nutricionista) e, em seguida, pense-se em quantas modelos da actualidade se poderia fazer apenas com a camada adiposa de uma dessas senhoras…
Como esse próprio conceito de belo é tão flutuante (quase paradoxal, no seu evoluir), será que se pode realmente afirmar que algo é belo? Sê-lo-á se, no seu tempo e cultura, estiver de acordo com os cânones e parâmetros vigentes. Mas esses parâmetros estão em constante mutação milimétrica (ou não sofreriam grandes alterações, quando os observamos ao longo dos tempos) – tal como as modas (de vestuário, de penteados, de comportamentos, de inclinações sociais, etc.). E essas modas são inventadas por experimentalistas, como não podia deixar de ser (se hoje vamos de Lisboa a Milão em menos de três horas, é porque algum “maluquinho” se lembrou que o homem podia voar – e foi feito). São esses visionários que, numa generosa epopeia de procura, nos facultam novos mundos com, claro está, novos belos.
Nesse sentido, apenas poderemos considerar como belo o que está de acordo com a própria época. Mas se, como foi dito, a digna intervenção artística visa a constante actualização do conceito de belo, apenas poderemos, então, considerar como belo aquilo que foge (ainda que milimetricamente) da intelectual e artisticamente pobre repetição do existente. Ou seja: apenas será belo o que inova.
Todos os desejos de possuir objectos de beleza instituída são compreensíveis. Sobretudo quando são manifestados por pessoas sem compromissos para com as coisas d’arte deste mundo (se é que alguém se pode esquivar a esta responsabilidade). Mas eles também são estagnantes e desprovidos de contributo para a evolução da humanidade e da civilização a que pertencemos.
A arquitectura fornece os cenários para a vida. Sabendo que a vida quotidiana está em constante mutação e evolução, caberá à arquitectura (e ao design, em sentido lato), não só acompanhar essa evolução, mas precedê-la, dando-lhe espaço para acontecer.
Por isso, só pode ser condenável a repetição de arquétipos e a multiplicação de fenómenos semelhantes.
Por isso só pode ser louvável a inovação e a busca de novos conceitos e soluções.
Tudo para o mesmo eterno problema, que apenas se nos apresenta de forma diversa, todos os dias – o da vida.
Mas não se julgue que o processo criativo constitui uma espécie de histeria idealista do artista. (Antes de mais relembro que, tal como referi numa crónica passada, o trabalho é, a meu ver, composto dos tais 20% de inspiração e 80% de transpiração).
Assim que se dá início ao processo intelectual e artístico que precede e acompanha um projecto de arquitectura, acontece, ao contrário do que se passa com outras artes “mais puras” (tais como a pintura, a escultura, a música, etc.), um fenómeno de espartilhamento da explosão criativa: há uma série de condicionantes – de ordem legal, jurídica, técnica, cultural e em tudo circunstancial – que proporcionam, ao arquitecto, um campo de acção bem mais restrito daquilo que se pode e tende a julgar. Basta pensar que um projecto, ao contrário de um quadro, por exemplo e na maioria dos casos, é para um cliente específico, que já tem uma noção muito precisa (por vezes até demasiado formalista) do que pretende como objecto final. Mesmo nos casos em que isto possa não acontecer (como nas obras públicas, ou nos clientes mais arrojados), há sempre os planos municipais, os regulamentos de construção, as condicionantes técnicas, os impiedosos limites orçamentais, as restrições de oferta do mercado (nos materiais e na mão de obra), as características morfológicas e paisagísticas da área de intervenção, e toda uma série de limites máximos ou mínimos que se sobrepõem à magia da folha branca por riscar.
Uma vez conhecidos os ingredientes, pode o cozinheiro dar início à confecção.
É aí que entra em jogo o talento e a criatividade do artista/técnico – artista para saber refinar a exequibilidade da peça sem que ela perca o poder de fascínio em prol da simplificação de execução; técnico para saber dar solidez abrangente aos mais arrojados desafios criativos.
Como bem nos ensina a forma do próprio planeta em que vivemos, pode partir-se de um mesmo local em qualquer direcção e chegar-se a um qualquer outro ponto, tomando um qualquer rumo. Como decidir, então, qual a estrada a tomar? Ora, se é verdade que todas as condicionantes atrás referidas têm um carácter restritivo, também se pode dizer que, ao estreitar o ângulo de visão, elas podem fornecer pistas e desafios que contribuem para o sucesso das opções escolhidas. Um pouco como a técnica do Aikido, em que a força do adversário se converte em poder próprio. Portanto, uma situação desfavorável, pode ser um bom ponto de partida para uma abordagem interessante. Muitos casos há em que, mercê de contextos (físicos, geográficos, culturais, legais, etc) constrangedores, bons projectos e obras são conseguidos – já que estamos em tempo de bola, veja-se o magnífico exemplo do estádio de Braga, com uma brilhante adaptação a um contexto que, a priori, se revela, no mínimo, diferente do normal e do ideal para um estádio de futebol.
Porém, mesmo depois de tudo isto, sobrevém inevitavelmente o íntimo do arquitecto. É ele que, condicionado e condimentado por todos estes ingredientes, vai dar o corpo à alma concebida. Cuore, cazzo, cervello – (ccc) ensinaram-me na faculdade de arquitectura de Milão – são os três ingredientes indissociáveis à actividade de um criador, de um arquitecto em particular. Coração, cérebro, coragem (utilizando um eufemismo, mais pudico do que o termo aplicado pela franqueza dos italianos) aludem às três componentes humanas a utilizar. Ou, se se quiser, a paixão do acto criativo, associada à coragem de grandes voos, consolidada pela inteligência que permitirá o bom termo desses impulsos.
Mas é claro que toda esta subjectividade permite, ainda e saudavelmente, vários resultados a partir dos mesmos pressupostos. Toda a “conspiração” intelectual produzida pelo arquitecto está, em último grau, dependente de um derradeiro critério, de ordem estética: o conceito do belo.
É aqui que a porca torce o rabo! Que história é esta do belo? O que é que faz de uma coisa algo de belo e de outra algo que não o é considerado?
Ora, todos nós sabemos que o conceito do belo se alterou ao longo dos tempos – veja-se as pinturas das senhoras belas do período barroco (longe de qualquer nutricionista) e, em seguida, pense-se em quantas modelos da actualidade se poderia fazer apenas com a camada adiposa de uma dessas senhoras…
Como esse próprio conceito de belo é tão flutuante (quase paradoxal, no seu evoluir), será que se pode realmente afirmar que algo é belo? Sê-lo-á se, no seu tempo e cultura, estiver de acordo com os cânones e parâmetros vigentes. Mas esses parâmetros estão em constante mutação milimétrica (ou não sofreriam grandes alterações, quando os observamos ao longo dos tempos) – tal como as modas (de vestuário, de penteados, de comportamentos, de inclinações sociais, etc.). E essas modas são inventadas por experimentalistas, como não podia deixar de ser (se hoje vamos de Lisboa a Milão em menos de três horas, é porque algum “maluquinho” se lembrou que o homem podia voar – e foi feito). São esses visionários que, numa generosa epopeia de procura, nos facultam novos mundos com, claro está, novos belos.
Nesse sentido, apenas poderemos considerar como belo o que está de acordo com a própria época. Mas se, como foi dito, a digna intervenção artística visa a constante actualização do conceito de belo, apenas poderemos, então, considerar como belo aquilo que foge (ainda que milimetricamente) da intelectual e artisticamente pobre repetição do existente. Ou seja: apenas será belo o que inova.
Todos os desejos de possuir objectos de beleza instituída são compreensíveis. Sobretudo quando são manifestados por pessoas sem compromissos para com as coisas d’arte deste mundo (se é que alguém se pode esquivar a esta responsabilidade). Mas eles também são estagnantes e desprovidos de contributo para a evolução da humanidade e da civilização a que pertencemos.
A arquitectura fornece os cenários para a vida. Sabendo que a vida quotidiana está em constante mutação e evolução, caberá à arquitectura (e ao design, em sentido lato), não só acompanhar essa evolução, mas precedê-la, dando-lhe espaço para acontecer.
Por isso, só pode ser condenável a repetição de arquétipos e a multiplicação de fenómenos semelhantes.
Por isso só pode ser louvável a inovação e a busca de novos conceitos e soluções.
Tudo para o mesmo eterno problema, que apenas se nos apresenta de forma diversa, todos os dias – o da vida.
09 Junho 2004
03
O João era um rapaz, como tantos outros, que morava em Chora-que-logo-bebes. Mas, contrariamente aos seus conterrâneos, os chora-que-logo-bebenses, o João achou que o muro que circundava a sua aldeia era, ao contrário das crenças predominantes, transponível. Leu com arrojo o cartaz que topejava a sólida barreira, proibindo a entrada no bosque por ela delimitado a quem não andasse espantado por existir, e lançou-se para o outro lado.
O João - o sem medo - cuja história nos foi contada pela fértil imaginação do José – o Gomes Ferreira - deve ter ficado do outro lado do muro, deixando os chora-que-logo-bebenses a enxugar os olhos, por entre críticas rancorosas à situação em que vivem (e da qual se consideram infelizes vítimas injustiçadas) e manobras de evasão ao eficaz combate da perpetuação dessa situação (que comodamente praticam).
Bem sei que deveria estar, tal como havia anunciado para as primeiras edições destas crónicas, a tentar clarificar o papel do arquitecto no contexto da concepção e construção de espaços e objectos urbanos e arquitectónicos. Muito há, ainda, para dizer sobre este assunto, antes de passar a outras não menos importantes considerações sobre as questões da arquitectura. Mas permitam-me um breve parentesis, para uma reflexão sobre um tema emergente, que tem dominado as atenções, ao longo dos últimos dias. Refiro-me à questão das alterações do preço do petróleo, e a todo o burburinho, pânico e indignação resultantes de situações desta índole.
Desde há uma eternidade (demasiado perigosa para a sustentabilidade deste planeta) que a humanidade baseia toda a sua actividade (há que dizê-lo assim) num único produto – o petróleo. Basear a actividade de toda uma espécie num só produto (e seus derivados), de quantidades finitas, parece muito pouco inteligente. Quando constatamos que esse produto, nas suas diferentes fases - extracção, transformação, utilização, decomposição e existência residual - constitui uma fonte (aí sim, quase inesgotável) de poluição, esta opção, que apelidei de pouco inteligente, ganha o estatuto de aberração intelectual.
Mas reportemo-nos ao universo da construção, até porque é desses assuntos que aqui se trata. A esmagadora maioria dos produtos utilizados na construção contemporânea é descendente (nalgum grau) do petróleo. Sejam os produtos dele directamente resultantes (betumes, tintas, vernizes, colas, etc), sejam os que utilizam a energia por ele produzida, na sua fabricação (cimento, tijolos cozidos, pré-fabricados, etc), sejam, ainda, os que são transportados e aplicados por veículos e máquinas que funcionam com combustíveis derivados do petróleo, pode dizer-se que o ouro negro está omnipresente, de forma algo kafkiana, na totalidade da construção convencional contemporânea.
Ora, tal como alguns dos meus leitores terão tido a oportunidade de constatar, ao visitar a exposição e as conferências que tive o prazer de organizar em Évora, no passado mês de Maio (que tinha o título de “A terra na arquitectura”, foi promovida pela Associação Centro da Terra e teve o apoio do Diário do Sul, entre outros), existe uma coisa, a que se chama construção em terra. A construção em terra - sobre a qual tive a oportunidade de escrever alguns artigos neste D. Quixote, a propósito da referida exposição - não é mais do que a utilização de terra crua (não cozida nem transformada) em edifícios e estruturas urbanas, e que permite praticamente qualquer solução arquitectónica, requerendo apenas bons conhecimentos técnicos da equipa (projectistas e construtores) interveniente. É utilizada desde há milénios e está entre as primeiras soluções da humanidade para a questão da habitação e do abrigo. Por utilizar o material que está disponível no próprio local da construção, é eliminada do processo uma quantidade considerável de energia requerida e de poluição produzida.
Senão, veja-se: não se fabrica o material que se vai utilizar na construção das paredes, porque ele já existe; não se transporta esse mesmo material, porque ele já lá está; não se utiliza produtos industriais no isolamento, porque a terra já cumpre essa função; não se produz resíduos de obra, porque a terra sobrante fica onde estava; não se cria estruturas poluentes, porque as paredes em terra são recicláveis, podendo utilizar-se a mesma terra na construção de inúmeros edifícios; não se utiliza maquinaria (poluente no seu funcionamento, assim como na sua produção) na climatização, uma vez que as paredes em terra desempenham esse papel; não se promove a desenfreada construção/demolição/construção de edifícios, uma vez que a terra tem uma duração incrivelmente superior à dos materiais industriais, nomeadamente à do betão. Avalie-se este panorama e constate-se a avassaladora redução de gastos energéticos e diminuição de produção de poluição que constitui a construção em terra – a montante, na fabricação e transporte de materiais; a jusante, na aplicação, desempenho, durabilidade e reciclagem desses mesmos materiais.
Por tudo isto, percebe-se facilmente que por aí haja alguns senhores que se enervem bastante com esta história da construção em terra. Se vos disser que um edifício em terra pode ser ainda mais económico (tanto na sua construção como na sua manutenção a longo prazo) do que um edifício dito convencional, então vão perceber que esses senhores chegarão a espumar dos cantos da boca, cada vez que ouvem falar de argila (será na sequência pós-traumática dessas emanações de líquidos bocais, que eles vêm a público dizer barbaridades, como, por exemplo, que caiu tudo no terramoto de Vila-Nova-de-Não-sei-onde porque era tudo construído em terra, sem terem a dignidade de ressalvarem que essa mesma vila tinha sido construída há centenas de anos e resistira, ao longo dos tempos, a dezenas de terramotos sem ter caído, por vezes em situações em que os edifícios em betão caíram). Há interesses demasiado grandes a ser protegidos. E não há nada como espalhar boatos pelos meandros do compreensível desconhecimento dos comuns mortais, no que diz respeito a estas matérias, para dissuadir esses nossos semelhantes de optarem por soluções passíveis de danificar monopólios consolidados - vejam bem, senhores, que até se diz por aí que nas casas em taipa há ratos nas paredes... (terá sido nisso que pensaram os membros da casa real quando construíram, em pleno território de pedra calcária, um palácio magnífico - o de Vila Viçosa – todo em taipa?
O João do José, se vivesse no nosso Chora-que-logo-bebes, já se teria fartado deste trilho, e teria deixado o rebanho adormecido, para ver o que é que podia fazer pela vidinha.
Eu cá, só não percebo este aparente (digam-me, se estiver errado) marasmo paradoxal: ninguém está contente com o mundo em que vivemos, mas ninguém quer fazer nada de forma diferente da já usada pelos outros. Poder-se-á, assim, sonhar com uma real evolução? Que futuro esperar? Por onde andas, João?
Vivemos um momento especial, em que a União Europeia sofreu o maior alargamento de sempre e em que estão à porta as eleições para o Parlamento Europeu. Politiquices à parte (que isso para aqui não interessa), este é um momento crucial para que a Europa, que pomposamente se auto-designa por “velho continente”, ganhe a noção real de identidade e de personalidade própria (passe a redundância) em certas matérias. Ao contrário dos continentes americano, asiático e oceânico, a Europa não tem grandes quantidades de petróleo; ao contrário do continente africano, a Europa não tem uma impossibilidade económica e estrutural de investir na investigação, ciência e experimentação. A Europa é a pátria de mentes e inventores tão fabulosos e sofisticados como Leonardo, Volta, Curie, Newton e tantos outros. Porque não investir na investigação e experimentação de sistemas energéticos alternativos? - ao nível da construção, como da energia propriamente dita. Há quem o faça, muitas vezes às suas próprias custas.
Das questões da ecologia na construção falar-se-á em futuras crónicas.
Para já fica a referência ao magnífico sistema de construção em terra, de que tornarei, também, a falar.
Para já fica esta solicitação ao arrojo europeu, absorvido, em parte, pela vanguarda americana.
Para já fica este apelo: leva-nos contigo, João!
O João - o sem medo - cuja história nos foi contada pela fértil imaginação do José – o Gomes Ferreira - deve ter ficado do outro lado do muro, deixando os chora-que-logo-bebenses a enxugar os olhos, por entre críticas rancorosas à situação em que vivem (e da qual se consideram infelizes vítimas injustiçadas) e manobras de evasão ao eficaz combate da perpetuação dessa situação (que comodamente praticam).
Bem sei que deveria estar, tal como havia anunciado para as primeiras edições destas crónicas, a tentar clarificar o papel do arquitecto no contexto da concepção e construção de espaços e objectos urbanos e arquitectónicos. Muito há, ainda, para dizer sobre este assunto, antes de passar a outras não menos importantes considerações sobre as questões da arquitectura. Mas permitam-me um breve parentesis, para uma reflexão sobre um tema emergente, que tem dominado as atenções, ao longo dos últimos dias. Refiro-me à questão das alterações do preço do petróleo, e a todo o burburinho, pânico e indignação resultantes de situações desta índole.
Desde há uma eternidade (demasiado perigosa para a sustentabilidade deste planeta) que a humanidade baseia toda a sua actividade (há que dizê-lo assim) num único produto – o petróleo. Basear a actividade de toda uma espécie num só produto (e seus derivados), de quantidades finitas, parece muito pouco inteligente. Quando constatamos que esse produto, nas suas diferentes fases - extracção, transformação, utilização, decomposição e existência residual - constitui uma fonte (aí sim, quase inesgotável) de poluição, esta opção, que apelidei de pouco inteligente, ganha o estatuto de aberração intelectual.
Mas reportemo-nos ao universo da construção, até porque é desses assuntos que aqui se trata. A esmagadora maioria dos produtos utilizados na construção contemporânea é descendente (nalgum grau) do petróleo. Sejam os produtos dele directamente resultantes (betumes, tintas, vernizes, colas, etc), sejam os que utilizam a energia por ele produzida, na sua fabricação (cimento, tijolos cozidos, pré-fabricados, etc), sejam, ainda, os que são transportados e aplicados por veículos e máquinas que funcionam com combustíveis derivados do petróleo, pode dizer-se que o ouro negro está omnipresente, de forma algo kafkiana, na totalidade da construção convencional contemporânea.
Ora, tal como alguns dos meus leitores terão tido a oportunidade de constatar, ao visitar a exposição e as conferências que tive o prazer de organizar em Évora, no passado mês de Maio (que tinha o título de “A terra na arquitectura”, foi promovida pela Associação Centro da Terra e teve o apoio do Diário do Sul, entre outros), existe uma coisa, a que se chama construção em terra. A construção em terra - sobre a qual tive a oportunidade de escrever alguns artigos neste D. Quixote, a propósito da referida exposição - não é mais do que a utilização de terra crua (não cozida nem transformada) em edifícios e estruturas urbanas, e que permite praticamente qualquer solução arquitectónica, requerendo apenas bons conhecimentos técnicos da equipa (projectistas e construtores) interveniente. É utilizada desde há milénios e está entre as primeiras soluções da humanidade para a questão da habitação e do abrigo. Por utilizar o material que está disponível no próprio local da construção, é eliminada do processo uma quantidade considerável de energia requerida e de poluição produzida.
Senão, veja-se: não se fabrica o material que se vai utilizar na construção das paredes, porque ele já existe; não se transporta esse mesmo material, porque ele já lá está; não se utiliza produtos industriais no isolamento, porque a terra já cumpre essa função; não se produz resíduos de obra, porque a terra sobrante fica onde estava; não se cria estruturas poluentes, porque as paredes em terra são recicláveis, podendo utilizar-se a mesma terra na construção de inúmeros edifícios; não se utiliza maquinaria (poluente no seu funcionamento, assim como na sua produção) na climatização, uma vez que as paredes em terra desempenham esse papel; não se promove a desenfreada construção/demolição/construção de edifícios, uma vez que a terra tem uma duração incrivelmente superior à dos materiais industriais, nomeadamente à do betão. Avalie-se este panorama e constate-se a avassaladora redução de gastos energéticos e diminuição de produção de poluição que constitui a construção em terra – a montante, na fabricação e transporte de materiais; a jusante, na aplicação, desempenho, durabilidade e reciclagem desses mesmos materiais.
Por tudo isto, percebe-se facilmente que por aí haja alguns senhores que se enervem bastante com esta história da construção em terra. Se vos disser que um edifício em terra pode ser ainda mais económico (tanto na sua construção como na sua manutenção a longo prazo) do que um edifício dito convencional, então vão perceber que esses senhores chegarão a espumar dos cantos da boca, cada vez que ouvem falar de argila (será na sequência pós-traumática dessas emanações de líquidos bocais, que eles vêm a público dizer barbaridades, como, por exemplo, que caiu tudo no terramoto de Vila-Nova-de-Não-sei-onde porque era tudo construído em terra, sem terem a dignidade de ressalvarem que essa mesma vila tinha sido construída há centenas de anos e resistira, ao longo dos tempos, a dezenas de terramotos sem ter caído, por vezes em situações em que os edifícios em betão caíram). Há interesses demasiado grandes a ser protegidos. E não há nada como espalhar boatos pelos meandros do compreensível desconhecimento dos comuns mortais, no que diz respeito a estas matérias, para dissuadir esses nossos semelhantes de optarem por soluções passíveis de danificar monopólios consolidados - vejam bem, senhores, que até se diz por aí que nas casas em taipa há ratos nas paredes... (terá sido nisso que pensaram os membros da casa real quando construíram, em pleno território de pedra calcária, um palácio magnífico - o de Vila Viçosa – todo em taipa?
O João do José, se vivesse no nosso Chora-que-logo-bebes, já se teria fartado deste trilho, e teria deixado o rebanho adormecido, para ver o que é que podia fazer pela vidinha.
Eu cá, só não percebo este aparente (digam-me, se estiver errado) marasmo paradoxal: ninguém está contente com o mundo em que vivemos, mas ninguém quer fazer nada de forma diferente da já usada pelos outros. Poder-se-á, assim, sonhar com uma real evolução? Que futuro esperar? Por onde andas, João?
Vivemos um momento especial, em que a União Europeia sofreu o maior alargamento de sempre e em que estão à porta as eleições para o Parlamento Europeu. Politiquices à parte (que isso para aqui não interessa), este é um momento crucial para que a Europa, que pomposamente se auto-designa por “velho continente”, ganhe a noção real de identidade e de personalidade própria (passe a redundância) em certas matérias. Ao contrário dos continentes americano, asiático e oceânico, a Europa não tem grandes quantidades de petróleo; ao contrário do continente africano, a Europa não tem uma impossibilidade económica e estrutural de investir na investigação, ciência e experimentação. A Europa é a pátria de mentes e inventores tão fabulosos e sofisticados como Leonardo, Volta, Curie, Newton e tantos outros. Porque não investir na investigação e experimentação de sistemas energéticos alternativos? - ao nível da construção, como da energia propriamente dita. Há quem o faça, muitas vezes às suas próprias custas.
Das questões da ecologia na construção falar-se-á em futuras crónicas.
Para já fica a referência ao magnífico sistema de construção em terra, de que tornarei, também, a falar.
Para já fica esta solicitação ao arrojo europeu, absorvido, em parte, pela vanguarda americana.
Para já fica este apelo: leva-nos contigo, João!
02 Junho 2004
02
Na tentativa de clarificar o papel do arquitecto no processo que leva à construção de um objecto arquitectónico ou urbanístico, é fundamental compreender-se o campo de acção destes profissionais.
De facto, e graças ao famigerado 73 / 73 (número do artigo que define quem pode subescrever projectos de arquitectura, e quais as habilitações necessárias para o fazer), muitos outros profissionais, para além dos arquitectos, podem entregar (legitimamente e sem recurso às tão lusitanas “variantes às estradas principais”) projectos de arquitectura, desde que estes não correspondam a obras a ter lugar em zonas protegidas, ou uma ou duas outras escassas excepções, que mais não fazem do que ridicularizar a regra.
É claro que há ainda quem prefira o tão prendado “endireita” do fundo da aldeia do que o tal do senhor doutor da vila - sobretudo quando a maleita é maior do que a lucidez cultural do padecente. Mas não deveria ser aquela entidade que zela pelo bem estar e harmonia da sociedade (vulgo Estado) a definir quem tem a legitimidade técnica, cultural e académica para desempenhar uma função específica dentro dessa mesma organização social?
De facto o Estado fá-lo. Pena é que encare esta história de “fazer casinhas” como uma brincadeira sem males daí resultantes. (psst: haverá por aí algum psicólogo que posse informar esses senhores de que muitas das patologias contemporâneas têm origem no caos urbano em que nos movemos?).
De rir é o facto de a lei obrigar a que, em certas situações, como se disse atrás, os projectos tenham de ser da autoria de arquitectos. Então mas afinal um arquitecto sempre está mais apto a fazer arquitectura do que um não-arquitecto? (os menos néscios que me perdoem a evidência da retórica). E então só em certas situações é que é necessário acautelar que as coisas sejam feitas por técnicos realmente aptos? Olha... ‘tá boa!
Sejamos sérios, senhores! No número zero referi-me ao arquitecto como fazedor de cenários de vida. Não brinquemos com os cenários, porque os actores merecem poder preocupar-se apenas com a sua representação.
Vive-se numa estagnante crença generalizada de que fazer arquitectura é fazer casinhas. Perguntem a um arquitecto quantos dos clientes que lhe entram pela porta já trazem um desenho na algibeira, e eles apenas saberão dizer-lhes quão poucos o não fizeram. Pois claro: “três quartos virados a nascente, uma sala virada a sul, duas casas de banho (para as visitas não me encharcarem o tampo da sanita com fluídos alheios), uma cozinha muito gira (como vinha naquela revista com o monte da Tatá da Cunha Freitas e Andrade da Fonseca), e já está”. Pois está! O caos urbano e a inconsequência do marasmo artístico e técnico em que insistimos em mergulhar as nossas cidades e povoações.
E depois, nada como ir ao “endireita”:
“É só para fazer o boneco e assinar (porque a minha casa, já sei eu como é que ela vai ser). Arquitecto? Livra!! Esses é só para gastar dinheiro e fazer a vida difícil cá ao Zé.”
Pois já vimos, no número anterior, que o papel do arquitecto transcende, largamente, a questão do “boneco”. E raros serão os casos em que quem recorre aos serviços de um arquitecto, não descubra que, no fim de contas, acabou por poupar dinheiro na obra (porque tudo estava muito bem definido, programado, quantificado, contabilizado e previsto) e ficou com uma casa (quando se trata de moradias) bem mais interessante, personalizada e apropriada ao seu estilo de vida, do que aquela que trazia na algibeira quando entrou no gabinete de um técnico habilitado e competente (porque, como em todos os ramos, também haverá arquitectos que deixam a desejar na sua competência, e não-arquitectos que projectam com danos menores).
Um arquitecto tem uma formação profunda e altamente especializada (cada vez mais); tem uma actividade intensa que lida com as temáticas da utilização e fruição do espaço; conhece as diversas vertentes de relacionamento com o espaço (funcional, estética, emocional, simbólica, substantiva, provocadora, catalizadora das mais diversas funções e estados de espírito); possui uma prática crescente de concepção de espaços e edifícios, com a consequente confrontação com todo o tipo de problemas e possíveis soluções; adquire uma constante actualização dos seus conhecimentos de exemplos construídos, com toda a informação técnica subjacente; dedica a sua vida inteira ao estudo e compreensão destas questões e sua colocação em prática.
Mas para alguns, ainda é “o tal tipo chato que não percebe que a minha casa tem de ser como este boneco que eu fiz com a minha esposa”...
De facto, e graças ao famigerado 73 / 73 (número do artigo que define quem pode subescrever projectos de arquitectura, e quais as habilitações necessárias para o fazer), muitos outros profissionais, para além dos arquitectos, podem entregar (legitimamente e sem recurso às tão lusitanas “variantes às estradas principais”) projectos de arquitectura, desde que estes não correspondam a obras a ter lugar em zonas protegidas, ou uma ou duas outras escassas excepções, que mais não fazem do que ridicularizar a regra.
É claro que há ainda quem prefira o tão prendado “endireita” do fundo da aldeia do que o tal do senhor doutor da vila - sobretudo quando a maleita é maior do que a lucidez cultural do padecente. Mas não deveria ser aquela entidade que zela pelo bem estar e harmonia da sociedade (vulgo Estado) a definir quem tem a legitimidade técnica, cultural e académica para desempenhar uma função específica dentro dessa mesma organização social?
De facto o Estado fá-lo. Pena é que encare esta história de “fazer casinhas” como uma brincadeira sem males daí resultantes. (psst: haverá por aí algum psicólogo que posse informar esses senhores de que muitas das patologias contemporâneas têm origem no caos urbano em que nos movemos?).
De rir é o facto de a lei obrigar a que, em certas situações, como se disse atrás, os projectos tenham de ser da autoria de arquitectos. Então mas afinal um arquitecto sempre está mais apto a fazer arquitectura do que um não-arquitecto? (os menos néscios que me perdoem a evidência da retórica). E então só em certas situações é que é necessário acautelar que as coisas sejam feitas por técnicos realmente aptos? Olha... ‘tá boa!
Sejamos sérios, senhores! No número zero referi-me ao arquitecto como fazedor de cenários de vida. Não brinquemos com os cenários, porque os actores merecem poder preocupar-se apenas com a sua representação.
Vive-se numa estagnante crença generalizada de que fazer arquitectura é fazer casinhas. Perguntem a um arquitecto quantos dos clientes que lhe entram pela porta já trazem um desenho na algibeira, e eles apenas saberão dizer-lhes quão poucos o não fizeram. Pois claro: “três quartos virados a nascente, uma sala virada a sul, duas casas de banho (para as visitas não me encharcarem o tampo da sanita com fluídos alheios), uma cozinha muito gira (como vinha naquela revista com o monte da Tatá da Cunha Freitas e Andrade da Fonseca), e já está”. Pois está! O caos urbano e a inconsequência do marasmo artístico e técnico em que insistimos em mergulhar as nossas cidades e povoações.
E depois, nada como ir ao “endireita”:
“É só para fazer o boneco e assinar (porque a minha casa, já sei eu como é que ela vai ser). Arquitecto? Livra!! Esses é só para gastar dinheiro e fazer a vida difícil cá ao Zé.”
Pois já vimos, no número anterior, que o papel do arquitecto transcende, largamente, a questão do “boneco”. E raros serão os casos em que quem recorre aos serviços de um arquitecto, não descubra que, no fim de contas, acabou por poupar dinheiro na obra (porque tudo estava muito bem definido, programado, quantificado, contabilizado e previsto) e ficou com uma casa (quando se trata de moradias) bem mais interessante, personalizada e apropriada ao seu estilo de vida, do que aquela que trazia na algibeira quando entrou no gabinete de um técnico habilitado e competente (porque, como em todos os ramos, também haverá arquitectos que deixam a desejar na sua competência, e não-arquitectos que projectam com danos menores).
Um arquitecto tem uma formação profunda e altamente especializada (cada vez mais); tem uma actividade intensa que lida com as temáticas da utilização e fruição do espaço; conhece as diversas vertentes de relacionamento com o espaço (funcional, estética, emocional, simbólica, substantiva, provocadora, catalizadora das mais diversas funções e estados de espírito); possui uma prática crescente de concepção de espaços e edifícios, com a consequente confrontação com todo o tipo de problemas e possíveis soluções; adquire uma constante actualização dos seus conhecimentos de exemplos construídos, com toda a informação técnica subjacente; dedica a sua vida inteira ao estudo e compreensão destas questões e sua colocação em prática.
Mas para alguns, ainda é “o tal tipo chato que não percebe que a minha casa tem de ser como este boneco que eu fiz com a minha esposa”...
26 Maio 2004
01
Aquele que pode ser considerado como o número zero destas crónicas saiu, no passado dia 05 de Maio, amputado de parte do texto previsto. Azar? Antes um erro. Um simples erro de paginação. Erros que sucedem em qualquer processo de concretização de uma ideia, e que só não comete quem nada edifica.
(o texto em questão foi publicado na íntegra no dia 07, repondo a situação, com o devido esclarecimento aos leitores)
E este poderá ser o mote para que se tente clarificar o papel do arquitecto no longo e muito participado processo que leva à construção e fruição de um edifício ou objecto urbanístico.
Se é facilmente aceite que a verdadeira função do arquitecto, na sua génese, é a de conceber espaços e edifícios, não deixa de ser um facto que é na coordenação das diversas componentes e intervenções que permitem a boa execução desses mesmos edifícios e espaços, que a actuação do arquitecto mais é exigida, ainda que, numa análise mais lacónica, menos seja visível. E é também nessa linha que o arquitecto se torna, para o promotor da obra, indispensável. Este facto ganha tanta mais relevância quanto mais o dito promotor provém de meios alheios ao da construção civil, tendo o seu expoente máximo na corrente construção de habitação própria para particulares.
Das temáticas da concepção e das suas premissas e condicionantes (a montante) e reflexos e sensibilidades (a jusante), falar-se-á numa outra ocasião. Para já, tente-se compreender o arquitecto enquanto gestor de obra (no seu sentido lato - concepção_adjudicação_construção).
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Desta fácil (mas eficaz) citação, retire-se o cariz supersticioso - evitando alusões à prevalência de entidades etéreas (perdoem-me o cepticismo) - e acrescente-se uma outra frase (que cito de memória, sem estar certo do seu autor - Bergman?): A obra de criação compoem-se de 20% de inspiração e 80% de transpiração.
Portanto vejamos: Deus (chamemos-lhe assim) quer, o homem sonha, alguém trabalha, a obra nasce - assim já vamos lá!
E é neste novo ponto, acrescentado à frase do poeta (vá lá, não sejam fundamentalistas) que o arquitecto mais terá de intervir. Para permitir a boa execução de todas as partes mas, também, para salvaguardar a personalidade do seu objecto de criação e criatividade.
Sejamos francos: a esmagadora maioria das pessoas encara o recurso aos serviços de um arquitecto como algo de (infelizmente) inevitável.
Sejamos rigorosos: a esmagadora maioria das pessoas que recorre aos serviços de um arquitecto apercebe-se (mais cedo ou mais tarde) da importância e benifícios de o ter feito.
Um processo completo, até à construção, consta da elaboração de um programa, da concepção de linhas gerais de projecto (que vão dar corpo a esse programa e permitir o seu licenciamento), da elaboração de projectos específicos de todas as especialidades (estruturas, águas, esgotos, electricidade, etc), da definição de todos os detalhes construtivos (com materiais a utilizar e forma de os aplicar), da escolha de mão de obra competente e devidamente especializada, da pesquisa de formas e locais de aquisição dos materiais e equipamento, e da execução da obra propriamente dita. Não esquecer que cada uma destas fases inclui uma perspectiva de execuibilidade, dos pontos de vista técnico, económico e jurídico, assim como estético, construtivo e arquitectónico.
Será, pois, o arquitecto, a personagem que encabeça todo este processo e que proporciona a boa interacção de todas as partes. Desde a resposta aos desejos do promotor, passando pela verificação de que todas as especialidades se correspondem, de que as soluções técnicas adoptadas são execuíveis e compatívies (e pertinentes), de que o equipamento e materiais escolhidos cumprem a mesma função a que o projecto inicial se propôs, de que as opções tomadas constituem a melhor relação custo/desempenho, de que a mão de obra é capaz, de que não subsistem dúvidas na interpretação do projecto durante a execução da obra, até à capacidade de, em sistema de “golpe de rins”, por vezes ter de readaptar o curso do projecto à medida do contexto real - tudo isto é da competência do arquitecto.
Isto constitui a maior parte do trabalho do arquitecto, porquanto a breve fase da concepção sobressai no final, mas não vai além dos tais 20% de inspiração...
Erros, só os não comete quem nada edifica.
Mas, se houver um pólo dinamizador, que faz converger todas as energias, a probabilidade de que esses erros ocorram reduz-se na proporcionalidade inversa das hipóteses de optimização do processo.
E esse polo dinamizador - nesta perspectiva de gestor de obra (no seu sentido lato - concepção_adjudicação_construção) - é o arquitecto.
(o texto em questão foi publicado na íntegra no dia 07, repondo a situação, com o devido esclarecimento aos leitores)
E este poderá ser o mote para que se tente clarificar o papel do arquitecto no longo e muito participado processo que leva à construção e fruição de um edifício ou objecto urbanístico.
Se é facilmente aceite que a verdadeira função do arquitecto, na sua génese, é a de conceber espaços e edifícios, não deixa de ser um facto que é na coordenação das diversas componentes e intervenções que permitem a boa execução desses mesmos edifícios e espaços, que a actuação do arquitecto mais é exigida, ainda que, numa análise mais lacónica, menos seja visível. E é também nessa linha que o arquitecto se torna, para o promotor da obra, indispensável. Este facto ganha tanta mais relevância quanto mais o dito promotor provém de meios alheios ao da construção civil, tendo o seu expoente máximo na corrente construção de habitação própria para particulares.
Das temáticas da concepção e das suas premissas e condicionantes (a montante) e reflexos e sensibilidades (a jusante), falar-se-á numa outra ocasião. Para já, tente-se compreender o arquitecto enquanto gestor de obra (no seu sentido lato - concepção_adjudicação_construção).
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Desta fácil (mas eficaz) citação, retire-se o cariz supersticioso - evitando alusões à prevalência de entidades etéreas (perdoem-me o cepticismo) - e acrescente-se uma outra frase (que cito de memória, sem estar certo do seu autor - Bergman?): A obra de criação compoem-se de 20% de inspiração e 80% de transpiração.
Portanto vejamos: Deus (chamemos-lhe assim) quer, o homem sonha, alguém trabalha, a obra nasce - assim já vamos lá!
E é neste novo ponto, acrescentado à frase do poeta (vá lá, não sejam fundamentalistas) que o arquitecto mais terá de intervir. Para permitir a boa execução de todas as partes mas, também, para salvaguardar a personalidade do seu objecto de criação e criatividade.
Sejamos francos: a esmagadora maioria das pessoas encara o recurso aos serviços de um arquitecto como algo de (infelizmente) inevitável.
Sejamos rigorosos: a esmagadora maioria das pessoas que recorre aos serviços de um arquitecto apercebe-se (mais cedo ou mais tarde) da importância e benifícios de o ter feito.
Um processo completo, até à construção, consta da elaboração de um programa, da concepção de linhas gerais de projecto (que vão dar corpo a esse programa e permitir o seu licenciamento), da elaboração de projectos específicos de todas as especialidades (estruturas, águas, esgotos, electricidade, etc), da definição de todos os detalhes construtivos (com materiais a utilizar e forma de os aplicar), da escolha de mão de obra competente e devidamente especializada, da pesquisa de formas e locais de aquisição dos materiais e equipamento, e da execução da obra propriamente dita. Não esquecer que cada uma destas fases inclui uma perspectiva de execuibilidade, dos pontos de vista técnico, económico e jurídico, assim como estético, construtivo e arquitectónico.
Será, pois, o arquitecto, a personagem que encabeça todo este processo e que proporciona a boa interacção de todas as partes. Desde a resposta aos desejos do promotor, passando pela verificação de que todas as especialidades se correspondem, de que as soluções técnicas adoptadas são execuíveis e compatívies (e pertinentes), de que o equipamento e materiais escolhidos cumprem a mesma função a que o projecto inicial se propôs, de que as opções tomadas constituem a melhor relação custo/desempenho, de que a mão de obra é capaz, de que não subsistem dúvidas na interpretação do projecto durante a execução da obra, até à capacidade de, em sistema de “golpe de rins”, por vezes ter de readaptar o curso do projecto à medida do contexto real - tudo isto é da competência do arquitecto.
Isto constitui a maior parte do trabalho do arquitecto, porquanto a breve fase da concepção sobressai no final, mas não vai além dos tais 20% de inspiração...
Erros, só os não comete quem nada edifica.
Mas, se houver um pólo dinamizador, que faz converger todas as energias, a probabilidade de que esses erros ocorram reduz-se na proporcionalidade inversa das hipóteses de optimização do processo.
E esse polo dinamizador - nesta perspectiva de gestor de obra (no seu sentido lato - concepção_adjudicação_construção) - é o arquitecto.
05 Maio 2004
00
“Falar sobre as questões inerentes à arquitectura, numa série de crónicas”
Eis o fascinante, mas volumoso desafio que me foi lançado.
Porquê falar sobre arquitectura?
Porque tudo o que comporta a compreensão racional, sensorial e sensitiva do que nos rodeia transporta o homem para um plano bem mais digno da utilização do H maiúsculo, que ousámos atribuir, exclusivamente, à nossa espécie.
Porque cada um que me lê busca o contexto mais indicado para o fazer: recosta-se, da melhor forma que encontra, na cadeira; inclina ligeiramente esta página, para que a luz lhe seja favorável; escolhe o canto da sala onde se poderá concentrar melhor na leitura, ou, então, o local exacto para poder partilhar as suas considerações com os que o rodeiam.
Porque todas estas manobras não passam de discretos e inconscientes processos de organização e optimização do contexto social em que gravitamos - através da invenção, manipulação, ou apropriação do espaço e do design.
Porque a arquitectura, entendida como uma realidade técnica e especializada, mas também filosófica, artística e experimental, atingindo (consequentemente) a esfera do conceptual, está presente na esmagadora maioria do espaço humanizado deste planeta, com profundas influências na sociedade e na sua harmonia.
Porque a arquitectura, em toda a sua dimensão, lida com factores tão diversos e abrangentes como a arte, a sociologia, a política, a psicologia, o ambiente, a tecnologia, a economia, a saúde, etc, etc.
Porque os arquitectos, essas personagens alvo de amor e ódio, são os fazedores de cenários de vida.
Porque (citando as muito batidas palavras de Winston Churchill) “somos nós que fazemos as nossas casas, mas, depois, são elas que nos fazem a nós”.
Porque a arquitectura inspira-se em tudo o que nos rodeia.
Porque a arquitectura inspira tudo o que nos rodeia.
Porque a arquitectura tem de deixar de ser encarada como a inevitável concepção de edifícios e passar a ser entendida como uma desejável proposta de definição de espaços, em tudo o que este termo pode abranger.
Porque, afinal, de entre aqueles que se interessam suficientemente por um assunto tão presente nas nossa vidas, para me terem lido até aqui, quantos haverá que sabem, realmente, para que serve um arquitecto?
Foi Abril - mês de liberdade.
É Maio - mês de luta
D. Quixote - nome de sonhador.
Porquê falar de arquitectura?!
Eis o fascinante, mas volumoso desafio que me foi lançado.
Porquê falar sobre arquitectura?
Porque tudo o que comporta a compreensão racional, sensorial e sensitiva do que nos rodeia transporta o homem para um plano bem mais digno da utilização do H maiúsculo, que ousámos atribuir, exclusivamente, à nossa espécie.
Porque cada um que me lê busca o contexto mais indicado para o fazer: recosta-se, da melhor forma que encontra, na cadeira; inclina ligeiramente esta página, para que a luz lhe seja favorável; escolhe o canto da sala onde se poderá concentrar melhor na leitura, ou, então, o local exacto para poder partilhar as suas considerações com os que o rodeiam.
Porque todas estas manobras não passam de discretos e inconscientes processos de organização e optimização do contexto social em que gravitamos - através da invenção, manipulação, ou apropriação do espaço e do design.
Porque a arquitectura, entendida como uma realidade técnica e especializada, mas também filosófica, artística e experimental, atingindo (consequentemente) a esfera do conceptual, está presente na esmagadora maioria do espaço humanizado deste planeta, com profundas influências na sociedade e na sua harmonia.
Porque a arquitectura, em toda a sua dimensão, lida com factores tão diversos e abrangentes como a arte, a sociologia, a política, a psicologia, o ambiente, a tecnologia, a economia, a saúde, etc, etc.
Porque os arquitectos, essas personagens alvo de amor e ódio, são os fazedores de cenários de vida.
Porque (citando as muito batidas palavras de Winston Churchill) “somos nós que fazemos as nossas casas, mas, depois, são elas que nos fazem a nós”.
Porque a arquitectura inspira-se em tudo o que nos rodeia.
Porque a arquitectura inspira tudo o que nos rodeia.
Porque a arquitectura tem de deixar de ser encarada como a inevitável concepção de edifícios e passar a ser entendida como uma desejável proposta de definição de espaços, em tudo o que este termo pode abranger.
Porque, afinal, de entre aqueles que se interessam suficientemente por um assunto tão presente nas nossa vidas, para me terem lido até aqui, quantos haverá que sabem, realmente, para que serve um arquitecto?
Foi Abril - mês de liberdade.
É Maio - mês de luta
D. Quixote - nome de sonhador.
Porquê falar de arquitectura?!
